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Reconstituição de tortura por racismo adiada para agosto
Por: Redação - Fonte: Afropress: Foto - Uol Notícias - 27/7/2010

S. Paulo - A dez dias de completar um ano, a reconstituição do caso de agressão e tortura sofrida pelo vigilante Januário Alves de Santana, 40 anos, nas dependências da loja do Hipermercado Carrefour, da Avenida dos Autonomistas de Osasco, que deveria acontecer na manhã desta terça-feira (27/07) foi adiada para agosto.

A reconstituição foi marcada pela delegada Rosângela Máximo da Silva, do 9º DP de Osasco, que preside o inquérito para determinar a participação de cada um dos envolvidos na agressão. O vigilante foi perseguido, rendido e levado a um corredor nas dependências da loja, onde foi torturado por quase 30 minutos para que confessasse o roubo do seu próprio carro – um EcoSport.

Enquanto isso, sua mulher, Maria dos Remédios Alves de Santana, acompanhada de um filho menor, de uma irmã da vítima e do cunhado, faziam compras no hipermercado. O caso teve repercussão nacional e internacional a partir da denúncia feita por Afropress.

Prudência

O adiamento para a zero hora do dia 16 de agosto, uma segunda-feira, ocorreu por recomendação do perito Nicolau Constantino Demirsky, do Instituto de Criminalística de S. Paulo, para quem, a reconstituição em horário de expediente do hipermercado poderia causar pânico e tumulto, por causa das cenas fortes.

“Tudo será refeito e acho que não é prudente refazer tudo isso com a loja aberta, homens sacando armas, luta corporal no chão, isso pode causar tumulto e gerar pânico”, afirmou, depois de ouvir o relato do vigilante e refazer todo o trajeto, desde a perseguição no estacionamento até o momento em que foi rendido já dentro da loja e levado para um corredor, onde foi espancado.

Por causa das agressões Januário teve lesão de natureza grave, com fratura no maxilar esquerdo, perdeu uma prótese e ainda hoje tem seqüelas psicológicas. “Ainda tenho medo de andar sozinho”, afirmou.

Segundo o advogado Dojival Vieira, o acordo feito com o hipermercado não tem interferência na responsabilidade penal dos envolvidos. “O Carrefour adotou todas as providências necessárias para apuração dos fatos, bem como tomou a iniciativa de compensar Januário e seus familiares, em condições por eles consideradas plenamente satisfatórias. A empresa cumpriu a sua parte e fez o seu papel. Agora é a hora da Justiça fazer o seu, responsabilizando aqueles que atacaram de forma covarde, e sem qualquer chance de defesa, e ainda tentaram forçá-lo a confessar o roubo do seu próprio carro, tendo como motivação a discriminação racial, já que a suspeita decorreu do fato de Januário ser um negro com aparência humilde na direção de um EcoSport. Para isso é que é fundamental essa reconstituição. Confiamos na Justiça”, afirmou.

Nervosismo e tensão

A tentativa de reconstituição, que deveria ter sido iniciada às 10h, começou tensa. Acompanhada por viaturas da PM e pelo perito do Instituto de Criminalística, a delegada Rosângela da Silva, chegou à loja por volta das 11h e demonstrou irritação com a presença da Imprensa. Repórteres e câmeras das principais redes de TV se aglomeravam no estacionamento.

A delegada chegou a vetar, num primeiro momento, a presença do presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CONDEPE), jornalista Ivan Seixas, e da chefe da Coordenação de Políticas para a População Negra e Indígena da Secretaria da Justiça, professora Roseli de Oliveira, na reunião prévia para definição dos detalhes, mas depois voltou atrás.

“O que queremos é a busca da realidade dos fatos ocorridos naquela noite”, disse, depois de informar que os envolvidos na agressão - seguranças,funcionários e policiais – não estão obrigados por lei a participar da reconstituição.

Os policiais militares, inclusive o sargento José Pina – apontado por Januário de ter inicialmente reforçado as suspeitas contra ele, alegando que “tinha cara de ter pelo menos umas três passagens”, e de omissão de socorro, por tê-lo deixado caído, após comprovar que o carro lhe pertencia -, comunicou a delegada ordens do Comando da PM. “A exposição da imagem da PM só com autorização do nosso comandante”, afirmou.

No final, a decisão pelo adiamento foi comunicada aos acusados e aos advogados Dojival Vieira e Wagner Carvalho de Lacerda, do Carrefour.



- Leitor(a): Benedita Bernardes.

 

 

 

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