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A ação brutal de dois assassinos covardes contra um homem negro
17/05/2012
Líder evangélico negro quer adesão à Frente pró-Cotas/SP
S. Paulo - O pastor Luiz de Jesus, da Igreja Batista Boas Novas da Cidade Ademar, Zona Sul de S. Paulo, quer engajar o Movimento Negro evangéli
Redação

S. Paulo - O pastor Luiz de Jesus, da Igreja Batista Boas Novas da Cidade Ademar, Zona Sul de S. Paulo, quer engajar o Movimento Negro evangélico na luta pelas ações afirmativas e pelas cotas e anunciou a adesão à Frente Pró-Cotas Raciais de S. Paulo, formada na semana passada por mais de 50 entidades dos movimentos negro, estudantil, sindical e popular. “É preciso continuar pressionando as universidades públicas que não adotaram a política de cotas para que o façam já”, afirmou. O pastor é o coordenador geral do Seminário Negritude & Fé, que acontece nesta quinta-feira (17/05), a partir das 13h30, na Assembléia Legislativa, Parque do Ibirapuera, para discutir maior envolvimento dos evangélicos na luta contra o racismo. Ele criticou a omissão de certas Igrejas na luta contra contra a discriminação. “É inadmissível que a Igreja que prega o amor, a justiça, a igualdade e diz amar a Deus possa ficar indiferente à todas as formas de discriminação racial recorrentes em nossa sociedade”, afirmou. No mês que vem o pastor assumirá a presidência em S. Paulo da Aliança de Negras e Negros Evangélicos do Brasil (ANNEB), entidade fundada em 2006, presidida pelo pastor Marco David de Oliveira. A entidade está presente em cinco Estados da Federação (Bahia, Ceará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, S. Paulo) no Distrito Federal) e em processo de organização em outros cinco - Amapá, Goiás, Minas Gerais, Pará e Paraná. Segundo Luiz de Jesus há, no Brasil, cerca de 12 milhões de negros evangélicos distribuídos em várias denominações. Omissão Luiz criticou a omissão de certas Igrejas e de pastores. “Uma coisa que me entristece muito é ver tanta Igreja rica não investir um real em nenhum programa de Ação Afirmativa. Investem em carros importados, helicópteros, aviões, mansões, gados, fazenda, mas não investem em gente por quem Jesus morreu”, afirmou. O Seminário, que terá como tema “O Racismo Brasileiro no cotidiano do Século XXI", reunirá lideranças cristãs e evangélicas como Daniela Zeidan, Dinah Branchine, Paulo Saraiva, Daniela Gomes, Carlos Eduardo de Oliveira e a ex-coordenadora da Comissão da Igualdade Racial da OAB/SP, advogada Carmen Dora. Serão discutidos temas como O Negro na Bíblia, Preconceito na Igreja, Racismo institucional, Reparação Social, Cotas e Ações Afirmativas, Educação, Lei 10.639, Identidade Negra, Intolerância Religosa e Práticas de combate à Discriminação. O jornalista responsável e editor de Afropress, Dojival Vieira, foi convidado para falar sobre o tema “O Negro na Mídia”. Confira, na íntegra, a entrevista do coordenador geral do Seminário, Pastor Luiz de Jesus Afropress - Como surgiu e quem está organizando o Seminário Negritude & Fé? Luiz de Jesus - O Seminário Negritude & Fé surgiu em novembro de 2005, na Igreja Cristã Pão da Vida, que era localizada em frente ao Jockey Club (Zona Oeste). Ali se reunia um grupo de pessoas, na sua maioria negras, onde estudávamos a Bíblia e louvávamos a Deus, louvor recheado com muita black music, Groove, Jazz, R&B e Soul. O fato da maioria dos membros ser negras e negros foi um processo natural. Pelo depoimento dos próprios, ao visitarem a Igreja pela primeira vez e verem na liderança um pastor negro (João Adel), uma pastora negra (Daniela Zeidan) e uma boa música que trazia as suas raízes, houve uma identificação imediata com a Igreja. Embora a Igreja formada por negros, não era segregacionista, pois os seus líderes entendiam que a discriminação étnica sempre foi elemento de grande peso conjuntural e que caminha de mãos dadas com a grandiosa história da humanidade. Havia entre os membros, negros, brancos, mestiços, japoneses, enfim... Afinal, Deus é de todos. Às vésperas do feriado 20 de Novembro, eu o amigo Isaque Alves resolvemos fazer um Encontro para debater as questões raciais, pois entendíamos que ser uma Igreja com negritude, estava muito além da música e estilo. Nossa proposta era fazer uma reflexão sobre as questões raciais no Brasil e promover o combate às desigualdades e também pelo nosso entendimento, de que o discurso do enfrentamento das desigualdades raciais como imperativo para a democracia, ainda é um tabu dentro da Igreja evangélica. Foi aí que nasceu o conceito Negritude & Fé, que teve como tema “Debatendo as questões raciais dentro e fora da igreja”. Após esse encontro, houve vários pedidos para que organizássemos outro, devido à relevância da temática, e por não ser comum encontrar esse tema dentro de nossas igrejas. Começamos a nos envolver em questões cruciais da nossa sociedade, a saber, o Movimento Brasil Afirmativo, que teve como carro chefe a campanha pelas 100 mil assinaturas para a aprovação do estatuto da Igualdade Racial junto ao senador Paulo Paim, na qual assumimos com orgulho a coordenação junto com o Movimento Brasil Afirmativo e a Educafro e fomos até Brasília. Foi a partir daí que pensamos em realizar algo mais abrangente e transformamos o Encontro no Seminário Negritude & Fé, que teve sua 1ª edição em 2009, que abordou o tema: “Uma Luz sobre as questões raciais no Brasil”. Afropress - Qual é o objetivo do Seminário e que propostas os cristãos negros deverão assumir no sentido de fazer avançar a luta pela igualdade em nosso país? Luiz de Jesus - O objetivo do Seminário é debater e tratar das múltiplas visões a respeito do tema por meio de convidados com propriedade sobre o assunto e também abordar sobre as políticas de ações afirmativas e reparatórias, propondo uma reflexão a respeito da contribuição da Igreja evangélica na responsabilidade social e étnico-racial. O protestantismo histórico no Brasil é composto pelas primeiras Igrejas (denominações) que chegaram ao Brasil por meio de missionários estrangeiros: Congregacionais, Batistas, Presbiterianos, Metodistas, Luteranas, Anglicanas. Essas Igrejas chegaram ao Brasil no período da escravidão e tiveram entre seus lideres defensores da escravidão, omissos, e abolicionistas. Os protestantes omissos defendiam a posição da grande maioria dos históricos a respeito da escravidão negra, também defendia a sua posição teologicamente, afirmando que a Igreja não devia interferir no Estado, ou seja, na política. Esses missionários sulistas tinham a escravidão como instituída por Deus, baseados em fatos teológicos que o povo negro era da descendência de Cam filho de Noé, amaldiçoado para ser escravo dos escravos. Em pleno século XXI, infelizmente ainda ouvimos este discurso racista vindo de alguns pastores. O seminário tem como proposta fortalecer o Movimento Negro Evangélico, articulando as organizações e lideranças, aumentando o envolvimento da Igreja Evangélica brasileira na questão racial e negritude, promovendo a superação de toda e qualquer forma de racismo e intolerância, buscando políticas de ações afirmativas e reparação das injustiças históricas, econômicas e sociais impostas a população negra através da discriminação racial. Afropress - Como acompanhou e o que espera que ocorra após a decisão do STF que declarou a constitucionalidade das ações afirmativas e das cotas raciais? Luiz de Jesus - Eu tive a felicidade de participar deste acontecimento histórico. Fui, junto com a Educafro e a Faculdade Zumbi dos Palmares. Reunimos-nos na Praça dos Três Poderes, onde houve um ato religioso, momento em que foi feito a benção do envio onde orei pelos advogados que iriam fazer a sustentação oral pró-cotas da ADPF 186 e pude ali pedi a Deus que Ele interviesse em nosso favor. Na ocasião, o cineasta norte americano Spike Lee, fez tomadas para o seu novo filme, o documentário “Brazil Go Brazil”. Depois entrei no STF e fiquei até o final do primeiro dia que terminou com o primeiro e brilhante voto do relator Levandovski. Só quem estava lá para ver e sentir. Como o protocolo não permite nenhuma manifestação, entre sorrisos e euforia, houve algumas mãos levantadas virando de um lado para o outro, como se fosse uma salva de palmas, porém, silenciosa. Mas os seguranças “ouvindo” nossa manifestação desesperados acenavam que não podia, mas o sinal foi se espalhando por todo o STF. A minha vontade era explodir o protocolo, dando um glória a Deus bem alto. Era uma sensação de que a justiça de Deus estava começando a ser feita. Agora precisamos continuar pressionando as universidades públicas que não adotaram a política de cotas, para que façam já. E nessa luta, estamos juntos com a Frente Pró Cotas Raciais de São Paulo. Como diz o movimento: “Contra as cotas, só os racistas.” Afropress - Como os cristãos negros pretendem se inserir no movimento negro nacional para mudar a realidade da desvantagem que a população negra ocupa, fruto dos quase 400 anos de escravismo e de mais 124 anos de racismo pós abolição? Luiz de Jesus - Primeiramente precisamos de organização. Quando o povo hebreu era escravo no Egito, Deus enviou Moisés para libertá-lo, mas antes o povo precisou se organizar. Para isso foi criada a ANNEB- Aliança de Negras e Negros Evangélicos do Brasil. Uma organização social que foi fundada em 2006, representada em 4 (quatro) Regiões Brasileiras:Centro-Oeste, Nordeste, Sudeste e Sul e em 6 (seis) Unidades da Federação: Bahia, Ceará, Distrito Federal, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e em processo de criação no Amapá, Goiás, Minas Gerais, Pará e Paraná. A ANNEB tem a missão de elaborar e implementar em todas as esferas do segmento evangélico do Brasil, o debate da questão racial e negritude, com ações afirmativas e reparações teológicas sob a ótica da população negra destinadas a garantir a igualdade de oportunidade e de direitos entre todas e todos, de forma a assegurar o pleno exercício de sua cidadania. A instituição emerge levando em conta que, historicamente, as Igrejas evangélicas sempre se omitiram em relação às questões racial, social e de gênero, desconhecem os anos de luta da negritude pelo reconhecimento de sua identidade. Há a necessidade de alertarmos as lideranças evangélicas sobre a persistência de um sistema que ainda mantém a negra e o negro longe das esferas de decisão, reproduzindo nas estruturas das Igrejas a discriminação, o preconceito e o racismo. Fui convidado pelo Executivo Nacional da ANNEB, pastor Marco Davi de Oliveira, para presidir a ANNEB/SP, o que acontecerá no próximo mês. É uma grande honra para mim. Entendo como um chamado missionário de Deus para minha vida. Afropress - Quantos são os cristãos negros no Brasil, hoje? E em S. Paulo? Temos números? Luiz de Jesus - Os últimos dados do IBGE apontam11.951.347 negros evangélicos. Estamos aguardando a divulgação do Censo de 2010 por religiões, que provavelmente sairá em setembro. Acreditamos que este número tenha dobrado. Afropress - Faça as considerações que julgar pertinentes. Luiz de Jesus - Desde que fui ordenado ao pastorado recebi várias críticas por estar envolvido nas questões raciais. A minha resposta para estas pessoas é bem simples. Antes de ser pastor, eu era negro e depois de pastor, continuo sendo negro. Minha fé não anula a minha negritude e vice e versa. A Bíblia diz que aquele que oprime o pobre, fere o coração do Criador (Prov. 14:31). É inadmissível que a Igreja que prega o amor, a justiça, a igualdade e diz amar a Deus, possa ficar indiferente com todas as formas de discriminação racial recorrente em nossa sociedade. Em todos os atos que tenho participado, sinto a ausência da Igreja evangélica. Hoje congrego na Igreja Batista Boas Novas - Cidade Ademar, onde tenho o incentivo do pastor e o apoio da igreja para desenvolver meu ministério social. Congrego em um lugar, onde adoramos o Deus de todas as raças, e que não faz acepção de pessoas. Penso que os pastores deveriam sair detrás dos púlpitos e se preocuparem mais como a prática do amor. Jesus sempre esteve com a minoria. Ele falava e agia. Havia coerência entre a Sua fala e a Sua prática. Pois o amor sem ação não passa de um discurso vazio. A fé sem obras é morta. Uma coisa que me entristece muito é ver tanta igreja rica, não investir um real em nenhum programa de Ação Afirmativa. Investem em carros importados, helicópteros, aviões, mansões, gados, fazenda, mas não investem em gente por quem Jesus morreu.
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