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29/01/2008
O caso do cartão da ministra e o papel de bode expiatório
O tiroteio sobre a ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), alvo, há quase duas semanas, do pesado bombardeio da grande imprensa – incluídos aí os grandes jornais e telejornais e, claro, o Jornal Nacional da TV Globo, dirigido por Ali Kamel – tem um só objetivo: esconder o verdadeiro campeão da gastança com cartões corporativos.

Ele tem nome e sobrenome e ocupa o terceiro andar do Palácio do Planalto: é nada menos que o próprio Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cujo cartão corporativo inclui os gastos da Presidência da República - leia-se, a primeira dama Marisa Letícia e familiares. Qualquer investigação séria para apurar a origem e os autores dos gastos chegará à mesma conclusão. Senão, vejamos: Matilde é acusada de ser recordista por ter utilizado durante o ano passado R$171,5 mil reais – a maior parte em gastos pessoais, com aluguéis de carro, hospedagem em hotéis e resorts, padarias, bares e restaurantes de luxo. Acontece que os demais integrantes do Governo que têm autorização para usar o cartão – inclusive o Presidente da República e família – são cerca de 13 mil e torraram R$ 75,6 milhões. Quem, afinal são os campeões de gastos? Porque os seus nomes não aparecem? Por que razão os jornais omitem um dado tão eloqüente? Onde está o jornalismo investigativo, a busca pela verdade? Porque o Portal Transparência do próprio Governo, que revelou os dados, não divulga os nomes dos responsáveis pelos outros mais de 75 milhões gastos? A resposta, ou melhor, as respostas, são simples e são duas, pelo menos. Primeiro, porque se investigassem chegariam ao terceiro andar do Palácio do Planalto. No ano passado, a Presidência da República respondeu sózinha pelo gasto de R$ 16 milhões. O segundo, porque o mais conveniente e cômodo é recorrer aos bodes expiatórios de sempre, nós os negros – no caso da ministra, uma mulher e negra. Álibi perfeito para um crime surrado: joga-se a culpa na ministra negra e, com isso, desvia-se a atenção dos verdadeiros gastadores. Não, por outra razão, e muito provavelmente por orientação do próprio Lula, a ministra chefe da Casa Civil, Dilma Rouseff adiantou-se nesta terça-feira (29/01) e remeteu também para a Controladoria Geral da União, o caso do ministro da Aqüicultura e Pesca, Altemir Gregolin, o segundo colocado, no quesito despesas pagas com cartão. Gregolin gastou R$ 21,6 mil. Faz parte da tática para não deixar Matilde fritando sozinha e ainda dá um certo ar de imparcialidade na investigação até aqui dirigida apenas e exclusivamente para a ministra da Seppir. Para a mídia, que pratica racismo institucional sistematicamente, é perfeito exibir a “ministra da igualdade racial” como perdulária, recordista na gastança desenfreada que ofende os cidadãos e cidadãs – negros ou não. O que é surpreendente, porém, é que a ministra, que deveria, sim, não esquecer que vive em uma sociedade racista, em um Estado e um Governo racistas - como todos os demais, independente do partido a que pertençam -, aceite ir para o sacrifício, aceite ser imolada, em nome não se sabe de que: se da lealdade ao Presidente ou se da obediência ao Partido. Também é surpreendente a ausência de defesa por parte dos seus companheiros, aí incluídos militantes do seu partido, companheiros de Academia e do Movimento, todos – com raras e honrosas exceções - num silêncio ensurdecedor. Não houve sequer um nome de destaque que se levantasse em sua defesa, o que torna o movimento de fritura ainda mais suspeito. Nós, da Afropress, não nos guiamos nem nos pautamos por simpatias, nem por antipatias fáceis ou gratuitas, mas sim por fatos. Certamente, alguns dos chefões e chefetes que se comportam, em São Paulo, como donos do Movimento Negro (com a pretensão, inclusive, de tentar atropelar e passar por cima das vozes dissonantes, que ousam, como nós, preservar a nossa independência de Partidos e de Governos) e que, surpreendentemente, se mantém calados, desdenharão da nossa posição. Não nos importamos. Nos importa, apenas uma coisa: a verdade. E a verdade é que, a despeito dos equívocos, neste caso, Matilde é vítima. Não temos nenhuma procuração para defendê-la. Não o fazemos por interesses subalternos e mesquinhos, como também, consideramos patética a tentativa de vitimização ensaiada por algumas vozes, que, carentes de independência para apontar o dedo na direção correta, preferem as surradas teses de conspiração, que servem pra tudo e para qualquer coisa. Não é disso que se trata. A ministra Matilde, se sobreviver ao tiroteio político de que é alvo e vítima, não deve nunca mais esquecer duas coisas: a primeira é de que um negro ou negra, quando aceita o papel de símbolo no Estado racista deve sempre lembrar que, não é por ocupar este ou aquele cargo de importância, que o Estado terá perdido a sua principal característica: a de ser racista e excludente; a segunda é que para este Estado, o espaço reservado a nós negros, é o da subalternidade. Um negro ou negra, portanto, que deixa o espaço da subalternidade terá contra si todos os olhos e ouvidos da elite beneficiária dos 350 anos de escravidão e dos 120 anos do pós-abolição, que – por puro racismo – jamais se conformará que ocupemos o papel de protagonistas. Veja-se as resistências e as idiossincrasias que têm enfrentado no próprio Supremo Tribunal Federal, o único ministro negro, Joaquim Barbosa. Benedita da Silva cometeu a imprudência de viajar à Buenos Aires para participar de um culto evangélico, com dinheiro público – pouco mais de R$ 5 mil. Sabemos no que deu. Enquanto isso o chefão do mensalão, o ex-deputado José Dirceu, só saiu quando cassado pelo Congresso. Nunca é demais lembrar as lições do geógrafo Milton Santos: "Ser negro no Brasil é frequentemente ser objeto de um olhar vesgo e ambíguo. Essa ambiguidade marca a convivência cotidiana, influi sobre o debate acadêmico, e o discurso individualmente repetido é, também, utilizado por governos, partidos e instituições." Todo o cuidado é pouco e deve ser redobrado. Cuidado e cautela, nos mínimos detalhes, acrescentamos: o inimigo estará atento para desfechar o ataque ao menor descuido. Devia a ministra saber que os adeptos da moralidade pública racista – segundo a qual para um branco tudo pode, inclusive desviar dinheiro público, mas para um negro, a mínima desatenção, será motivo de linchamento – estariam de olhos e ouvidos atentos aos seus gastos com cartões corporativos. Ao que tudo indica, Matilde deixou a guarda aberta. Entretanto, a despeito dos erros, a despeito da Seppir ser muito mais a expressão do loteamento político de partidos da base do governo, e estar ainda distante de cumprir o papel que dela se espera, o nosso compromisso é com a verdade. O verdadeiro gastador, o verdadeiro campeão dos gastos com cartões corporativos, não é a ministra, que apenas aceita passivamente, como símbolo que é, o papel de bode expiatório da gastança. O verdadeiro gastador está no terceiro andar do Palácio do Planalto e atende pelo nome de Luiz Inácio Lula da Silva, o Presidente.
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