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21/10/2011
Luiza Bairros rasgou discurso de posse

A promessa de uma entrevista pela ministra chefe da SEPPIR, socióloga Luiza Bairros, a esta <b>Afropress</b>, no último domingo (16/10) não passou de um show de arrogância, truculência e despreparo que nada fica a dever a episódios lamentáveis em que repórteres e profissionais de imprensa são costumeiramente alvos da hostilidade e do desrespeito no exercício da profissão, por parte de espíritos pouco habituados à liberdade de crítica e de opinião.

Não há exagero no que acima está dito. Em 9minutos e 28 segundos, Bairros conseguiu a um só tempo demonstrar: 1) que não entendeu que agentes públicos não fazem favor quando falam dos seus atos, mas tem, isto sim, obrigação de prestar contas a sociedade; 2) que tem uma dificuldade visceral em compreender que, numa entrevista, o direito de perguntar pertence ao profissional de imprensa, e não o contrário; 3) que é zero no quesito gestão política - indispensável a quem quer que ocupe cargos públicos em um Estado democrático de direito, em que o diálogo e o tratamento respeitoso entre os interlocutores é requisito exigido pela Educação e pela urbanidade.

Ainda que admitindo nada entender de Jornalismo (a noção do que é uma entrevista não requer conhecimento especializado, por óbvio), a falta de noção de Bairros em relação a um e outro conceitos, não a impediu de tentar dar aulas do que entende se tratar de “bom jornalismo” Por esse tosco conceito, jornalistas não podem escrever sobre sua Secretaria, que é ligada à Presidência da República e tem status de Ministério, sem conversar com ela, decerto para pedir sua autorização, sabe-se lá. Deu para entender, caro leitor (a) em que mundo estamos?

Nos regimes autoritários, que não reconhecem o direito à liberdade de expressão, ao contrário do nosso, é assim mesmo que as coisas funcionam. A liberdade de expressão está condicionada a opinião e ao parecer prévio de quem ocupa o poder. Jornalista que rompe com essa regrinha básica corre riscos - no mínimo, o de virar persona non grata.

Mas, o interessante é que, mesmo afirmando que não se deteria numa análise (“não sou especialista"), a ministra prosseguiu no monólogo, sem se dar conta que aí já violara um princípio básico da relação entrevistador/entrevistado: numa entrevista é o entrevistador quem faz perguntas e conduz a entrevista; o entrevistado responde, ou não responde. Para Luiza Bairros, porém, a um profissional de imprensa cabe apenas copiar o que dita, sem o direito de fazer perguntas. Alguma coisa assim: “senta aí e escreva o que vou lhe ditar”, foi precisamente a atitude, com que Bairros pretendeu traduzir a sua imensa má vontade, hostilidade e prevenção, mal contidas em sorrisos nervosos.

Não bastasse isso, tentou explicar, também pela via do ditado, o episódio em que deixou o correspondente de Afropress por duas horas, sem qualquer aviso esperando-a para uma entrevista no Hotel Waldorf Astoria, de Nova York, que havia sido confirmada por sua assessoria, em setembro passado, quando participou das celebrações dos 10 anos da Conferência de Durban. A ministra justificou-se alegando que o correspondente não deixara o telefone de contato. Cadette, contudo, a desmente e nós temos como provar que o telefone de contato do correspondente foi passado a sua assessora de Imprensa Juci Machado.

A razão do mau humor e da irritação da ministra teria sido a avaliação que corre na Esplanada de que tem atuação apagada, avaliação que Afropress apenas reproduziu, mas com a qual compartilha, depois de checar fontes várias. O desconforto de alas cada vez maiores do Partido dos Trabalhadores (PT), a qual é também filiada, com o seu estilo fechado, hermético e pouco afeito ao diálogo e a gestão política, não é recente, mas vem crescendo. Entre as várias correntes em que se divide o movimento negro, não se digeriu os atos de Luiza Bairros que, ao chegar na Esplanada, pretendeu “inventar a roda“, e desconstruir ações dos seus antecessores - de Matilde a Elói Ferreira de Araújo.

Aos fatos: a) uma vez sentada na cadeira de ministra, de uma penada, exonerou todos os quadros da SEPPIR, como se fora parte de uma equipe de um Governo de Oposição, todos via Diário Oficial e levou para Brasília um time de neófitos, a maior parte deles, do seu grupo político na Bahia; b) chegou a pretender cunhar como lema de sua gestão “O igualdade racial. Agora é prá valer”. Foi necessário que a Casa Civil interviesse para lembrá-la de que o Governo da Presidente Dilma era a continuidade do anterior e as peças tiveram de ser mudadas com a retirada do advérbio.

Mais recentemente, no caso do Parecer do livro Caçadas de Pedrinho, relatado pela professora Nilma Lino Gomes, a ministra teria orientado o Ouvidor, advogado Carlos Alberto de Souza e Silva Jr., a entrar com recurso administrativo da decisão do ministro Fernando Haddad, que homologou o Parecer 06/2011, do CNE. Embora o Parecer seja o resultado de um recuo da Câmara de Educação Básica e da relatora, na medida em que não se opõe, de fato a compra de livros com estereótipos racistas com dinheiro público - o que acabará levando o caso ao Supremo Tribunal Federal pela firme e elogiável disposição do professor Antonio Gomes da Costa Neto, autor da representação -, analistas na Esplanada, lembram que a SEPPIR poderia e deveria, sim, ter recorrido ao Pleno do Conselho, jamais da decisão de um outro ministro, o que deixará a Presidente Dilma em posição de óbvio desconforto, uma vez que terá que desautorizar um ou outro.

Seja como for, a postura e o excesso de arrogância da ministra chefe, só pode ter tido uma intenção: enquadrar esta Afropress e o seu editor pela via da intimidação. Se, de fato, foi o que pretendeu, a ministra chefe errou duas vezes: de método e de alvo. Existimos há seis anos, sem apoio nem ajuda de governos, nem do Estado, buscando fazer jornalismo independente e de qualidade, dando voz e visibilidade as mais distintas posições do movimento negro brasileiro, sem estar presos a simpatias, antipatias ou idiossincrasias de partidos, governos ou grupos.

O trabalho sério que fazemos com um número reduzidíssimo de jornalistas, colunistas, correspondentes e colaboradores voluntários comprometidos com a Causa da Igualdade no Brasil, é o que explica a credibilidade que conquistamos. Ao longo dos seis anos, enfrentamos todo o tipo de ameaças, inclusive à integridade física de jornalistas e editor, sem jamais nos desviar, um milímetro que fôsse, da nossa linha editorial.

Independente da vontade e dos humores da ministra, da sua hostilidade declarada ao trabalho que fazemos - crítico, independente e avesso ao jornalismo chapa branca que não é bom nem mau, porque nem jornalismo é - nosso trabalho continuará. Foi assim com os outros quatro ministros que passaram pela SEPPIR - incluído o interino Martvs Chagas. Com todos sempre tivemos e mantivemos um relacionamento profissional e respeitoso, independente de críticas a esta ou aquela atitude ou ação.

De nenhum deles recebemos o tratamento gratuitamente hostil, que tem sido a marca desta gestão Luiza Bairros. Nem se diga que a má vontade tem a ver com alguma crítica mais dura, mais acerba. Ao contrário: no único editorial em que nos posicionamos, postado no dia 04 de janeiro deste ano foi para elogiar o discurso de posse, que ela parece ter rasgado logo em seguida, tornando letra morte, declarações de efeito e solenes propósitos. http://www.afropress.com/editorialListLer.asp?ID=95

Nos surpreende que a tentativa de intimidação parta de onde parte, mas de qualquer sorte, será enfrentada com a altivez de sempre, sem a qual nada vale à pena. Mesmo porque, quando a ministra sair, nesta reforma ou em qualquer outra, nós continuaremos fazendo o trabalho que fazemos, sem cargos e sem as glórias de quem exerce o Poder - e quase sempre esquece - que são efêmeras e passam. A ministra Luiza Bairros, principalmente, não aprendeu que o problema nunca são as perguntas, mas as respostas. Ou a falta delas, como foi o caso.


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