15 de Agosto de 2020 |
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27/01/2012
A saída da ministra e a prática do Jornalismo que não se confunde com propaganda
Ainda que a Presidente Dilma Rousseff venha a não aceitar a sugestão do ex-Presidente Lula de nomear o senador Paulo Paim para a Secretaria da Igualdade Racial, ou que Paim decida que o melhor é continuar no Senado, uma coisa é certa: não há um único analista bem informado que aposte um tostão na continuidade da ministra Luiza Bairros no cargo.

Todos rigorosamente dão como favas contadas que a SEPPIR terá novo ou nova titular a partir do próximo mês, quando a Presidente, retornando das viagens a Cuba e ao Haiti, completará a mini-reforma ministerial. Apenas uns poucos porta-vozes, sob o comando de notório bravateiro, que tem por hábito o alarido e o mau costume de dirigir-se aos interlocutores como se deles fosse superior, (desnecessário frisar que, em relação a brancos com algum poder sua postura é diametralmente oposta), insiste em ignorar o óbvio. E pior: tais figuras – especialmente, o notório boquirroto - passaram a apostar na desinformação e na manipulação como estratégia para esconder o que todos os grandes jornais, como a Folha de S. Paulo - e não apenas a Afropress – deram com destaque. Nenhuma linha, nenhum registro, tampouco da entrevista em que Paim tornou públicos o descontentamento e o desconforto com esse modelo de gestão da SEPPIR, foi registrada pelos seguidores da ministra, pois em se tratando de comunicação, o máximo que admitem é a propaganda. Daí, o Jornalismo que fazemos - que não se confunde com genéricos “chapas brancas” encontráveis na praça - ter passado a figurar como inimigo a ser abatido, no vale-tudo insano a que se propuseram e na crença vã de que nos calarão. E o pior é que a posição, que condiciona o debate democrático à fixação de regras prévias à cargo de quem está no Poder, parece encontrar eco em declaração recente da - por enquanto - ministra Luíza Bairros. Ao responder a críticas do Presidente da Federação Nacional da Tradição e Cultura Afro-Brasileira (FENATRAB) e do Conselho de Ministros do Instituto Latino-Americano de Tradições Afro-Bantu (ILABANTU), sacerdote Walmir Damasceno (Tata Kwa Nkisi Katuvanjesi), que pediu sua saída, Bairros, em resposta ao jornalista Roldão Arruda de O Estado de S. Paulo, disse o que pensa. Disputas políticas são saudáveis, porém, esse debate não pode ocorrer na base da desqualificação sistemática de quem ocupa cargos nos ministérios, disse ela, para concluir no tom professoral que caracteriza suas falas: “Uma coisa que as pessoas não percebem é que, numa sociedade racista, os ataques a uma pessoa negra acabam atingindo a todos nós, negros. É assim que o racismo opera” (...). A declaração passou desapercebida, mas é reveladora. Por essa ótica todos nós negros, independente das nossas diferenças religiosas, políticas, partidárias, ideológicas, culturais, devemos nos conformar e nos alinhar ao padrão uniforme de pensamento. Apenas os brancos tem o direito ao debate livre de idéias. A nós, restaria o papel de nos conformar ao que uns poucos (os donos do movimento e ou ocupantes de ministérios), digam que é certo ou errado. A conclusão não poderia ser mais óbvia. Negro que joga no meu time, pensa como eu, ou me obedece, é amigo. Negro que não joga no meu time, é inimigo. Suas opiniões em relação ao que penso – se tiverem a ousadia de expressá-las em público – significam “desqualificação pessoal” e devem ser tratadas como manifestação de racismo – “é a lógica como o racismo opera”, nas palavras da ministra. Eis a síntese. A concepção estreita de Bairros e seus seguidores é rigorosamente antidemocrática, retrógrada porque toma divergência de opinião como sinônimo de “desqualificação pessoal”. No que nos toca, não abrimos mão do direito constitucional à liberdade de opinião e expressão, ao nos propormos ao desafio - que alguém já chamou de “missão suicida” - de fazer Jornalismo, independente do Estado, de Partidos, de Governos, comprometido com a luta antirracista e por Igualdade, sem ignorar as nossas próprias contradições. Ao fazê-lo, com todos os sacrifícios, incompreensões - e também erros, por óbvio, como acontece em qualquer atividade humana - apostamos na formação de uma opinião pública negra e antirracista - independente de partidos e de governos - capaz de influenciar na pauta política do país, sem o que não teremos mudanças profundas no Brasil. Por isso, somos tratados como inimigos, ainda que nos quase sete anos da Afropress não se registre em nossas críticas – por mais duras e contundentes -, uma vírgula que tenha enveredado para o terreno da desqualificação pessoal. Nesse sentido, a posição sempre sensata, equilibrada e séria do senador Paulo Paim, ao advogar que a SEPPIR “precisa de uma chacoalhada”, é a melhor resposta, fala por nós. “(...) é uma mídia competente, crítica e tem de ser crítica mesmo, fazer mais uma mídia prá bater palmas para o Poder não tem sentido de ser, mas ouvindo a todos, naturalmente de forma equilibrada, mas apontando caminhos e fazendo entrevistas que tenham um mínimo de senso crítico propositivo, eu diria, em relação ao que está aí, por isso que ela é tão lida”, foram literalmente as palavras com que se referiu a Afropress. A SEPPIR que o Movimento Negro demandou, esse espaço mínimo nas entranhas do Estado racista brasileiro, não pode ser ocupado por quem não tem a mínima noção do que significa o direito democrático de opinião e de expressão. Como se vê, não é por acaso que a avaliação da atual gestão da SEPPIR, na Esplanada se resume numa palavra: apagada.
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