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Ativista negra se declara inocente e acusa justiça seletiva
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17/03/2012
Basta de humor fascistóide. Não passarão!
Um grupo de pseudo-humoristas sem nenhum talento, com tendências claramente fascistóides resolveu que negros, portadores de deficiência, mulheres, crianças e homossexuais, em suma, os setores sociais mais vulneráveis, tem uma única função: servir de alvo para a expressão da sua mediocridade e da sua total falta de noção quanto aos limites da vida em sociedade e num Estado Democrático de Direito.

O mais recente caso envolvendo o músico Raphael Lopes, comparado a um “macaco” no show de horrores promovido numa casa noturna de S. Paulo, pelo pseudo comediante Felipe Hamachi, expõe e revela que estamos diante, não apenas de uma piada racista (sem a menor graça como toda piada, que tem como fim botar no lixo a dignidade humana) mas de um fenômeno político que se manifesta nesse tipo de humor com traços abertamente fascistóides e nazistóides. Seu objetivo é depreciar a condição humana, é naturalizar a violência contra negros e demais setores vulneráveis, é banalizar o que há de essencial na vida. Negros, portadores de deficiência, mulheres, crianças são transformados, nesse contexto, na escória, cuja única utilidade é servir de matéria prima do riso fácil para meninos bem-nascidos. É fascistóide precisamente por isso. É covarde, porque seu alvo são os discriminados, numa sociedade capitalista que se alimenta da exploração e da exclusão. Por isso quando um certo Bruninho Mano, no mesmo referido bizarro show, afirma que “é melhor comer uma criancinha de 5 anos do que uma cadeirante porque a cadeirante não tem firmeza nas pernas”, e uma platéia idiotizada acha graça na perversão, estamos diante da negação pura e simples, de valores civilizatórios que custaram séculos para se consolidarem na vida em sociedade. Essa espécie de humor como toda a tendência fascistóide é regressiva. Provavelmente há séculos, antes da humanidade atingir o estágio civilizatório em que nos encontramos, comunidades primitivas deviam achar graça nesse tipo de piada. Que ainda hoje filhos da classe média paulistana paguem ingresso e se divirtam com esse tipo de aberração, é apenas o sinal do perigo representado por impulsos primitivos e pela barbárie. Tais sinais precisam ser identificados e derrotados. Enquanto é tempo. Convêm nunca esquecer a lição de Bertolt Brecht em "No Caminho, com Maiakósvski". (...) Tu sabes, conheces melhor do que eu a velha história. Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho e nossa casa, rouba-nos a luz e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada. Nos dias que correm a ninguém é dado repousar a cabeça alheia ao terror. Os humildes baixam a cerviz: e nós, que não temos pacto algum com os senhores do mundo, por temor nos calamos. No silêncio de meu quarto a ousadia me afogueia as faces e eu fantasio um levante; mas amanhã, diante do juiz, talvez meus lábios calem a verdade como um foco de germes capaz de me destruir. (...) Soa patético ouvir tais figuras invocando o direito a liberdade de expressão para cometerem tais atrocidades. Querem destruir nas pessoas o que elas tem de mais elevado – que é a sua dignidade humana – e preferem fazê-lo contando com o nosso silêncio cúmplice. Pretendem, com a arrogância que é peculiar a quem se acha acima do bem e do mal que, ao denunciá-los, estejamos praticando censura como se, até mesmo o direito de parar a mão do carrasco em legítima defesa, tivéssemos perdido. Chega! Basta! Os setores vulneráveis que resistem e lutam para manter sua dignidade numa sociedade injusta, racista, homofóbica e de exploração, não aceitam serem transformados numa espécie de "Geni" da meia dúzia de "mauricinhos", transformados em celebridades instantâneas pelas redes sociais. A luta do músico Raphael Lopes, que teve a coragem de denunciar os pseudo-humoristas reunidos no show bizarro, que não por acaso levou o nome de “Proibidão”, é a luta de toda a sociedade brasileira que rejeita a regressão e a barbárie e repudia o atentado à liberdade de expressão que é a ação fascistóide de tais humoristas. Todas as medidas, no plano penal, com a abertura de Inquérito e investigação para apurar a autoria e a materialidade dos crimes cometidos; no plano administrativo, com a aplicação da Lei 14.187/2010, que pune o crime da discriminação racial na esfera administrativa; e no plano cível, com a indenização por danos morais, já estão sendo tomadas junto às autoridades responsáveis, para que a impunidade, mais uma vez, não prevaleça como é tradição nesse país de impunidades. Essa onda do politicamente incorreto que envereda para o políticamente criminoso, não é humor, nem arte: é apenas a expressão política de grupos com tendências fascistóides e ausência de talento em busca de notoriedade fácil. Não passarão!
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