23 de Agosto de 2019 |
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25/11/2012
O racismo brasileiro e a posse de Barbosa no Supremo
Editorial

S. Paulo – As manifestações de contentamento, espanto e deslumbramento pela posse do ministro Joaquim Barbosa no STF, o menino pobre de Paracatu, Minas, a tornar-se o primeiro negro a presidir a mais alta Corte, são reveladoras ainda do racismo velado, enrustido, ainda presente nas relações sociais econômicas e políticas no Brasil.

Não deveria causar esse frisson todo o fato de, em um país em que a maioria é preta e parda – 50,7%, de acordo com o Censo do IBGE 2010 -, um único negro fazer parte do colegiado de 11 ministros. Ao contrário: deveria causar espanto o fato de a mais Alta Corte do país ainda ter um perfil tão marcadamente em desacordo com o perfil sociorracial da população brasileira, que, sabidamente, é pluriétnica, pluriaracial, multicultural. 

Além da ausência de negros, permanecem ausentes os indígenas - os povos originários - que representam a base dessa Nação pluriétnica que é o Brasil, submetidos a um genocídio, que já dura cinco séculos. São 896.917 mil indígenas, falantes de 274 línguas e pertencentes a 305 etnias, de acordo com o mesmo Censo do IBGE 2010.

O mesmo acontece às mulheres, que embora representem mais de 50% da população, tem representação minoritária, o que deixa explícito que, as instituições da República seguem sendo caracterizadas pelo machismo e pelo racismo.

Por outro lado, chama a atenção posturas e manifestações de uma parte do Movimento Negro brasileiro, que confunde alhos com bugalhos e pretende fazer de  Barbosa – transformado em celebridade nacional como relator do mensalão – uma espécie de herói nacional, apenas por chegar à Presidência da mais alta Corte por regras de cumprimento automático, por ser, no momento, o mais antigo a não ter assumido ainda a Presidência da Corte, uma regra informal da tradição do Supremo.

Barbosa é detentor de inegáveis méritos. Pelo trabalho, dedicação e estudo tornou-se dono de um curriculum que o qualifica para o exercício de qualquer cargo ou função pública. Mestre pela Universidade de Brasília, Mestre e Doutor em Direito Público pela Universidade de Paris II, fluente em inglês, francês, alemão e espanhol.

Algumas figuras, contudo, insistem, em que assuma o papel de  herói nacional, de vestal da moralidade pública, de paladino da luta contra a corrupção e já há quem o lance candidato a Presidência da República, supõe-se que, por qualquer partido das muitas legendas de aluguel disponíveis, fato que Barbosa, prudentemente, vem, ao menos de público, se recusando a endossar.

Mas, o pior é a outra parcela que pretende que Barbosa seja uma espécie de representante dos negros no Supremo, o que evoca o que havia de pior no corporativismo do Estado Novo getulista, inspirado na Carta fascista de Benito Mussolini, de triste memória.

Barbosa no Supremo, não é representante do Movimento Negro, ainda que o fato de ser o único negro, tenha uma forte conotação simbólica das barreiras que o racismo nos impõe, mas um ministro de todos os brasileiros exercendo a função que a Constituição define para qualquer cidadão investido do papel de ministro do Supremo, seja negro, amarelo, indígena ou branco: o de guardião da Constituição da República.

 

 

 


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