20 de Agosto de 2019 |
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Ativista negra se declara inocente e acusa justiça seletiva
26/01/2013
Caso BMW: racismo, desinformação e equívocos
Editorial

Quem conhece o drama das crianças e adolescentes negros esquecidos nos abrigos por não terem o perfil preferido da maioria dos casais que adotam – serem brancos, loiros de olhos azuis – não pode ser indiferente nem deixar de simpatizar com o garoto carioca de 7 anos, expulso, aos berros, por funcionário do Grupo BMW numa loja da Tijuca, no Rio, quando acompanhava seus pais adotivos, interessados na aquisição de um veículo.

O casal Ronaldo Munk e Priscila Celeste, ambos brancos, devem ter toda a solidariedade possível pelo que ocorreu ao filho, vítima da odiosa discriminação, que atinge milhões de brasileiros, inclusive crianças, impotentes na sua inocência para entender essa patologia social que hierarquiza os seres humanos pela cor da pele.

Entretanto, é necessário ir além da solidariedade fácil e instantânea das redes sociais e esclarecer alguns pontos para que o assunto, que é sério, não caia na banalidade do espetáculo midiático que se evapora quando cessam as luzes dos holofotes. Antes que os fundamentalistas de plantão saiam ao ataque, acrescente-se que o verbo esclarecer aqui tem o sentido de buscar lançar luz sobre o debate.

Comecemos portanto, por esclarecer, que há um erro conceitual na definição de preconceito como crime, utilizado no caso e na difusão do slogan de que  “Preconceito não é mal entendido –  é Crime”, replicado por milhares de internautas nas redes sociais.

Preconceito não é uma coisa nem outra: nem crime, nem tampouco um mal-entendido. Ninguém se torna criminoso por ser preconceituoso.

Quem se mostra incapaz de lidar com as diferenças que nos caracterizam a todos nós seres humanos, fecha-se no seu mundinho narcisista, optando por se relacionar apenas com iguais, como se todos não fôssemos diferentes, é digno de pena, não cadeia.

Lidar e se relacionar com a diferença é uma riqueza. É o que torna a vida bela, apesar do “inferno, que está no outro”, nas palavras de Sartre. Portanto, a pessoa que transforma o seu pré-conceito (termo auto-explicativo) em conceito, e se fecha na sua redoma de certezas, é inevitável que se torne  espiritualmente pobre, incapaz de entender que não somos ilhas e que a única coisa que pode impulsionar o crescimento dos seres humanos é a relação com o outro, por natureza, diferente.

Exemplo: se o preconceituoso resolver viver o seu mundinho pobre, sem jamais exteriorizar as suas certezas, não estará praticando crime algum. Morrerá na miséria espiritual, com suas certezas inúteis, provavelmente só, mas crime algum terá cometido.

Crime, na verdade, é a discriminação, é o racismo, que são condutas - o momento em que o preconceituoso sai do armário para exteriorizar sua incapacidade em lidar com a diferença.

O senso comum, porém, tende a confundir alhos com bugalhos, causa e efeito. O preconceituoso normalmente exterioriza sua incapacidade em conduta, e aí tem de se ver com a Lei, a começar da própria Constituição Federal que define a discriminação de caráter racial – o racismo -, como crime inafiançável e imprescritível.

Tampouco é um mal-entendido como pretende o poderoso Grupo BMW. Na esperteza velhaca que caracteriza esse tipo de argumento, pretendem os donos da empresa acobertar  - aí, sim - o crime do seu preposto, ao expulsar o garoto, uma criança negra, usando os termos que usou, tratando-o como um pequeno deliquente, apenas por ter a pele escura.

Ainda que se tratasse disso, ou seja, que se tratasse de um menor (pouca importa a cor, negro, branco, indígena ou japonês), à criança é assegurada pela Constituição e pelas Leis (incluindo o Estatuto da Criança e da Adolescência ) a defesa de sua imagem e dignidade.

O que a empresa cometeu, por intermédio de seu preposto, não tem nada de mal-entendido. É crime, perfeitamente previsto nas Leis antirracistas brasileiras – todas com suporte na própria Constituição Federal, além da violação explícita a vários artigos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Por outro lado, além de erros conceituais, fonte de equívocos e da própria manutenção da cultura racista que se alimenta e retroalimenta da ignorância, há outros no encaminhamento da questão. Ao não registrar o Boletim de Ocorrência na Delegacia mais próxima, para “preservar a criança”, o casal, na verdade – a despeito das boas intenções, das quais ninguém duvida – acabou por fazer, involuntariamente, o que menos desejava: proteger o agressor, garantindo-lhe a impunidade.

Mais ainda: os pais do garoto, com esse gesto “bem intencionado” e apenas pensando em “preservar a imagem da criança”, acabaram por proteger a própria empresa, uma vez que anunciam não pretenderem entrar com a competente ação de indenização por danos morais, a que, certamente, a BMW seria condenada para reparar o dano causado à criança.

Ao tentar resolver a questão sem lançar mão da Lei que está disponível, o casal tratou o caso como se privado fosse, na lógica de resolver o “problema em casa, entre pares”, acabando por amparar - não o filho, a verdadeira vítima, que carregará o trauma dos maus tratos pelo resto da vida - mas as empresa e o preposto agressor. O fato de o caso BMW sequer constar das estatísticas dá uma ideia da natureza do equívoco.

A proteção e a preservação da imagem da criança – vítima inocente e impotente da violência racista nas dependências da loja da BMW na Tijuca – não pode ser pretexto para a proteção aos que, por absoluta ignorância – fonte onde o racismo se alimenta – agrediram, tão vil e covardemente, uma criança.

 


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