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07/03/2013
Nova expressão da literatura negra, para Cristiane Sobral escrever é resistir
Da Redação

Brasília/DF – Integrante da Academia de Letras do Brasil e do Sindicato dos Escritores do DF (cadeira 34), a escritora, poeta e atriz negra, Cristiane Sobral, 37 anos, afirma que “escrever e publicar em meio ao padrão eurocêntrico dominante, tornar essa escrita visível a todos é um grande exercício de afirmação e luta”. “Por isso a literatura negra no Brasil está conectada diretamente à militância”, acrescenta.

Para Cristiane, carioca que vive em Brasília desde os anos 90 e é casada com o publicitário Jurandir dos Santos Luiz, que começou a se tornar conhecida participando das antologias dos Cadernos Negros, organizadas por Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa, “a literatura negra tem um tecido próprio”. “Há um resgate positivo da nossa etnicidade, da nossa identidade, um ponto de vista diferente do apresentado nas versões dominantes”, salienta.

Seu trabalho mais conhecido, e também mais recente, é o livro de poemas “Não vou mais lavar os pratos”, editado pela Dulcina Editora, e que já está na segunda edição. Mas, ela também já teve trabalhos publicados na Revista Afro Hispanic Review e na Revista Palmares de Cultura Brasileira, do Ministério da Cultura.

Na entrevista que concedeu ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, Cristiane, que é mãe de Malick Jorge, de 3 anos e Ayana Thainá de 2, fala de literatura negra, do seu processo criativo e dá um recado aos jovens negros que gostam de escrever: “Tomem posse, revisitem biografias, procurem quem possa perpetuar a nossa memória, vistam as palavras como roupas de guerra, leiam tudo, disseminem a informação, ocupem o nosso espaço nesse planeta”, assinala.

Leia, na íntegra, a entrevista da atriz e poeta Cristiane Sobral.

Afropress - Cristiane, você é uma das expressões novas mais conhecidas de escritora que faz literatura com recorte negro. Existe uma literatura negra no Brasil?

Cristiane Sobral - Sim. Escrever é reescrever. A literatura negra tem um tecido próprio, apresenta a nossa subjetividade, fala também de um sujeito construído no coletivo, resgata os valores da negritude brasileira, da sua própria cultura, dos meios de criação e reflexão sobre a experiência negra. Há um resgate positivo da nossa etnicidade, da nossa identidade, um ponto de vista diferente do apresentado nas versões dominantes.

Afropress - Por que é fundamental afirmar na literatura e, no seu caso, na poesia, o viés identitário e como entra nisso a questão racial e a luta contra o racismo?

CS - Por que grande parte dos escritores negros ou afro-descendentes não é conhecida dos leitores e os seus textos não fazem parte da rotina escolar? Temos um vasto horizonte de pesquisa diante dos problemas relacionados à representação da negritude na cultura e sociedade brasileira.

A afirmação é necessária, precisa estar à altura da nossa população, segundo o último censo, de cerca de 97 milhões de brasileiros declarados pardos ou pretos, maioria no país com a maior população negra fora do continente africano.

Do ponto de vista qualitativo, há muitas histórias e estórias a escrever, memórias, nomes a resgatar, todo um passado ancestral para revisitar, enfim, é um panorama muito rico para um escritor, para alguém que como eu, produz no universo da percepção, da sensibilidade.

Escrever e publicar em meio ao padrão eurocêntrico dominante, tornar essa escrita visível a todos é um grande exercício de afirmação e luta. 

Afropress - Como surge, no Brasil, a literatura com esse recorte e quais os valores que você destaca?

CS - Destaco individualmente o caminho percorrido nesse sentido nas produções de Auta de Souza, Oswaldo de Camargo, Lima Barreto, Lino Guedes, Solano Trindade, Gonçalves Dias, Silva Rabelo, Gonçalves Crespo, Luiz Gama, Cruz e Souza, Machado de Assis, Carolina Maria de Jesus, entre outros tantos. Alguns escreveram sobre o negro, outros para um público negro, mas são marcos de uma época.

Falando de coletivos, destaco o movimento que surgiu a partir da publicação de antologias de autores negros, tais como “Os Cadernos Negros”, (1978) a “Antologia contemporânea da poesia negra brasileira” (1982), organizada pelo poeta Paulo Colina; e a “Poesia negra brasileira” (1992), organizada por Zilá Bernd. São iniciativas fortalecidas pelas lutas de libertação no continente africano nos anos setenta que impulsionaram muitos outros escritores.

Os valores apontam para outros pontos de vista de representação na nossa identidade, na nossa etnicidade, há uma postura ideológica diferenciada focada nas vozes negras e na diáspora. Primeiro, uma consciência negra, depois uma literatura negra. Por isso a literatura negra no Brasil está conectada diretamente à militância.

Afropress - Existe espaço no Brasil para esse tipo de literatura. Como está o mercado editorial?

CS - Com o sucesso de vendas da primeira edição de “Não vou mais lavar os pratos”, (mil livros vendidos em seis meses) de mão em mão, e o contínuo êxito dessa segunda edição, já inserida em uma política de distribuição em livrarias ainda tímida, mas já mais consistente que improvisado ritmo anterior, percebo que do ponto de vista do interesse dos leitores, há espaço sim.

Entretanto, percebo o quanto as editoras de expressão ainda estão muito distantes do nosso produto, desconfiam da nossa capacidade de mercado, entre outras questões.

O poder de escolha está nas mãos dos críticos, geralmente de grupos sociais privilegiados e/ou especialistas centrados no cânone e nos “mais vendidos”. São eles que acabam por decidir que autores devem ser lidos. Sou escritora, tenho contado acima de tudo com os meus leitores, corro muito para estar ao lado deles nos eventos, nas redes sociais... Vender livros no Brasil é desafiante, se considerarmos que o nosso produto não sorri para o mito da democracia racial.

Afropress - Você lançou recentemente o “Não vou mais lavar os pratos”, seu livro de poemas, pela Dulcina Editora. Qual será o próximo? Como é o seu processo criativo?

CS - Depois de uma década de publicações em antologias, principalmente nos Cadernos Negros, Ed. Quilombhoje, publiquei em 2010 “Não vou mais lavar os pratos”, poemas pela Ed. Athalaia. Em 2011 assinei contrato com a Ed. Dulcina e colocamos nas ruas a segunda edição.

Nesse mesmo ano publiquei “Espelhos, Miradouros, Dialéticas da Percepção”, contos, pela mesma editora. Em breve lançarei novo livro de poemas. Diria que o meu processo criativo é o mesmo desde que comecei a escrever, leio muito, converso com os mais velhos e com as crianças, consulto dicionários de forma sistemática, inclusive em outras línguas, como línguas africanas e indígenas, tenho horários regulares para escrever, produzindo muito ou pouco, mas também priorizo espaço para o lazer, os sonhos e a intuição e procuro aprender sempre, no encontro com outros escritores, nos eventos literários, nos encontros acima de tudo, porque em alguns momentos preciso estar só para refletir, meu material é humano, sensível, está centrado na ancestralidade, no inusitado, no amor, no zelo pela palavra.

Finalmente, gosto muito de sair às ruas, conversar e fazer palavras cruzadas. Escrevo como quem monta um quebra cabeças de imaginação e sensibilidade, escrever é o meu grito de liberdade.

Outro ponto chave no meu processo criativo é a interpretação dos meus poemas em saraus e eventos literários, nesses momentos eu verifico de fato, a potência dos textos, no encontro com o público leitor a palavra escrita ganha outra dimensão, eu me sinto muito motivada a continuar produzindo, encontro novos temas, desafio a minha própria escrita, entre outras questões.

Afropress - Como atriz, quais as especificidades da arte de representar e da arte de escrever? O que você diria aos jovens negros (as) que usam a literatura como expressão da rebeldia contra o racismo e a herança dos quase 400 anos de escravidão?

CS - No teatro e na literatura, procuro representar papéis, tocar o leitor ou o espectador, instigar, construir universos elaborados esteticamente, não creio no discurso racional quando estou em contato com a linguagem artística, é preciso ir além, a poesia ou o teatro precisam chegar ao coração, aos ouvidos, abalar as estruturas, provocar os indivíduos para que eles provoquem mudanças de maneira consciente.

Meus poemas e contos possuem uma marca existencial muito intensa. Transmitem uma forte carga dramática advinda de minha prática de encenação Como atriz e escritora estas duas vozes contracenam perfeitamente, são complementares, hoje não concebo mais o meu trabalho de atriz sem o exercício da escrita.

Aos jovens negros eu diria: tomem posse, revisitem biografias, procurem quem possa perpetuar a nossa memória, vistam as palavras como roupas de guerra, leiam tudo, disseminem a informação, ocupem o nosso espaço nesse planeta.

Reafirmem a nossa subjetividade, pois a nossa história não pode continuar sendo contada exclusivamente sob as lentes de uma elite conservadora do modelo eurocêntrico, precisamos ir além. A questão racial é nacional e como tal dever ser discutida por todos que pensam e sonham com um Brasil melhor.

A inclusão da população negra na vida pública do país pode alavancar, em sombra de dúvida, o desenvolvimento do país.

Afropress - Faça as considerações que julgar pertinentes.

CS - Agradeço ao convite para essa entrevista, desejo vida longa e muitos acessos à Afropress, quero deixar um grande abraço para os leitores, e encerrar com dois poemas publicados no livro “Não vou mais lavar os pratos”.

Flor

Tenho uma cicatriz incandescente de dor,

Mas é só por dentro,

Por fora desenhei uma flor.

Pixaim Elétrico

Naquele dia

Meu pixaim elétrico gritava alto

Provocava sem alisar ninguém

Meu cabelo estava cheio de si

Naquele dia

Preparei a carapinha para enfrentar a monotonia da paisagem da estrada

Soltei os grampos e segui

De cara pro vento, bem desaforada

Sem esconder volumes nem negar raízes

Pura filosofia

Meu cabelo escuro, crespo, alto e grave

Quase um caso de polícia

Em meio à pasmaceira da cidade

Incomodou identidades e pariu novas cabeças

Abaixo a demagogia

Soltei as amarras e recusei qualquer relaxante

Assumi as minhas raízes

Ainda que brincasse com alguns matizes

Confrontando o meu pixaim elétrico

Com as cores pálidas do dia.

Não Vou Mais Lavar os Pratos, poesia. Dulcina Editora. 2ª Ed. 2011. Brasília. 

Blog: cristianesobral.blogspot.com


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