7 de Dezembro de 2019 |
Última atualização 0:0
Comentamos
Ativista negra se declara inocente e acusa justiça seletiva
24/06/2013
O movimento negro e o movimento das ruas
Editorial

Apesar da ausência do movimento negro, de forma organizada nas ruas para engrossar as maiores mobilizações de massa já ocorridas no país, os protestos já provocaram – para nós – pelo menos uma consequência concreta: a Conferência chapa-branca – a III - que a ministra Luiza Bairros pretendia fazer em novembro, entre os dias 05 e 07, está morta e sepultada.

Pode até ser que aconteça porque, afinal, já está convocada por ato da Presidente da República, mas, de duas uma: ou muda de pauta e constrói uma agenda no espírito do proposto por ativistas que querem um encontro paralelo, não oficial, não chapa-branca, que materialize as demandas das ruas; ou ficará na história como mais um convescote oficial bancado com dinheiro público, que é exatamente o tipo de política que está sendo confrontada nas ruas pelos manifestantes.

Uma conferência nacional (passando pelas municipais e estaduais), só tem sentido se tiver o caráter de cobrança do porque 95% das resoluções das duas anteriores não foram colocadas em prática pelas quatro gestões da SEPPIR, a Secretaria Especial da Presidência com status de ministério criada para tratar da questão da desigualdade racial, um dos elementos estruturantes da desigualdade social no Brasil.

Por que, por exemplo, as seguidas gestões, de negros vinculados aos seus respectivos partidos, não conseguem executar nem mesmo o minguado orçamento de que dispõe para manter um órgão, como símbolo de uma inclusão que não sai do papel nem dos discursos.

Só faz sentido, se for para tirar uma pauta autônoma, a ser entregue por lideranças de todos os Estados, diretamente à Presidente da República, com as nossas demandas históricas, nunca atendidas, sempre adiadas pelo Estado brasileiro.

Lamentavelmente, no entanto, a ausência de negros, de forma organizada, nas ruas em obediência a agenda dos seus respectivos partidos, atropelados pela nova dinâmica dos fatos e pelos protestos - diários e crescentes -, não nos autoriza otimismo.

Este é o momento propício para que os ativistas negros e militantes de norte a sul levem para as ruas suas bandeiras (não a dos seus partidos); é o momento de generalizar a luta pelas ações afirmativas e cotas, consideradas constitucionais, por unanimidade, pela mais alta Corte do país – o Supremo Tribunal Federal – mas que os Governos (em todos os níveis - municipais, estaduais e federal) continuam a fazer ouvidos moucos e a solenemente ignorar.

Queremos ações afirmativas e cotas, não apenas na Educação, mas no mercado de trabalho, nos espaços de poder, no parlamento, nos partidos, na mídia e na publicidade, para que essa democracia brasileira, tão duramente conquistada após anos de ditadura, não seja esse simulacro que as ruas estão renegando por ter se corrompido com partidos balcões de negócio (de "mentirinha" nas palavras do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa), corrupção generalizada, desrespeito a população, deterioração dos serviços públicos e manutenção do padrão excludente, racista e discriminatório que é - e sempre foi -, a marca registrada desta República construída sobre os escombros de quase 400 anos de escravidão negra.

 


Artigos Relacionados
Bolsonaro e a face mais odiosa e bárbara do racismo
Resistir enquanto é tempo e por todos os meios possíveis
Nada será como antes: 64 não se repetirá
Maju e a falácia da inclusão simbólica
Twitter
Facebook
Todos os Direitos Reservados