24 de Agosto de 2019 |
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Leandro de Jesus - Especial para Afropress

Poá/SP - Na periferia da Grande São Paulo, em Poá, crianças e adolescentes aprendem as manobras do skate para dobrar as dificuldades do dia-a-dia. Sandro Soares, idealizador da Ong Social Skate, e Leila Vieira são o espírito do projeto que se dedica a ensinar esporte aliado à educação.

As atividades têm como objetivo levar cidadania e cultura a meninos e meninas, afastando-os do crime e do mundo das drogas. Hoje, o projeto tem reconhecimento nacional, entre os mais famosos skatistas do país e na mídia especializada.

Sandro venceu barreiras e agora ajuda jovens a vencer seus próprios obstáculos. Acompanhe a entrevista com Sandro Testinha, como é conhecido, um dos homenageados pelo Prêmio Trip Transformadores, da Revista Trip, que homenageia e reconhece o trabalho de pessoas que se transformaram ajudando a transformar a realidade em que vivem.

Afropress: Conte um pouco da sua trajetória até iniciar a Ong Social Skate?

Sandro: Sempre fui uma criança muito inquieta, para os místicos, seria por ser do signo de Aquário (risos) mas, como não acredito nisso, acho que foi devido ao mínimo de educação e resguardo que meus pais puderam me dar. Involuntariamente, sempre exerci uma espécie de liderança, desde os tempos da escola.

Em um momento de minha vida, deparo-me com o skate, um estilo de vida nada conservador e muito questionador, à margem do estereotipo do atleta regrado e bom moço. Junte as duas coisas (o mínimo de educação formal mais o estilo de vida do skate) e pronto, está feita uma "bomba humana" capaz de modificar o meio onde vive e (ou) sobrevive.

Não me contentei em só andar de skate, queria fazer parte da cena desse esporte, não só como praticante e competidor mas também organizar algo e dai surgiu a oportunidade de participar de um projeto com skate como ferramenta de inclusão para os internos da Fundação CASA (antiga Febem).

Essa ação se tornou conhecida em todo Brasil e fora dele também. Durou dez anos e foi meu grande aprendizado de tudo o que se pode fazer de certo e de errado no trabalho com crianças, jovens e adolescentes. Em 2011, a Fundação me dispensou e fui seguir minha vida levando o aprendizado e continuando a acreditar no skate como ferramenta de educação. 

Afropress: Qual o motivo da criação e qual é hoje o objetivo da Ong?

Sandro: São alguns motivos que foram “casando” e que me deixaram inquieto para seguir em frente. O meu entendimento de um trabalho de recuperação como o da CASA é muito mais caro e menos eficaz do que um trabalho de prevenção e outro é a falta de opções interligadas na área do esporte, cultura e educação, pois praticamente essas três áreas caminham isoladamente, cada uma por si, sem falar nas "opções" alienadas que assolam a criançada das periferias de hoje como o funk que faz apologia à criminalidade, à promiscuidade e ao uso de drogas lícitas e ilícitas.

Então, o nosso objetivo básico é utilizar o skate para promover o que acreditamos não ser oferecido para nossas crianças e combater o que de mal é oferecido a elas. 

Afropress: Esses objetivos estão sendo cumpridos?

Sandro: Acreditamos que sim, mas cientes de que nosso trabalho é de médio-longo prazo. Porém, já notamos no mínimo o desinteresse de nossas crianças pelo que chamei de "opções de culturas alienadas", o que já acho uma grande vitória. Além disso, é super-importante citar que sem a participação de nossa pedagoga, Leila Vieira, e seu empenho em complementar a educação de nossas crianças, nada disso seria possível. 

Afropress: Quais as dificuldades do projeto?

Sandro: Antes eu ficava em um discurso que percebi ser um pouco comodista, aquele de ficar somente reclamando de falta de apoio público e (ou) privado, e, ao pesquisarmos sobre o assunto, fomos descobrindo que existem diversas leis que beneficiam e auxiliam ações como a nossa.

E é ai que o bicho pega, pois é preciso superar toda a burocracia para se tornar uma entidade legalizada e, após isso, que é bastante trabalhoso, tem de correr atrás das certificações para se ter direito a algum beneficio, tanto público quanto privado. Estamos correndo atrás e superando cada fase, essa é a dificuldade mas totalmente superável, diga-se de passagem, sem esforço sem vitória.  

Afropress: Como e quem administra a Ong? De que forma, financeiramente, ela se mantém? Quem são os parceiros?

Sandro: Pode até soar engraçado mas nossa entidade é administrada somente por duas pessoas, eu e a Leila Vieira, pois como ainda não existe uma verba nós somos voluntários de nossa própria entidade. Porém, criamos algumas formas de nos manter financeiramente, autossustentável.

Por exemplo: através da venda de camisetas do projeto e do bazar que realizamos com materiais doados que não servem ao nosso público. No mais, a nossa grande rede de amigos colabora de alguma forma, seja ela financeira, material, serviços e etc, e como são pessoas que nos conhecem bem, a maior parte delas pede para não serem identificados. E olha que tem gente famosa que já nos ajudou em certas ocasiões. 

Afropress: Quantos alunos participam do projeto?

Sandro: Mantemos uma faixa de, no máximo, 50 alunos fixos, pois entendemos que a quantidade não importa se não tem qualidade. Como você vai tratar com dignidade 200 crianças sem saber o nome de todos? Aqui existe até a carência de não ser chamado pelo nome, por isso limitamos o numero de alunos para dar quase que um atendimento personalizado.

Hoje, a maior parte dos alunos começaram conosco há três anos e continuam por aqui. Até o momento, na verdade, acreditamos que alguns deles serão os primeiros funcionários da entidade quando houver condições para isso.

Afropress: Quais atividades especiais vocês fazem ao longo do ano?

Sandro: Pode parecer não ser muita coisa para quem ler isso morando fora da periferia, mas trazer um grupo de teatro em nosso espaço para crianças que nunca viram, é uma atividade muito especial. Levar a criançada em um evento de skate e ver o deslumbramento deles pelo simples fato de sair de Poá e olhar a Marginal Tietê, local que nós (adultos) achamos horrível, e ver as crianças que nunca viram aquele cenário achar uma novidade legal.

Agora, tem também nossas atividades pontuais, do ano, que são a festa junina, o dia das crianças e o Natal. Nesses eventos nos esforçamos para oferecer um dia digno para nossas crianças e oferecer algo bom para elas até mesmo em termos materiais, pois se o filho da chamada classe emergente do Brasil pode ganhar um skate novo no Natal nossas crianças também tem esse direito, pois isso não deixa de ser um conceito de igualdade que tanto defendemos.

Afropress: Quais prêmios e reconhecimento a Ong têm?

Sandro: Ainda não temos prêmios, porém isso é consequência de trabalho e credibilidade e estamos nesse caminho. O reconhecimento de grandes expoentes do skate também é gratificante mas o maior reconhecimento sem duvida é de nossos participantes. Ver a evoluções deles como seres humanos conscientes e questionadores é nosso grande reconhecimento. 

Afropress: Quais são as suas outras atividades ligadas ao skate, em outros locais?

Sandro: Já que a Ong ainda não me traz nenhuma remuneração, preciso sobreviver e pagar minhas contas e as da Ong. Então, atuo como locutor em eventos de skate e como freelancer em atividades com skate (aulas, clínicas, eventos etc) em clubes, locais particulares que podem pagar por esse serviço. 

Algumas vezes renderam bons momentos: imagina que no Esporte Clube Pinheiros, em São Paulo, clube frequentado pela "elite" paulistana, onde depois de um trabalho lá realizado conseguimos juntar os alunos do local com nossas crianças, mostrando que o preconceito de classes é exclusividade dos adultos, pois as crianças interagiram normalmente independente de sua origem social

Afropress: Que ensinamentos a prática de skate pode levar para a garotada?

Sandro: Existe uma metáfora muito boa que diz que o skate se aprende caindo, e que na vida muitas vezes levamos tombos e logo na primeira tentativa em alguns casos desistimos. Nesta hora temos que aprender com o skate, a cair, ver onde erramos, pegar uma dica e tentar de novo até conseguir a manobra, seja no skate seja na vida.

Afropress: Fale sobre a indicação ao Prêmio Trip?

Sandro: Sempre acompanhei essa premiação e sempre tem alguém que eu admiro entre os indicados. Por exemplo, o Sergio Vaz, que é um cara incrível. O trabalho que ele realiza na Zona Sul de São Paulo é revolucionário e ser indicado para a mesma premiação que ele recebeu é uma honra, é como ganhar um campeonato de skate (risos). Esse ano, na apresentação à imprensa sobre o Prêmio, ver que o Marcelo Freixo (Deputado Estadual/RJ) também será um dos homenageados, para nós torna a ocasião mais que especial.

 


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