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15/07/2013
Afrodescendência e generalato
Sionei Ricardo Leão

É jornalista. Assessor de Imprensa da Câmara Legislativa do Distrito Federal

No início de 2012 passou à reserva, o que na linguagem militar equivale à aposentadoria, o tenente-brigadeiro-do-ar Jorge Godinho Barreto. Até então, ele ocupava o cargo de chefe do Estado-Maior da Aeronáutica.  O tenente-brigadeiro continuará gozando de relativo prestígio, uma vez que foi indicado para atuar na Organização das Nações Unidas (ONU).  Assumiu a função de conselheiro militar da representação do Brasil junto à Conferência do Desarmamento Mundial da ONU.

Quando a presidente Dilma Roussef venceu as eleições, em 2010, havia especulações de que Jorge Godinho seria convidado para ocupar a função de Comandante da Aeronáutica, a de maior prestígio da instituição. Como a governante optou por manter nos cargos os três chefes das Forças Armadas não se pôde verificar até que ponto eram verdadeiras essas expectativas.

A trajetória de Jorge Godinho chamou a atenção de parte da imprensa pela simples razão de se estar alterando lugares no alto-comando das Forças Armadas brasileiras. No entanto, pouco se levou em conta que com a retirada desse brigadeiro da ativa, a rara representação afrodescendente nesses escalões ficou ainda mais evidente.

Pelas informações disponíveis, Jorge Godinho era na atualidade o único brigadeiro negro em atividade na Aeronáutica. Essa pouca representação tem seus equivalentes no Exército e na Marinha de Guerra. A bem da verdade, na última década, a Aeronáutica contou em seus quadros com o major-brigadeiro Osvaldo José de Oliveira e Jorge Godinho. Os dois afrodescendentes estudaram juntos e em momentos parecidos transpuseram a patente de coronel a de brigadeiro – o que corresponde a de general, no Exército, e de almirante na Marinha de Guerra.

Tratar desse tema é ainda um tabu, não só para a imprensa, mas para as Forças Armadas e, inclusive, para o Movimento Social Negro, que tem o histórico de distanciamento e desconfiança em relação às instituições militares.

Brigadeiro Jorge Godinho. Foto: Divulgação

 

Brigadeiro Oswaldo. Foto: Divulgação

O brigadeiro Oswaldo, que já está na reserva (aposentado) afirma que “não há espaço para racismo na Aeronáutica”. Segundo ele, entre os colegas de farda, o sentimento é de irmandade e ideal patriótico. “Somos cidadãos que sabemos por que lutamos. E todos aqueles que conhecem um pouco a realidade do país que defendem sabem que não pode haver nenhum sentimento de diferenciação ou de segregação de qualquer tipo”. 

Natural que um militar de alta patente forneça um depoimento tão enquadrado. No entanto, as contradições, a partir de várias estatísticas são muito fortes, quando se trata de medir até que ponto vai essa irmandade, ou seja, a que ponto ela se traduz na ascensão de afrodescendentes na carreira das armas.

O juiz de Direito aposentado e coordenador, em Mato Grosso do Sul, da ONG Martin Luther King, Aleixo Paraguassu Neto, comenta que para os afrodescendentes é uma questão muito importante à representação nos altos cargos das Forças Armadas. E para o país “é um assunto estratégico”, argumenta.

Paraguassu Neto costuma receber convites para falar a militares do Exército sobre o tema políticas afirmativas. Nessas ocasiões, além de abordar sob a ótica da militância esse assunto, ele costuma refletir sobre discussões dessa natureza a partir de conceitos como autoestima e representação institucional.

As comparações entre os Estados Unidos da América e o Brasil quando se aborda o tema relações raciais, sobretudo entre brancos e negros, são quase que inevitáveis.

As Forças Armadas norte-americanas, em 1948, foram as primeiras instituições daquela nação a enfrentarem a segregação racial. Isso ocorreu durante o governo do presidente Harry Truman, portanto, seis anos antes do emblemático caso Brown v. Board of Education, em 1948.

De acordo com o professor Michael Higginbotham, da University of Baltimore School of Law, o complexo militar dos EUA é uma das instituições mais radicalmente diversificadas do país. "Mais do que a maioria de nossas escolas, corporações, fundações ou serviços civis".

Higginbotham frisa que 5% dos oficiais das Forças Armadas dos EUA são afro-americanos. O percentual sobe a 20%, quando o cálculo inclui as praças e suboficiais. Isso significa que proporcionalmente, a presença desse segmento nas instituições militares superou proporcionalmente o quantitativo populacional. Os afro-americanos somam 12% de toda a população, de acordo com os censos.

O general Colin Powel. Foto: Divulgação

A discussão também envolve o sistema de políticas afirmativas. O general e ex-secretário de Estado dos EUA, Colin Powel serve de exemplo para se demonstrar isso.

“Powel ingressou no Exército através da reserva de cotas, o fato de ele ter conseguido alcançar os mais altos degraus da hierarquia militar aponta que essa iniciativa dá resultados positivos”, comenta Higginbotham. Filho de imigrantes jamaicanos, Colin Powel nasceu em Nova York e foi educado no Bronx. Estudou em escolas públicas da cidade onde veio a graduar-se em geologia no City College of New York. Foi recrutado para as Forças Armadas por meio do US Army ROTC training program. Em 1958, recebeu a comissão de segundo-tenente de infantaria, marco inicial da carreira.

Portanto, ele não é oriundo de academias militares tradicionais. Galgou o título de mestrado em administração, pela George Washington University. Após 25 anos de serviço, torna-se general de quatro estrelas, posto mais alto da instituição.  Em 1989 foi nomeado chairman do Departamento de Defesa (Pentágono) – o primeiro afro-americano a atingir essa condição.

No caso do Exército Brasileiro, sobejamente, a instituição com mais poder político e presença nacional, chama a atenção o fato de, historicamente, se ter a informação da existência de apenas cinco generais. 

O general Jorge Alves. Foto: Divulgação

O caso mais pitoresco, a respeito de analisarmos o conceito generalato e afrodesendência, aconteceu em 1990, quando foi publicada a promoção à general-de-brigada do então coronel Jorge Alves de Carvalho. Na época, ele servia no Gabinete Militar da Presidência da República, em Brasília.

O Jornal Folha de São Paulo em sua edição do dia 1º de abril, daquele ano, publicou: FHC promove o segundo general negro da história”.

A Revista Veja do mês de abril, de 1990, contou com a reportagem “Generais emergentes”, também em referência à chegada de um afrodescendente ao generalato.

O então recém promovido general-de-brigada (há 88 deles no Exército) foi designado a ocupar a Subchefia Militar da Casa Militar da Presidência. Apesar de toda a repercussão que o episódio mereceu na imprensa, no Governo Federal e em meio ao Movimento Social Negro, as declarações do militar afrodescendente serviram para demonstrar o quanto esse tema é tabu.

Ao ser questionado sobre à sua chegada ao generalato, Jorge Alves respondeu: "a cor do Exército é verde oliva. Não me preocupo com essa questão de distinção racial, pois o meu parâmetro é 'trabalho e estudo”.

*Esse artigo conta com informações da monografia Kamba-Racê - notas sobre a questão racial no Exército Brasileiro, que foi defendida em 2001, na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, no curso de Política e Estratégia, sob a orientação da professora historiadora Nanci Leonzo. Foi originalmente escrito para o Plano Brasil Estados Unidos para a Eliminação da Discriminação Racial (Japer).

 

"Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Afropress não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo."
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