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17/08/2013
O neoludismo, os "Black blocks" e o fascismo mascarado
Editorial

Passada a euforia das manifestações de junho – que sacudiram o país e expuseram as mazelas do sistema político e a própria crise da democracia representativa – não há mais dúvidas sobre a quem servem os mascarados do ativismo "Black block", que estão saindo às ruas para destruir patrimônio público e privado, cercar o hospital Sírio Libanês e o consultório do médico David Uip, como aconteceu esta semana.
 

O ativismo mascarado, esteja ou não sob a bandeira negra do anarquismo, está servindo apenas ao que diz combater: ao mesmo sistema político, que se revigora, na medida em que tais manifestações, se ainda não contam, em pouco tempo, contarão com o repúdio das maiorias.

Não por acaso, na primeira pesquisa feita após as manifestações de junho, a Presidente Dilma Rousseff recuperou seis pontos na pesquisa Data Folha, sem que tenha feito absolutamente nada para dar respostas às reivindicações das ruas. Ao contrário: todas as propostas que lançou, algumas em tom solene e até em cadeia de rádio e TV (Constituinte exclusiva, plebiscito etc), naufragaram. Como explicar, então, a recuperação súbita de prestígio, senão ao fato das pessoas começarem a demonstrar um certo cansaço diante de manifestações que, a rigor, nem deveriam ser caracterizadas como tal, uma vez que reúnem números quase sempre reduzidíssimos de pessoas?

O sistema político – incluido um Congresso cada vez mais sem prestígio – está simplesmente paralisado e vai ganhando tempo até as próximas eleições que se darão sob o mesmo sistema que produziu o que está sendo rechaçado.

Os escândalos são os mesmos. A denúncia da existência de cartel no metrô de S. Paulo, a segunda etapa do julgamento do mensalão, aspectos de um mesmo Brasil - que opõe o lulopetismo e o tucanato, esta espécie de fla x flu político que já dura quase 20 anos e em que todos temos a impressão não sair do empate -, vão se tornando armas eleitorais de cada lado. Tudo como “d’antes no quartel de Abrantes”.

No protesto e tentativa de invasão do Hospital Sírio Libanês o pretexto era o fato de lá está internado há dias um dos símbolos do Brasil arcaico que ainda dá as cartas, o senador maranhense José Sarney. No cerco ao consultório particular do médico David Uip, a desculpa era o fato de, na véspera, Uip ter sido nomeado Secretário de Saúde do Estado de S. Paulo, cargo no qual ainda sequer tomou posse. Um despropósito e um desrespeito a direitos duramente conquistados na luta contra a ditadura e pelo qual morreram homens e mulheres, que deveriam servir de exemplos e inspiração para os jovens que tomam as ruas.

Há ainda um dado alarmante que deve merecer o repúdio mais veemente a tais grupos – ora chamados de baderneiros, ora chamados de vândalos pelo noticiário da mídia. Na sua fúria cega e insensata jornalistas foram atacados e veículos de emissoras de jornais e emissoras de TV incendiados.

Ninguém é preso em tais manifestações, o que sugere que há uma estranha passividade do aparato policial, sempre pronto e ávido a reprimir as manifestações justas e legítimas.

No início do século XIX, o ludismo, um movimento contra a mecanização do trabalho gerada pela Revolução Industrial, quebrava máquinas que substituíam a mão de obra. O nome vem de Ned Ludd, personagem criada para disseminar os ideais do movimento entre os trabalhadores. Ficaram conhecidos como “os quebradores de máquinas".

Os neoludistas tupiniquins em ação no Rio e em S. Paulo, principalmente, estão longe de serem operários: são filhos de uma classe média entediada, despolitizada que descamba para o fascismo com espantosa facilidade. Se é que entre tais mascarados não estão em ação por trás de balaclavas grupelhos neonazistas ativos, frequentemente apanhados em ação contra negros, judeus e nordestinos.

Nunca é tarde para lembrar o que disse o poeta fluminense Eduardo Alves da Costa, no poema “No Caminho, com Maiakóvski”, texto falsamente atribuído ao dramaturgo alemão Bertold Brecht.

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakósvki.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz:
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas no tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares,
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo.
Por temor, aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

Mudanças sociais e do sistema político eleitoral ou partidário não se fazem com quebra-quebras, que são apenas sintomas de que as coisas não andam bem e de falta de educação política. Presidente e Governadores eleitos (Dilma Rousseff, Sérgio Cabral, Geraldo Alckmin, entre outros que se tornaram alvos dos protestos) foram eleitos e devem cumprir os seus mandatos para os quais receberam delegação.

Se precisamos reformar o sistema (e precisamos mesmo) para que se garanta direitos básicos secularmente negados ao povo brasileiro – especialmente aos pobres e aos negros, a base da pirâmide – e a democracia formal se traduza em direitos com o fim da corrupção, mais igualdade e melhoria dos serviços públicos -, é preciso construir a alternativas que ganhem a adesão das maiorias capazes de transformar desejos em realidade.

E isso não se faz com máscara na cara, nem destruindo patrimônio, nem atacando pessoas – jornalistas ou médicos que exercem o seu trabalho e a sua função.

Vamos dar um basta ao fascismo dos “Black blocks”, os neoludistas da moda, nós os que “não temos pacto algum com os senhores do mundo” para que “um dia, o mais frágil deles não entre sozinho em nossa casa, roube-nos a luz e conhecendo nosso medo, arranque-nos a voz da garganta”. E aí “já não poderemos dizer nada”.

 


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