23 de Agosto de 2019 |
Última atualização :
Comentamos
Ativista negra se declara inocente e acusa justiça seletiva
02/10/2013
Palmares discute mídia: debate ou deboche?
Editorial

S. Paulo – É mais fácil as organizações Globo, da família Marinho, adotarem como linha editorial a tática "black bloc" de protestos e a TV Record, do bispo Edir Macedo, passar a reproduzir as bulas do Vaticano, do que resultar em alguma coisa o debate promovido pela representação regional da Fundação Palmares, em S. Paulo, para discutir “Mídia e Relações Raciais e “Novas Mídias Negras”, marcados para esta quinta e sexta-feira (03 e 04/10), às 19h, no Auditório MinC, em Campos Elíseos, em S. Paulo.

E por uma razão simples: o presidente da Fundação Hilton Cobra, o Cobrinha, assim como sua representação em S. Paulo, ignoram o que seja uma mídia independente e só conseguem enxergar veículos de comunicação como instrumentos de reprodução de releases – textos distribuídos à imprensa com informações de interesse da empresa ou órgão por quem os assessora.

Para os novos gestores da Palmares só pode haver uma única mídia possível e admissível: a mídia preta chapa branca, a mídia sem espinha nem opinião, sempre disposta a dizer sim, a dizer amém a quem está no poder ou ocupa cargos e a reproduzir releases do seu interesse.

No caso da Palmares o quadro é ainda mais grave porque a política é adotada por um presidente que se reivindica do mundo das artes – o ator e produtor cultural Hilton Cobra. Primo da ministra chefe da SEPPIR, a socióloga Luiza Bairros, Cobrinha passou a mimetizar as práticas autoritárias que tem sido a tônica da atual gestão seppiriana desde que assumiu a presidência da autarquia vinculada ao MinC.

Tanto Bairros quanto Cobrinha, incomodados com críticas justas e inconformados com a linha de independência editorial de Afropress, passaram a ignorar pedidos de entrevista e, pior, nos círculos mais próximos de apoiadores (ou de bajuladores mesmo) passaram a uma postura de ataque aberto ao veículo – o que, no caso de ocupantes de cargos no poder, costumeiramente se traduz em boicote e perseguição de jornalistas.

No caso da SEPPIR foi necessário que anunciássemos a intenção de recorrer à Lei de Acesso à Informação para que passássemos a ter respostas pontuais, eventuais (de acordo com os humores do dia) monossilábicas na essência à perguntas sobre as políticas públicas de interesse da população negra e do povo brasileiro.

No caso da Fundação Palmares, Cobrinha tem solenemente ignorado os pedidos de entrevista e feito ouvidos moucos quando, por exemplo, questionado sobre as denúncias de irregularidades no Prêmio Funarte de Arte Negra, o que também nos levará a ter procedimento idêntico para garantir o acesso a informações de interesse público.

Mesmo com as evidências apontadas de protecionismo político e dirigismo na premiação (os trinta e três premiados, todos tiveram a mesma nota – 100 pontos, entre outras coincidências) Cobrinha, que se notabilizou por lançar um autoproclamado manifesto Eugenia Cultural, ainda no ano passado, em que protestava e denunciava os critérios que privilegiavam os produtores e artistas “brrrrancos” (veja o vídeo com o discurso caricato do atual presidente da Palmares em http://www.youtube.com/watch?v=dFQgFz5X1eE), mantém um silêncio ensurdecedor, que fala por si só.

Por isso, soa a deboche que exatamente os protagonistas de posturas desse tipo - que tentam (e até gostariam, se pudessem) calar uma mídia focada independente como Afropress – se proponham a realizar debates para discutir o tema proposto e muito menos com a intenção de “descobrir como ocupar estes espaços, muito mais democráticos que os tradicionais, e transformá-los em territórios negros de debates e empoderamento”,

De fato, os espaços da Internet, das redes sociais são democráticos para quem a eles tem acesso. Já os ocupantes dos cargos públicos citados estão longe de democráticos, quando esquecem que são apenas agentes públicos, com deveres, entre os quais, o de darem satisfações a quem paga os seus respectivos salários e lhes garante as mordomias próprias dos cargos.

Fariam melhor se parassem com os discursos que nada dizem e lembrassem que cargos públicos são provisórios e que, como tudo na vida, passam. Todos um dia descerão do Planalto e estarão na planície, sem bajuladores, sem pompas – e provavelmente – sem a arrogância que tem caracterizado o exercício desses micro-poderes efêmeros.

 

 


Artigos Relacionados
Resistir enquanto é tempo e por todos os meios possíveis
Nada será como antes: 64 não se repetirá
Maju e a falácia da inclusão simbólica
Morte da cadela Manchinha no Carrefour: omissão e cumplicidade
Twitter
Facebook
Todos os Direitos Reservados