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17/10/2013
Jornalista e designer gráfico querem mostrar África sem estereótipos
Da Redação

S. Paulo – A jornalista Flora Pereira e o design gráfico Natan de Aquino se preparam para a segunda fase do Projeto Afreaka – um site de jornalismo independente - que tem como objetivo desmistificar o continente e a maneira como a Africa é retratada pela mídia ocidental, desconstruindo os estereótipos e cobrindo as expressões coletivas e individuais das culturas locais (música, literartura, arte, culinária, arquitetura etc).

Na primeira fase eles percorreram oito países do sul e leste do continente, partindo de Johanesburgo, na África do Sul, passando pela Namíbia, Botsuana, Zimbábue, Zâmbia, Quênia, Tanzânia e Moçambique. Desta vez serão visitados a Nigéria, Benin, Togo, Gana, Burkina Faso, Mali e Senegal. “Mas o roteiro vai ser um pouco mais aberto do que o primeiro e a lista pode aumentar se sobrar tempo e conseguirmos incluir outros países durante o viagem”, avisa Flora.

Na primeira fase do Afreaka foram produzidas mais de 90 reportagens, 100 ilustrações inéditas vídeos e fotografias e uma secção de dicas para o turismo local. Esse acervo deverá ser ampliado com a fase dois. “Em termos estruturais, vamos ampliar as seções do site, incluindo uma página colaborativa para quem quiser mandar reportagens sobre cultura africana contemporânea assim como uma nova página para notas e artigos rápidos, que não tínhamos na primeira fase, com objetivo de tentar não deixar nada de fora dessa vez”, acrescenta a jornalista. 

O dinheiro para a primeira fase foi obtido graças ao crowdfunding, um sistema de financiamento coletivo em que qualquer pessoa pode colaborar doando por meio do site http://catarse.me/pt/afreaka2

"Queríamos mostrar a África contemporânea, uma África cheia de exemplos de protagonismo. E assim, em um brainstorm, juntos montamos o projeto”, afirma Flora ao contar como surgiu a ideia das viagens pelo continente africano.

Preparando-se para a nova etapa do projeto, que deverá começar em dezembro deste ano, Flora, que é formada pela Universidade Federal de S. Carlos, conversou com o editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira sobre os planos para o Afreaka 2 e da esperança de que consigam arrecadar nos próximos 20 dias, os R$ 24 mil necessários para executá-lo.  

Leia, na íntegra, a entrevista.

Afropress - Como e porque surgiu a idéia do Afreaka com a proposta de desesteriotipar o continente africano?

Flora Pereira - Somos dois os fundadores do projeto, eu e o Natan de Aquino. Tínhamos ambos visitado apenas o Marrocos. Mas a nossa visita lá já tinha sido um choque em relação a quebra de estereótipos. Era tudo diferente do que a mídia falava ou do que eu havia estudado.

Encontramos uma terra socialmente e culturalmente rica, plena de histórias desconhecidas pelo mundo. Mas a ideia não veio exatamente dessa viagem. Eu me interesso por África desde sempre e, conforme o tempo foi passando, fui aprofundando os interesses e os estudos.

Estudei literatura, cinema e documentário africano durante meu período de graduação e depois fiz uma especialização em Estudos Africanos. Sempre achei divergente o que lia e estudava do que o que aparecia na grande mídia.

Ainda, apaixonados pelo continente, tínhamos planos de ir morar na África fazer uma experiência de trabalho. Quando começamos a planejar a mudança e pesquisar mais a fundo, percebemos o quão forte era essa visão estereotipada do continente, mesmo até das pessoas que já tinham visitado o continente.

Foi quando começamos a pensar no projeto para tentar desmistificar o continente e a maneira com que ele é retratado na mídia. Queríamos mostrar a África contemporânea, uma África cheia de exemplos de protagonismo. E assim, em um brainstorm, juntos montamos o projeto.  

Afropress - O que de mais interessante vocês descobriram sobre a África?

FP - É difícil escolher apenas uma coisa. De maneira geral, o mais interessante foi poder confirmar a proposta do projeto na verdade. Quando fomos, sabíamos que era diferente do que diziam na mídia ou até mesmo nos guias, mas não que seria tanto. Chegamos lá e mesmo assim nos surpreendíamos o tempo todo com a abundância de pautas que revelavam inovação, protagonismo, sustentabilidade, arte digital, tecnologia etc. Artistas, iniciativas inovadoras, projetos exemplares pipocavam por todos os lados. Na escolha das matérias, tínhamos que filtrar por falta de tempo para cobrir tudo. 

Afropress - Quais os objetivos dessa segunda fase e que países vocês pretendem visitar?

FP - O objetivo é continuar trazendo exemplos do protagonismo africano para o Brasil e criando esse conteúdo que ainda não existe de modo integral por aqui.

Assim como no primeiro, achamos importante essa quebra de estereótipos, o olhar horizontal e o desenvolvimento participativo. Ainda, acreditamos que descobrindo outras culturas, aprendemos muito sobre a nossa, criando laços fortes de identificação em relação a extensa gama cultural e social do continente.

No Afreaka 2, queremos visitar Nigéria, Benim, Togo, Gana, Burkina Faso, Mali e Senegal. Mas o roteiro vai ser um pouco mais aberto do que o primeiro e a lista pode aumentar se sobrar tempo e conseguirmos incluir outros países durante o viagem.

Em termos estruturais, vamos ampliar as seções do site, incluindo uma página colaborativa para quem quiser mandar reportagens sobre cultura africana contemporânea assim como uma nova página para notas e artigos rápidos, que não tínhamos na primeira fase, com objetivo de tentar não deixar nada de fora dessa vez. 

Afropress - Como é a rotina da viagem de vocês? Por exemplo: quando chegam num determinado país, onde se hospedam e o que buscam em primeiro lugar para destacar nos textos e no site, tendo em vista o pouco tempo de que dispõem?

FP - Na primeira viagem, acampamos por mais de dois meses e sempre ficávamos nos albergues e quartos mais baratos das cidades. Também fizemos muito couchsurfing (surfe de sofá, na tradução livre para o português) - rede social que faz a ponte entre turistas que querem hospedagem grátis durante uma viagem e pessoas que costumam receber esses visitas - e pessoas incríveis nos ofereceram o conforto de um quarto de suas casas.

Ainda fomos adotados temporariamente por quatro famílias, que nos proporcionaram grande riqueza de experiências. Para a locomoção, 90% da viagem foi feito de transporte público e só não era quando outra opção sairia mais barato. Vamos seguir nesse fluxo.

Para planejar a viagem, temos um pré-roteiro. Mas quando chegamos em um novo país, vamos nos informando de iniciativas, eventos etc. E se conhecemos algo novo, mudamos a rota dentro de cada país. De modo geral, o planejamento de estadia é feito sempre na cidade anterior, com dicas de guias e principalmente de outros viajantes. 

Já em relação a seleção de pauta, os quesitos eram a qualidade do material recolhido, a importância da pauta para o tema do projeto e o impacto social que ele poderia ter. Outra seleção foi: o Afreaka acredita desenvolvimento participativo, do desenvolvimento endógeno. E a gente tentou levar isso para os textos, fotografias e para toda a linha de pesquisa do site, selecionando como pauta apenas projetos de iniciativas locais. Projetos estrangeiros de ou de caráter assistencialistas ficavam de fora. A ideia era mostrar a capacidade e o protagonismo local.

Afropress - O que pretendem fazer com o acervo dessas viagens?

FP - O Afreaka 2 é o futuro próximo. Temos mais 20 dias de captação para alcançar a meta proposta. Ao longo desses seis meses de viagem continuaremos a pensar na participação de editais, para na volta tornar o projeto cada vez mais acessível, seja através de documentários, exposições, palestras, um livro ou novas viagens. E assim, ir fazendo do Afreaka um portal colaborativo de cultura africana. Ficamos na torcida para que os caminhos se tornem possíveis.

Outra possibilidade é rumar para educação. Durante a viagem começamos a receber e-mail de estudantes e professores que nos contavam que estavam usando o conteúdo dentro das salas de aula. E assim fomos percebendo o potencial educativo do projeto. Hoje, o conteúdo existente sobre cultura afro nos livros utilizados no sistema de educação é ainda muito restrito e direcionado na maioria das vezes para o período de escravidão. Falta conteúdo sobre a cultura africana, sobre sua influência na sociedade brasileira e sobre a sua importância para a formação econômica, social e cultural do país.

E, principalmente, falta conteúdo sobre a África contemporânea. E o Afreaka traz muitos exemplos nesse sentido, tentando revelar o caráter protagonista do continente, mostrando uma história com outro ângulo, não mais ou menos real, mas talvez mais múltiplo. 

Apesar da Lei de 2003, que faz disso algo obrigatório, ainda falta muito para que a educação de história e cultura afro-brasileira e africana seja implementada de maneira integral ou como deveria ser.

O Brasil está caminhando nesta direção, no entanto, antes de tudo é preciso parar de enxergar o continente de forma vertical, como um lugar passivo. A África tem muitos exemplos para dar e serem seguidos. E acredito que só quando esse olhar horizontal for estabelecido, o estudo em questão vai conseguir quebrar as barreiras históricas de preconceito racial. 

Afropress - Quando pretendem iniciar a segunda etapa, quanto tempo durará e quanto falta ainda de recursos para a viagem?

FP - A ideia é começar a viagem, que terá a duração de seis meses, no começo de dezembro. Com o financiamento coletivo, que está sendo feito pelo Catarse - http://catarse.me/pt/afreaka2, até agora contamos com 135 apoiadores e arrecadamos quase 19 mil reais. A meta é 24 mil, o que significa que estamos com 77% do total atingido. Temos 20 dias de financiamento coletivo pela frente e torcemos para completar esta meta até lá. 

Afropress - O que na sua opinião, o mundo tem de mais importante a aprender sobre a África - no campo da literatura, da filosofia, da cultura e do modo de vida africano?

FP - Na verdade são tantas coisas que fica difícil escolher uma ou outra. Acho que a proposta do Afreaka é justamente essa. A cada reportagem tentamos trazer algo que a África tenha para nos ensinar. Exemplos não faltam, acho que o maior problema é que falta informação sobre o que é e onde está a África hoje.

Por exemplo, um dos maiores erros é o estereótipo da África rural - porque é isso o que passa na TV, documentários e afins. A África é um bilhão de vezes mais urbana do que acredita o imaginário coletivo do brasileiro. Mas existem muitos outros. Respondendo inversamente, dá para citar exemplos que quebram o estereótipo e a imagem que temos no Brasil do continente: o 3G em qualquer país que passamos é infinitamente mais eficaz do que por aqui e 4G já estava rolando solto na Namíbia muito antes do que no Brasil; alguns setores da medicina assim como a tecnologia utilizada nas estradas da África do Sul estão sendo estudados por profissionais brasileiros para a implementação no país, a Tanzânia está reescrevendo sua constituição de maneira participativa com o apoio e interferência direta da população; em Nairóbi, no Quênia, hoje se encontra o principal Hub de TI do mundo e por aí vai. Sem contar a inovação e qualidade artística que encontramos de maneira abundante. 


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