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Ativista negra se declara inocente e acusa justiça seletiva
27/11/2013
Reflexões à propósito dos 8 anos da Afropress
Editorial

Somos a Imprensa Negra ou o lado negro da Imprensa? Somos jornalistas negros ou negros jornalistas? Somos o todo ou parte do todo? Substantivos ou adjetivos? Sujeitos ou Predicados?

Seres humanos plenos, com todos os direitos – inclusive à virtude e ao vício - ou aceitamos docilmente o carimbo que o racismo pregou à nossa testa?

Negros - apenas negros. Não cidadãos (ou cidadãos pela metade) só negros. Advogados, psicólogos, jornalistas, intelectuais, braçais, trabalhadores... mas, atenção: apenas negros, igualzinho como nos classificaram os colonizadores ao pisarem pela primeira vez o continente africano e ao patrocinarem o crime de lesa humanidade e o genocídio sobre as nações indígenas nossos parentes de infortúnio.

Também consideramos que, entre a esquerda e a direita, continuamos negros – reduzindo a contradição fundamental de qualquer sistema capitalista a uma questão biológica (ou de melanina, dizendo de outro modo), ou em um sistema de opressão, exclusão, exploração e racismo, sempre saberemos o nosso lugar: à esquerda da bancada dos privilégios?

Nosso espaço nesta República madrasta é o puxadinho ou estamos dispostos a perguntar aos senhores do mundo – com quem não temos, nem nunca teremos pactos: “com tanta riqueza por aí onde é que está, cadê nossa porção”?

Queremos nossa parte no bolo que cresce, cresce e não se distribui ou aceitamos que outros definam o nosso lugar - não nos insurgimos quando nos oferecem entrar pela janela ou pela porta dos fundos?

Abrimos, mesmo, mão de entrar pela porta da frente?

Temos o partido e aceitamos ser apenas porta-vozes das oligarquias de máquinas partidárias em avançado estado de esclerose política, ou ou estamos prontos a tomar partido e só reconhemos como bandeira a causa da Justiça e da Igualdade?

Sabemos, de fato, o que queremos, confiamos nas nossas próprias forças, ou ou ainda usamos a vitimização como bandeira, o “coitadismo” como desculpa para encobrir nossa ausência de fibra? Ou o seu inverso: o padrão de virtude como estandarte?

Aceitamos ser “apenas negros”, predicados, coadjuvantes, cidadãos de segunda classe e, portanto, que recaia só sobre nossos ombros a responsabilidade pela superação das sombras da escravidão ignóbil, ou queremos, democráticamente, construir pontes com todos – de todas as cores, credos, origens e posições - sabedores de que o racismo é uma patologia social que, ao admitir a existência de raças, renega a única verdade cientificamente comprovada: a de que todos pertencemos a uma mesma e única raça - a humana - e que  e exclusão é a antítese da Justiça e do Direito?

Aceitamos o gueto ou queremos tirar do papel o mantra de uma democracia racial que só existe nos compêndios? Mimetizamos o “equal but, separated” (iguais, mas separados) dos americanos do Norte, ou assumimos o nosso caráter plural - étnica, cultural, sociológico e antropológico - como povo brasileiro?

Há oito anos, a Afropress tem sido um laboratório vivo, espaço de reflexão, de embates e de debates, buscando responder a essas questões e a esses dilemas.

Todos os que nos acompanham nessa jornada nunca tranquila (muito ao contrário) permeada de dores, processos, perseguições, incompreensões, sofrimentos e desassossegos podem se chamar de todos os nomes, mas são, acima de tudo (ou simplesmente): Altivos.

Sabemos que ser negro no mundo é uma posição política. Homens, mulheres e crianças – Toda Palmares sabia.

Ser negro é uma posição política. Tanto que, quando o velho assassino de índios e negros, o luso Domingos Jorge, empreendeu a grande caçada, Zumbi não se rendeu.

Todos sabemos. Desde a maldição de Cam: ser negro neste mundo é uma posição política.

Seguiremos atentos às sábias palavras de Boaventura de Souza Santos: "lutar pela igualdade sempre que as diferenças nos discriminem; lutar pelas diferenças sempre que a igualdade nos descaracterize”.

Que venham os próximos 80 anos!

 


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