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04/02/2014
As duas Áfricas e os dois Brasis
Editorial

A Agência África, do Grupo ABC, comandada pelo publicitário baiano Nizan Guanaes, acaba de receber o prêmio de Agência internacional do ano da revista norte-americana Advertising Age, considerada a bíblia da publicidade mundial.

A cara dessa África é a do Brasil majoritariamente branco, bem nascido, vencedor no mundo da publicidade, frequentador dos salões do jet set internacional – mesmo com Nizan já tendo se auto-definido da seguinte forma: “Estou empurrando o Brasil sem esquecer que sou tataraneto de preto, que minha religião é o candomblé, que sou baiano e que meu povo veste branco às sextas”.

A cara da outra África e do outro Brasil foi mostrada três dias antes, na última quinta-feira (31/01), muito distante, mais ao mesmo tempo muito próxima: mora ao lado do glamour e do charme da agência que faz uso do nome do continente afogado na pobreza desde que sua população, em idade produtiva, foi escravizada e se tornou, como a história registra, a força de trabalho que fez o Brasil: as cenas chocantes do adolescente negro, nu, com sinais de espancamento, amarrado a um poste por uma trava de bicicleta, supostamente por rapazes da classe média branca carioca.

São as duas Áfricas e são os dois brasis expostos à céu aberto, diante dos olhos atônitos de quem tem ainda os tem para ver e não perdeu a capacidade humana de se indignar.

"É o Super Bowl da publicidade [referência ao campeonato de futebol americano]. É como ganhar uma estrela na camisa da seleção", contou o publicitário ao receber os cumprimentos, inclusive, da Presidente Dilma Rousseff.

É o Super Bowl da vergonha nacional, do fracasso de sucessivos governos em reduzir a obscena desigualdade. É a falência de um Estado em que a distância entre os que frequentam o andar de cima como Nizan, e os que, desde sempre, foram privados de cidadania - na sua maioria negros, como o adolescente vítima da selvageria do "justiçamento" -, é escandalosamente flagrante. São as duas Áfricas e são os dois Brasis.

Na foto comemorativa Nizan posa com sua equipe (é curioso como na foto não há um único negro e o próprio chefe, autodeclarado tataraneto de preto, aparece estranhamente branco) vestindo camisetas com os dizeres: “Iam foda” (Eu sou foda) para celebrar o reconhecimento da publicidade mundial. A imagem é emblemática porque faz o contraponto perfeito: do outro lado, no mesmo Rio, no mesmo Brasil os “fodidos”, como o adolescente do Flamengo, estão diariamente expostos aos nossos olhos, vítimas da barbárie.


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