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Racismo explícito do ex-conselheiro do Santos. Ouça.
23/02/2014
A condenação da senhora da paulista e o racismo que nos ameaça
Editorial

A cena de uma senhora de 72 anos vociferando ofensas racistas e desafiando a Polícia em plena Avenida Paulista – coração financeiro de S. Paulo e do Brasil –, agora condenada em juízo de primeira instância a quatro anos de reclusão, além do pagamento da indenização no valor de 40 salários mínimos a cada um dos ofendidos, choca pela crueza.
 
Mas, não é esse o tipo de racismo que nos ameaça. Esta modalidade demasiado crua, demasiado tosca, só pode impressionar a ala impressionista do movimento negro que, a cada episódio desse tipo, celebra - “Viu, como o Brasil é racista?!”. Como se precisássemos ainda de alguma prova.
 
É a mesma ala que quando não celebra o simbólico evade-se da realidade no “coitadismo” e oscila entre o “vitimismo paralisante”, o “ressentimento vociferante”, e jamais assume um “protagonismo militante”. É a mesma que gasta energia nas redes sociais em declarações simplórias tais como “negro é lindo”, “meu cabelo não é ruim, ruim é o racismo” e a outras bobagens da mesma sorte. 
 
É como se estivéssemos ainda na década de 30 do século passado, quando o projeto de branqueamento da elite branca brasileira colocou, de fato, em risco, a sobrevivência física dos descendentes de indígenas e africanos.
 
O impressionismo dessa gente que se habituou a suprir a falta de conhecimento e atitude com a postura de que “tudo é racismo” (daí o “coitadismo paralisante”) não tem limites. Só pode ser entendido como uma válvula de escape para não encarar a realidade. Quem sabe, Freud explique! 
 
Não, nem tudo é racismo. Muitas vezes, atitudes pouco cordatas nas relações interpessoais entre negros e não negros, são apenas a expressão da falta de educação, falta de modos, falta de civilidade, grosseria mesmo. Mas é verdade que, em um país que viveu dois terços de sua história sob escravidão negra (7 de cada dez dias), numa sociedade estruturada sob os escombros do escravismo, o racismo, de fato, permeia tudo. Convém, portanto, identificá-lo para não cairmos na caricatura nem na banalização do monstro. 
 
O racismo que nos ameaça é outro, diferente deste demonstrado pela senhora da paulista que mais parece dar vazão a um surto de senilidade: é o invisível, o que não se assume, o que não mostra a cara – o que não o torna menos odioso e letal. 
 
A expressão do racismo à brasileira jamais assumiria tais ofensas a negros em alto e bom som, nem à luz do dia. E se viesse a ser flagrado como costuma ser no cotidiano, se sairia com as velhas e esfarrapadas desculpas. “Eu até tenho negros na família”, “meu melhor amigo é negro” e outras de praxe.
 
É a cobra que está em algum canto do seu quarto, que fica normalmente na penumbra e que você até pode conviver com ela desde que não invada o seu espaço. Uma aproximação maior que ocorre sempre que um negro ocupa um espaço fora dos padrões que, históricamente, lhe foram reservados – o da subalternidade, da invisibilidade, da subcidadania – é o bastante para o bote do réptil peçonhento.
 
Portanto, os que celebram a possível prisão da velha senhora, não devem perder o seu tempo. Não se iludam. Essa sentença será reformada – e, sejamos honestos – seria uma crueldade com alguém de 72 anos ser recolhido às masmorras medievais que são as nossas cadeias e o nosso sistema prisional. Sem contar que, como se trata de um sistema que não reeduca, não ressocializa, nem reintegra, correríamos todos o risco desse ódio recalcado a negros sair de lá ainda mais virulento.
 
O que o Brasil precisa não é de cadeias, é de Escola, de Educação de qualidade com oportunidades de acesso a todos – o que ainda não temos -, especialmente, nós, a maioria preta e parda - vale dizer negra - que representamos 50,7% da população, segundo o Censo do IBGE 2010. 
Educação de qualidade que deveria começar por uma Educação antirracista - meta distante diante da recusa sistemática do Estado em cumprir a Lei 10.639/2003, por ele próprio editada, que obriga a inclusão da história da África e Cultura Afro-brasileira em todas as escolas de ensino fundamental e médio, há 10 anos em vigor e há 10 anos sendo ignorada pela esmagadora maioria dos sistemas de ensino.
 
Uma educação antirracista, que começasse da pré-escola até o ensino superior, seria mil vezes mais útil e mais eficaz para a erradicação dessa patologia social do que as dezenas de organismos sem orçamento, nem poder (meramente simbólicos) de que o Poder Público tem se valido, apenas para dizer que desenvolve ações visando a inclusão negra e ao ajuste de contas com a herança maldita da escravidão. 
 
Mas esta é uma outra história. 
 
 

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