22 de Julho de 2019 |
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Racismo explícito do ex-conselheiro do Santos. Ouça.
28/04/2014
Não, não somos macacos. Somos humanos!
Editorial

A campanha “somos todos macacos” lançada por Neymar num gesto de solidariedade ao lateral Daniel Alves – vítima de uma agressão racista na partida do Barcelona contra o Villarreal – virou moda: da Presidente Dilma Rousseff, a artistas globais como o apresentador Luciano Huck, passando pelo senador Suplicy, que se deixou fotografar comendo uma banana.

Trata-se, porém, do velho “jeitinho brasileiro", o deixa pra lá com que estamos acostumados a empurrar históricamente para debaixo do tapete – ou com a barriga - as nossas piores mazelas, como o racismo, por exemplo, crime considerado pela própria Constituição inafiançável e imprescritível.

Não, não “somos todos macacos”! É um equívoco, Presidente, aderir ao modismo lançado por Neymar. Ao contrário: somos humanos, seres humanos e devemos afirmá-lo para nos contrapor de forma consequente ao racismo e a xenofobia. É o racismo que recusa a nossa humanidade ao nos negar direitos básicos, a nossa condição huamana, iguais na diferença.

Ao fazê-lo, os racistas se tornam a expressão do que há de mais retrógrado, mais desumano, pois renegam uma verdade que a ciência já consagrou: só existe uma raça, a raça humana.

O racismo nos desumaniza e degrada. Por isso, os racistas nos atiram “bananas”, para afirmarem a nossa desumanidade, nos lembrando que ocupamos uma posição inferior na escala evolutiva - símios e não homens, ainda que também seja verdade científica consagrada por Charles Darwin, que também somos mamíferos e primatas como os macacos.

Contrapor à agressão com esse tipo de resposta é não dar o peso nem a medida adequados a um ato criminoso. Se somos todos macacos, elimina-se a responsabilidade do agressor, generalizando-se a agressão. No lugar de punir o criminoso, naturaliza-se o crime. Se somos todos macacos, não há mais crime.

Não é porque Neymar decidiu manifestar solidariedade ao companheiro de clube da forma como lhe pareceu melhor, que devemos aderir a mais esse modismo que cai como uma luva na tradição brasileira de não encarar de frente problemas sérios, lançando mão do “jeitinho” tão entranhado na nossa cultura.

O que queremos dos clubes, da FIFA, da CBF, é que a cada atitude de agressão, a cada xingamento, sejam tomadas providências para punir o agressor, como, aliás, fez o clube espanhol, ao identificar e punir o autor da banana atirada ao campo e degustada pelo lateral brasileiro, banindo-o dos estádios.

É muito comum que jogadores negros se mostrem absolutamente despreparados para enfrentar esse tipo de agressão. Desarmados, em geral, sucumbem à vitimização paralisante. Há os que se abatem como aconteceu com Tinga, outros choram como o juiz também agredido por bananas deixadas em seu carro, após um jogo do campeonato gaúcho.

Isso quando não reagem como Pelé, que já declarou ser normal nos estádios o uso da expressão “macaco” dirigida a negros.

A agressão racista normalmente pega a vítima desprevenida, e isso acontece porque, no Brasil, todos nascemos e crescemos sob o mito da democracia racial, a ideia de que esse problema não existe por aqui. As reações refletem o despreparo. É como você está em um local público e, de repente, ser atacado com um insulto ou um soco no rosto por um estranho. A primeira reação é a passividade assustada. O inesperado paralisa.

Diante da agressão, Daniel Alves – ainda que por impulso - tomou uma atitude: descascou e comeu a fruta, o que soou como uma resposta irônica e de grande repercussão na mídia e nas redes sociais pelo inusitado. (Veja o vídeo http://youtu.be/9jGXkjJx12g). Os aplausos ao gesto, porém, não refletem a consciência da gravidade do problema, especialmente, quando se sabe que há certos setores na sociedade brasileira, ao invés de assumir a luta pela superação do racismo, preferem a maquiagem midiática e frases de feito que desaparecerão tão rapidamente como surgiram.

Atitudes, contudo, não podem se limitar às vítimas, quase sempre despreparadas. O Poder Público, vale dizer, o Estado, precisa avançar para a adoção de uma Educação antirrascista - da pré-escola às Universidades. Um país que viveu por quase 400 anos sob regime de escravidão negra, não se livra dessa herança em apenas 126 anos de Abolição, como, aliás, já prevenira Joaquim Nabuco.

Temos uma Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), emendada pela Lei 10.639/2003, que obriga a inclusão do ensino da história da África e da cultura afro-brasileira nos currículos das escolas de ensino fundamental e médio, públicas e privadas.

No Brasil, porém, a tradição das "Leis que pegam" e das "Leis que não pegam" continua. Não temos uma educação antirracista nas escolas. A LDB não é cumprida.

Os sistemas de ensino dos Municípios e Estados a ignoram e o Governo Federal fecha os olhos. O Ministério Público e o Poder Judiciário da mesma forma deixam passar.

E o movimento social vive fazendo reuniões para “discutir a implementação da Lei 10.639”, como se as Leis, uma vez aprovadas pelo Legislativo e sancionadas pelo Executivo, não devessem ser automaticamente cumpridas e precisassem ser discutidas pelos interessados.

Afinal, somos também, como se sabe, o “país do faz de conta".

Temos um Estatuto da Igualdade Racial – a Lei 12.288/2010 - que se tornou uma declaração de boas intenções e é igualmente ignorada. E temos ainda a situação presente, cotidiana, do negro como suspeito padrão, alvo das balas da polícia, candidato a “morar longe” e morrer mais cedo, como demonstram todas as estatísticas, inclusive as seguidas edições do Mapa da Violência.

Então, por melhores que sejam as intenções de Neymar e dos que aderiram a campanha por ele lançada – inclusive a Presidente da República – é preciso que se diga: não, não é esse o caminho para enfrentar uma patologia social como o racismo, uma chaga que contamina todo o tecido social e é um dos elementos estruturantes da desigualdade social brasileira.

Aliás, e não por acaso, a desigualdade por aqui, entra Governo e sai Governo, também não muda: ocupamos o desonroso quarto lugar entre os 10 países de maior desigualdade do Planeta.

Crédito das fotos: O Globo

 

 


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