8 de Agosto de 2020 |
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30/07/2014
V. Socó: Ueki depõe por 4h, nega "Abafa", mas quer colaborar
Da Redação

S. Paulo – O ex-presidente da Petrobrás, ex-ministro das Minas e Energia e servidor durante 18 dos 21 anos de regime militar, Shigeaki Ueki, 79 anos, depôs nesta quarta-feira (30/07) à Comissão da Verdade "Rubens Paiva", da Assembléia Legislativa de S. Paulo, sobre o caso do incêndio da Vila Socó – o incêndio com maior número de vítimas de toda a história do Brasil, em que morreram pelo menos 508 pessoas – na sua maioria pobres e negros, migrantes nordestinos.

Ueki, que atendeu ao convite do presidente da Comissão, deputado Adriano Diogo (PT/SP), depôs das 14h às 18h, e respondeu as perguntas do próprio Diogo e dos participantes da mesa – os advogados Dojival Vieira, Luiz Marcelo Moreira e André Simões Louro, da Comissão da Verdade formada pela OAB de Cubatão para investigar a “Operação Abafa” desencadeada pelo regime militar para acobertar o caso.

Segundo essa Comissão, graças a tentativa de acobertamento das autoridades, à época, o número de mortos foi reduzido para 93, crianças de até 12 anos foram excluídas da lista de indenizações e a responsabilidade pelo incêndio jamais foi investigada com a garantia da impunidade dos responsáveis – inclusive do próprio Ueki  e outros funcionários graduados da estatal.

A maioria das famílias receberam à título de indenização apenas valores irrisórios pela perda de bens materiais. Os dois principais acusados – o próprio Ueki e o então interventor nomeado pelos militares, José Oswaldo Passarelli – não responderam a processo beneficiados por um “habeas corpus” impetrado junto ao Tribunal de Justiça de S. Paulo.

O caso ocorreu na madrugada de 24 para 25 de fevereiro de 1.984, quando cerca de 2 milhões de litros de combustível vazaram das tubulações que passavam em frente à favela. Por volta das 030h da madrugada do dia 25, um sábado, as chamas explodiram sobre o combustível que foi levado pela maré cheia para debaixo das palafitas onde viviam cerca de 6 mil pessoas.

Responsabilidade

Ueki admitiu que esteve ligado ao regime desde o primeiro governo militar – do marechal Castelo Branco – e depois durante os Governos Médici, Geisel e Figueiredo. “Nunca participei de força de repressão”, afirmou. Ele justificou a  adesão ao regime alegando que “testemunhou o nosso país correr o risco de se tornar uma grande Cuba – um Cubão”, acrescentou, provocando reações na platéia.

Questionado sobre o incêndio à favela, disse não aceitar que o número de mortos tenha sido maior que os 93 oficiais e citou comunicados mandados publicar pela Petrobrás nos principais jornais do país, - o primeiro no dia 27 de fevereiro (dois dias após o incêndio) e o segundo no dia 1º de março – colocando em cheque o “número despropositado de mortos” e o que chamou de “sensacionalismo” da imprensa, que confirmavam os dados da investigação conduzida pelo Ministério Público Estadual. “Não posso acreditar que tenham sido 500 mortos. Cem já é suficiente”, afirmou.

Operação Abafa

Depois de questionamentos do presidente da OAB Luiz Marcelo Moreira e de André Simões Louro sobre aspectos técnicos do processo – que estava a caminho de ser incinerado e foi desarquivado por iniciativa da Comissão – Ueki foi questionado pelo advogado Dojival Vieira, para quem a “Operação Abafa” ficou caracterizada pelo fato da Petrobrás jamais ter assumido a falta de manutenção das tubulações, a ausência de zelo na operação, que resultou no vazamento, no acobertamento do número de vítimas e na garantia à impunidade dos responsáveis.

“Esperamos 30 anos pelo momento de lhe fazer as perguntas que o senhor nunca ouviu, porque o senhor como homem do regime sempre foi muito blindado e nem com a imprensa falava com frequência. Com todo o respeito a sua pessoa, o senhor fala nesta audiência como um fiel servidor do regime militar que prendeu, sumiu, matou e torturou centenas de pessoas. No caso da Vila Socó, as vítimas foram uma população civil desarmada, que simplesmente virou cinzas em um incêndio cuja responsabilidade nunca foi assumida pela Petrobrás que estava sob sua direção”, afirmou Vieira.

Ueki negou que tenha havido acobertamento de dados. “Não houve caixa preta, não houve movimento de acobertamento ou de desvio para que se encobrisse a verdade”, afirmou sem, no entanto, desmentir os dados fornecidos pelas investigações, à época.

Segundo relatório dos promotores Marcos Ribeiro de Freitas e José Carlos Pedreira Passos (já falecido), com base nos laudos periciais do Instituto Médico Legal de Santos, haviam três hipóteses para o número de mortos: na primeira foram 508 calculados da seguinte forma - 86 óbitos documentados, com encontro de cadáver, mais um número estimado de 300 crianças de zero a três anos de idade, mais 122 crianças de 3 a 6 anos; na segunda hipótese, seriam 631 mortos, considerando-se 86 óbitos documentos, mais as 300 crianças de zero a três anos, além de 245 de 3 a 6 anos, que continuavam desaparecidas um mês após, e que na primeira hipótese era consideradas apenas 122.

Finalmente, uma terceira hipótese, dava conta de que além das crianças de zero a seis anos, tomadas em conjunto, somou-se um número não determinado de adultos, além dos 86 corpos localizados, o que elevaria o número para acima de 700 pessoas. Além disso foram registrados 27 feridos com lesões graves e outros cem, pelo menos, com lesões mais leves.

Tomando-se por base a primeira hipótese de 508 mortos, que é o que constou nos do processo, o número total de vítimas seriam de 635, incluidos os feridos. As informações tiveram mais destaque na Imprensa internacional, inclusive, em jornais como o The New York Times.

Indenizações

Ueki tentou ainda desacreditar os números alegando o porque das famílias das vítimas não procurarem a Petrobrás buscando indenização, sendo lembrado que a maioria dos moradores era composta de migrantes nordestinos, que tinham se mudado para a Vila Socó, sem deixar parentes nem contatos.

Sobre a exclusão de crianças de até 12 anos da lista de indenizáveis, o ex-presidente da Petrobrás garantiu que determinou ao então diretor responsável pela Refinaria Presidente Bernardes, José Joaquim Boarin (já falecido), que pagasse todas as indenizações sem questionar valores. Depoimentos de vítimas, contudo, asseguram que os que foram indenizados receberam apenas pelos poucos bens materiais que se perderam no incêndio e não pelos parentes mortos.

Depois de mais de quatro horas de iniciado o depoimento e das perguntas e questionamentos, tanto dos participantes da mesa quanto do assessor da Comissão Nacional da Verdade, Ivan Seixas, Ueki aceitou colaborar com a Comissão da Verdade. “Estou à disposição para colaborar”, garantiu. Ele pediu que os membros das Comissão façam questionamentos sobre os pontos levantados para que possa fazer gestões junto a contatos que mantém na direção da empresa para que toda a verdade sobre o episódio seja esclarecida.

Segundo o deputado Adriano Diogo, o depoimento do ex-presidente da Petrobrás ajudou a esclarecer dúvidas e foi importante para o restabelecimento da verdade sobre o caso.

 

 

 

 


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