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Racismo explícito do ex-conselheiro do Santos. Ouça.
12/08/2014
O Fundo, a autofagia e o risco de mais um elefante branco
Editorial

A proposta da criação de um Fundo Nacional de Combate ao Racismo (FNCR), que será lançada esta semana em Brasília, é uma boa iniciativa – a única, depois de anos de paralisia de um movimento social que se congelou no tempo, sem lideranças autênticas, e com porta-vozes chapa-branca, que se acomodaram aos puxadinhos dos partidos ou dedicaram-se a engordar currículos na Academia. Nada contra currículos, nem partidos, desde que não pretendam ser porta-vozes de quem não lhes passou procuração.

Com as exceções de praxe, que existem exatamente para confirmar a regra, não temos um movimento social negro, capaz de aglutinar as grandes massas vítimas, de um lado, da exploração econômica e dos piores níveis de desigualdade mantidos por todos os Governos, independente do partido e da orientação política-ideológica dos mesmos; e de outro, da pior modalidade de racismo praticada no planeta, o racismo brasileiro, que tem como peculiaridade a dissimulação, a hipocrisia de jamais se assumir sem, no entanto, deixar de ser tão letal quanto qualquer outro.

As lideranças que apareceram nos últimos 40 anos, ou estão presas à lógica partidária, ou fazem carreira nas Academias. Tornaram o estar nos partidos ou na Academia um meio de vida, dando as costas a imensa maioria pobre e negra que vegeta nos territórios da exclusão, matando 10 leões por dia para sobreviver com alguma dignidade.

O mais interessante é que essa gente pretende falar por todos, como se tivessem alguma procuração ou mandato divino. Vítimas das sequelas de que foram alvos nossos antepassados pelos quase 400 anos de escravidão, e da cultura racista que nos divide à custa de migalhas para manter a supremacia da elite branca nos postos de comando, boa parte dessas lideranças perdeu a noção de que somos a maioria da sociedade e, portanto, não devemos continuar falando para os guetos onde querem nos aprisionar e manter.

Por outro lado, o grau de agressividade, de violência e de truculência com que tratam seus pares – muitas vezes, apenas pelo crime de discordarem de suas estratégias e discursos vazios – é assustadora.

Ainda na semana passada, um conhecido jornalista e historiador, cujo nome nos reservamos ao direito de não mencionar em respeito à ausência, assacou com paus e pedras, seguidos de insultos e de uma retórica furibunda na sua rede social, apenas por que ousamos dizer que a polêmica em torno das cotas criada por conta da posição editorial assumida pela Folha, "era fora de hora e de propósito” e, parea nós, chamar de racista quem é contrário às cotas soava a "fundamentalismo evangélico de algumas seitas neopentescostais para quem toda aquele que não comunga com suas crenças e ritos está condenado ao fogo do inferno".

Há cerca de vinte dias, em outro episódio, uma militante catarinense com tese de mestrado na UFSC, cujo nome também omitimos para não alimentar intrigas nem ódios tolos, reagiu como se tivesse sido gravemente ofendida quando confrontada com uma opinião de que determinada situação relatada não se configurava como crime de racismo.

Fica decretado que qualquer divergência de opinião deve ser respondida com insultos. Essa parece ser, para alguns, a regra de ouro, em especial, para esse autoproclamado grupo de iluminados, que se pretende porta-voz das nossas demandas.

Não poucas vezes, temos sido obrigados a interromper mensagens pela rede social, porque certas pessoas estão (mal) acostumadas ao exercício da agressividade gratuita e as brigas, as inimizades, as quizilas. Os maus tratos e insultos surgem do nada. Entre pares negros rugem como leões ferozes; entre brancos com poder, miam como gatinhos, já disse alguém com toda propriedade.

Só há uma explicação para tanta agressividade e para tais práticas: são as sequelas, mantidas vivas e que fundamentam a autofagia que é, em regra, a base da relação interpessoal entre negros militantes.

A conhecida síndrome do caranguejo, que é perceptível por quem já viu a briga de foice entre esses crustáceos colocados numa panela, uns tentando subir a todo custo passando por cima dos outros, e outros tentando no desespero segurar os que sobem: quando alguém se destaca uma tropa inteira está pronta para segurá-lo, barrá-lo, impedí-lo de ascender.

Voltando ao Fundo, a boa idéia – em especial, partindo de um técnico e ativista respeitado como o é Mário Theodoro Lisboa – não significa que não haja problemas que precisam ser enfrentados. Coletar 1,4 milhão de assinaturas não é tarefa fácil e requer, inclusive, uma logística e uma organização razoáveis.

Por outro lado, a notícia de que o Fundo deverá ficar sob a rubrica da SEPPIR é um balde de água gelada sobre milhares de ativistas para quem o papel daquela Secretaria está mais do que óbvio: foi criada para simular uma inclusão que deve permanecer no plano do simbólico e para servir de cabide de empregos para lideranças negras comprometidos com os seus próprios esquemas partidários.

O Fundo, uma vez criado – tarefa que exige uma gigantesca mobilização, não apenas para coleta das assinaturas mas para forçar sua aprovação pelo Congresso e posterior sanção pela Presidência da República – deve ser gerido por um Comitê Intergovernamental com autonomia de decisão e capaz de fazer com que os recursos não se percam nos caminhos e escaninhos da burocracia.

Colocá-lo sob a influência da SEPPIR e da Palmares – transformadas uma e outra em meros guetos dos grupos que obedecem as ordens e os comandos dos seus gestores e dos seus partidos, e que perseguem quem ousa não fazer parte dos seus esquemas, especialmente na atual gestão – é o mesmo que dá um tiro no pé. Cabe a SEPPIR e a Palmares disputar os recursos no interior dos Governos dos quais participam e geri-los bem, independente do Partido a que pertençam, o que não acontece hoje, se é que aconteceu algum dia.

Por fim, o lançamento, em plena campanha eleitoral, do movimento para a coleta assinaturas em apoio a um Projeto de Iniciativa Popular que terá de ser aprovado pelo Congresso Nacional a ser eleito em outubro, deveria ser seguida de uma ampla mobilização para pressionar parlamentares e candidatos nestas eleições a tomarem uma posição em relação ao tema.

Qual é a posição dos candidatos ao Senado e a Câmara Federal sobre o Fundo? Qual é a posição dos presidenciáveis, especialmente, dos três melhor situados nas pesquisas – Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos?

Por que não comprometê-los ou, ao menos, saber que posição defendem e, em função disso, orientar o voto de todo(a)s o(a)s negro(a)s brasileiro(a)s?

Sem isso, a proposta do Fundo, ainda que correta, fica deslocada no tempo e no espaço e, principalmente, do contexto político, e corre o sério risco de virar um elefante branco – sem viabilidade nem serventia. À conferir.

 

 

 

 

 

 

 


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