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16/08/2014
Dividido e rachado em fracções, MNU faz Congresso na Bahia
Da Redação

Salvador/BA – Dividido em tendências e fracções sem pauta comum de atuação, o Movimento Negro Unificado (MNU), a mais antiga entidade negra nacional em atividade, realiza o seu 17º Congresso, trinta e seis anos após sua fundação, em meio a um racha que opõe, de um lado, lideranças alinhadas ao PT e ao Governo Federal, e de outro, grupos que defendem a autonomia e independência da entidade.

O Congresso foi aberto nesta sexta-feira (15/08), no Hotel VilaMar, em Salvador, e termina domingo (17/08) com a aprovação de resoluções sobre os temas em debate. Cerca de 100 delegados participam.

O ex-coordenador nacional do MNU, Marcus Alessandro Mawsí, acusa a tendência Luta e Unidade (ANLU), dirigida por militantes do PT de aparelhar o Congresso para usar a entidade como instrumento do Partido na disputa eleitoral deste ano e “colocar o MNU no colo do Governo e da campanha da Dilma”. Os principais nomes dessa tendência, segundo os dissidentes, são o ex-deputado Marcelo Dias (foto), do Rio, e Raimundo Bujão, além de membros de tendências do PT como a DS (Democracia Socialista) e CNB (Construindo o Novo Brasil), a tendência majoritária do Partido.

Em Manifesto, que reúne apoios de militantes de vários Estados, Mawusí afirma que o MNU atravessa uma crise sem precedentes agravada pelo fato de a preparação do 17º Congresso ter sido marcada por manobras para excluir os que pensam diferente e pela tentativa do grupo dirigente do Congresso de tomar de assalto o controle da organização.

“A eleição para a tirada dos delegados aconteceu ao lado de uma plenária de parlamentar petista, e não coincidentemente, as fotos publicadas revelam que os assessores deste parlamentar são a maioria dos delegados do Congresso”, afirma. Embora sem revelar o nome, o parlamentar seria o vereador Gilmar Santiago, do PT.

A Fracção MNU de Lutas, Autônomo e Independente, liderada por Reginaldo Bispo, coordenador nacional de organização, também acusa o grupo dirigente de tentar “aparelhar nossa entidade, com o propósito espúrio de submetê-la à lógica dos interesses mesquinhos e interesseiros individualistas e político-eleitorais” e não poupa nem Milton Barbosa, Miltão, coordenador de Relações Internacionais, e um dos remanescentes núcleo que participou do ato de fundação no Teatro Municipal, em 1.978.  

“Em SP, fizemos um processo de discussão com quatro reuniões, três plenárias e uma Assembleia. Os membros da ANLU, não se deram o trabalho de ir a qualquer uma das reuniões ou Assembéia, mesmo Milton Barbosa. Por isso, não compartilhamos, nem participaremos dessa farsa, que chamam 17º Congresso”, afirma Bispo também em Manifesto, que é assinado por membros da Fracção, nos Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Ceará, Distrito Federal, Paraíba e Bahia.

A denúncia dos dissidentes foi feita na plenária de abertura do Congresso, que teve presença na mesa do deputado Luiz Alberto, e de Hamilton Borges Walê, um dos coordenadores do "Movimento Reaja ou será Morto. Reaja ou será Morta", que organiza Marcha Nacional contra o Genocídio da juventude Negra marcada para a próxima sexta-feira, 22 de agosto.

O Movimento Unificado contra a Discriminação Racial nasceu em 1.978 nas escadarias do Teatro Municipal de S. Paulo, em pleno regime militar, e no começo reunia lideranças de várias procedências e origens políticas e ideológicas. Com a redemocratização, o movimento se fragmentou e perdeu força.

Confira a entrevista concedida por Mawusí à Afropress:

Afropress - A denúncia que vocês estão fazendo por meio do Manifesto que está sendo divulgado nas redes sociais é de que um grupo está tentando assumir a direção do MNU por meio de métodos fraudulentos e excluindo do debate as correntes contrárias?

Marcos Alessandro Mawusí – Sim. Estamos nos referindo a ANLU, uma tendência interna do MNU, que reúne muitos militantes do PT, articulados dentro da entidade. Esse setor nunca controlou o MNU, históricamente articularam diferentes métodos de controle nunca exitosos. Mas estão em uma crescente com apoio de parlamentares e outros organismos, quando inicialmente em um golpe terrível tomaram de assalto a coordenação estadual da Bahia e, em seguida, iniciaram de modo equivocado a construção do Congresso Nacional do MNU.

Não estamos nos referindo a um processo estadual ou municipal, esse processo de caráter nacional, querem tomar o MNU, da sua perspectiva histórica de luta autônoma e independente de formulação e intervenção na luta contra o racismo e atitude política de elaboração de um projeto político do Povo Negro para o Brasil, numa perspectiva Pan-Africanista, livre do controle e aparelhamento dos partidos da direita escravista e esquerda colonialista.

Afropress – Quem são as lideranças desse grupo e o que propõem?

Mawusí  - Na verdade esse grupo se propõe ao controle e direção da entidade, para depois utilizar o legado e patrimônio histórico do MNU, como moeda de troca, cacifando seus nomes na ciranda dos cargos e nomeações, nos governos estadual e federal. Logo, é preciso mostrar serviço aos "capas" do PT, para depois ter “mérito” na disputa por indicação dos cargos.

Afropress -  Qual é a situação do MNU hoje? E por que o debate não está sendo feito de forma transparente?

Mawusí - O MNU é responsável por um conjunto inestimável de avanços e contribuições na luta política do Povo Negro no Brasil, no século XX. Porém não fomos exitosos na tarefa de transformar o MNU, em uma organização política de fato, muito por conta dos enfrentamentos internos dos setores organizados pelos partidos que históricamente nunca foram simpáticos ao projeto de um organismo que desse centralidade aos filiados dos partidos, na prática eles realizavam uma visível utilização da sigla da entidade e seu peso histórico. Logo, nosso momento atual é de muita dispersão e fragilidade. Mas acreditamos que é possível que os setores não controlados pelos partidos, promovam alguma rearticulação de alcance nacional.

Afropress – O que o grupo dissidente pretende fazer?

Mawusí - Lamentamos muito o método de construção desse XVII Congresso Nacional do MNU, uma vez que ele nega a histórica tradição da entidade de debate político e formulação, no processo de muita divergência, argumentação e proposição de alternativas políticas ao Povo Negro no Brasil. Muitos desses traidores da causa de libertação do Povo Negro, nunca entenderam que o MNU nunca fez uso de expressões do tipo “promoção da igualdade racial” porque temos o entendimento histórico que a luta não pode ser por promoção da igualdade, uma vez que a igualdade no marco do capitalismo é impossível, é contrária a condição primordial do sistema e suas características em funcionamento.

Nosso entendimento vai na direção do conceito da luta histórica pelas reparações históricas e humanitárias. Posturas novas de um grupo que nunca teve acúmulo a partir da elaboração teórica e ideológica do MNU, não são frutos da luta histórica dessa entidade.


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