22 de Julho de 2019 |
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Racismo explícito do ex-conselheiro do Santos. Ouça.
01/09/2014
O caso Aranha e o antirracismo de marketing
Editorial

O caso de Patrícia Moreira – a moça flagrada chamando o goleiro Aranha de macaco, no jogo do Santos contra o Grêmio - não será o último, por mais que os envolvidos – em especial o time gaúcho, ameaçado de perder os pontos  – tenham sido céleres na identificação e punição, na esfera administrativa, da moça e de outros integrantes da torcida.

Basta ver as reações dos cartolas e do próprio técnico Felipão – para se observar que, mesmo recriminando o comportamento racista da torcedora – alvo da ira de amplos segmentos nas redes sociais –, todos falam do problema como um detalhe, uma transgressão, um comportamento inadequado e coisas do tipo.

Neste país, o último a abolir a escravidão negra no Planeta e que mantem uma modalidade de racismo silenciosa, dissimulada (nem por isso menos letal) que permeia todas as relações sociais parece que pouca gente se propõe a encarar de frente o monstro e com ele ajustar contas.

O crime praticado pela moça em questão está perfeitamente previsto no parágrafo 3º do art. 140 do Código Penal Brasileiro – injúria qualificada, com pena prevista de até 3 anos e multa.

Porém, já a injúria racial, que passou a ser crime a partir de 1.997, por emenda do senador Paulo Paim, ao Código Penal, já faz parte do velho jeitinho brasileiro do “deixa prá lá”, “vamos criar uma categoria de punição do racismo, menos dura e com isso desqualificar o crime considerado inafiançável e imprescritível previsto na Constituição de 1.988, para outro que seja afiançável e prescritível". E mais: que dependa de representação da vítima.

Neste caso, com toda a repercussão na mídia e nas redes sociais, se o goleiro Aranha não utilizar o prazo de seis meses para representar contra Patrícia Moreira, o Estado não poderá exercer o “jus puniendi” (o direito de punir) e, consequentemente, nada acontecerá a moça na esfera penal, nem mesmo a condenação ao pagamento de cestas básicas a alguma instituição de caridade gaúcha. Foi o que aconteceu em outro rumoroso episódio, o envolvendo o zagueiro Desabato e Grafite, à época no S. Paulo.

Por outro lado, o episódio além de expor a ignorância daqueles que, mesmo recriminando a agressora, se saem com palavras que demonstram não terem noção do que falam, igualmente mostra o farisaísmo das campanhas que, com frequência, são lançadas contra o racismo - a mais recente e notória a que teve como lema “Somos Todos macacos”, em que Neymar estimulado pela Agência Loducca e globais como Luciano Huck, pretenderam cair no embalo do gesto do lateral Daniel Alves, do Barcelona, ao descascar e comer uma banana atirada por um torcedor.

Onde estão os protagonistas de tais campanhas?

As faixas com que o Santos e o Botafogo entraram em campo nesse domingo (31/08), em protesto contra o episódio e em solidariedade a Aranha, igualmente, são a expressão da ignorância: “Somos preto/Somos branco - #somosumso”. Como se trata de dois times alvinegros fica-se sem saber o que pretenderam dizer. Uma coisa é certa: a eficácia de uma campanha antirracista com esse tipo de escapismo linguístico tem como soma zero.

Na verdade, além da lei que precisa ser cumprida e não necessariamente com o encarceramento ou “prisão”, que o senso comum imagina ser solução para qualquer qualquer crime, por força da cultura que alimenta um tipo de política criminal que está mais para vingança do que para Justiça. É necessário que a CBF e os grandes clubes de futebol iniciem uma campanha de reeducação antirracista com amplo apelo, não só das torcidas organizadas – redutos dos ódios e instintos mais primitivos, e até de facções criminosas – mas na sociedade em geral.

Essa campanha poderia e deveria ser encampada pelo Estado - Executivo, Legislativo, Judiciário, o Poder Público, enfim, Governos e Prefeituras – e buscaria disseminar o conhecimento a respeito do tema da escravidão de que foi alvo a população negra brasileira por quase 400 anos, suas consequências e sequelas e como estas sequelas ainda se manifestam nos dias de hoje na negação de direitos.

Fora disso, vamos viver sob factóides de "campanhas-evento", de gestos para o marketing como o produzido em março pela Presidente Dilma Rousseff, sempre após casos desse tipo, que continuarão ocorrendo nos estádios e fora deles, e adotando a prática hipócrita de defender a adoção de medidas cosméticas para um problema – a herança maldita da escravidão – que é um dos elementos estruturantes da desigualdade social brasileira.

Pior: vamos continuar ouvindo muito blábláblá, o argumento da justiça como vingança e a manutenção de uma ordem social, em que negros – mesmo quando viram astros nos estádios – nem assim conseguem se livrar da visão de uma parte da sociedade: de que são inferiores e continuam ocupando a escala mais baixa dos primatas – sem jamais atingir a condição de seres humanos.

Foi isso o que quis dizer a moça, a plenos pulmões, ao chamar Aranha de macaco.


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