9 de Outubro de 2019 |
Última atualização 0:0
Comentamos
Ativista negra se declara inocente e acusa justiça seletiva
15/10/2014
Afropress volta ao ar, 72 horas após invasão e ataques racistas
Da Redação

S. Paulo – Pouco mais de setenta e duas horas depois do violento ataque de racistas e neonazistas, a Afropress voltou ao ar na tarde desta quarta-feira (15/10), graças a rápida mobilização da equipe de redação e do pessoal de Tecnologia de Informação (TI), que tomou as providências técnicas necessárias para o retorno.

Desde sábado (11/10), além das providências junto às autoridades policiais, visando a identificação e a punição dos criminosos, leitores no Brasil e em todo o mundo manifestaram sua repulsa e solidariedade aos profissionais que há nove anos mantém a Afropress no ar.

Em Nota oficial, o Sindicato dos Jornalistas do Estado de S. Paulo condenou o ataque racista e, na sua página na Internet, além da solidariedade aos jornalistas, reproduziu o Comunicado  “Não passarão!”, em que a direção do veículo comunica a decisão de “após as providências junto às autoridades policiais” e em respeito aos leitores de pedir ao provedor, a Locaweb, a retirada provisória da página do ar.

No Comunicado, a redação de Afropress lembra que esta não foi a primeira vez em que o veículo é "alvo desse tipo de violência”, e cobra das autoridades a identificação e a punição severa dos responsáveis. “Nem um passo atrás”, termina o Comunicado.

Na tarde desta segunda-feira (13/10), o editor, jornalista Dojival Vieira, em companhia da coordenadora da Redação, Dolores Medeiros, esteve reunido com o Delegado Seccional Armando de Oliveira Costa Filho (foto ao lado), para fazer o registro da Ocorrência e pedir a abertura da investigação por parte das autoridades da Polícia de S. Paulo. O Boletim 07/2014, elaborado pelo delegado Marco Antonio Bernardo, que participou da reunião registra os crimes de “invasão de dispositivo informático”, "injúria", "prática de discriminação" e "ameaças.”

Reunião

A reunião foi antecedida na tarde e na noite de sábado por rápida intervenção por parte dos promotores Eduardo Dias, assessor especial do Secretário da Segurança Pública de S. Paulo, Fernando Grella, e Christiano Jorge Santos (fotos abaixo), do Núcleo de Combate à Discriminação do Ministério Público de S. Paulo.

O editor de Afropress destacou a ação dos dois promotores e dos delegados Costa Filho e Bernardo, que promoteram realizar todas as diligências necessárias e agir junto à Delegacia de Investigações Criminais e à própria Delegacia de Combate à Discriminação (DECRADI), visando a identificação dos responsáveis pelos ataques.

Apesar da legislação disponível, as autoridades reconhecem ser necessário a criação de um Grupo Especial, com pessoal técnico para agir em casos desse tipo.

Solidariedade

Desde sábado, leitores em todo o mundo, se manifestaram por correspondência, telefonemas e pela rede social. O correspondente de Afropress em Londres, Alberto Castro, desencadeou movimento de solidariedade, junto a jornalistas em Portugal e países africanos da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). "Acabei de acessar a página da Afropress e dou com absurdos completamente insanos: ''Estupre uma crianca negra e ajude o mundo''; ''Estupro infantil deveria ser legalizado, diz ministro do PT''; ''Ajude o mundo estuprando mulheres''; ''Brasil segue exemplo do Japao e libera pornografia infantil''; ''Chutei um negro tao forte, peguei a negrice''. Imagino que se trata de um reles e repugnante ataque racista a Afropress. Espero que esgote todas as possibilidades na denuncia dessa insanidade e que leve o assunto até as ultimas consequencias na identificação e severa punição dos autores na justica. Estou chocado e revoltadissimo. Mais uma razão para a Afropress continuar a árdua batalha contra qualquer tipo de preconceito e intolerância. Minha total solidariedade!", escreveu.

A Página Global, portal de Lisboa, dirigida pelo jornalista Mário Mota, por meio de um artigo sob o título “Racismo e Xenofobia”, também expressou sua solidariedade. “Afropress, publicação brasileira a que habitualmente recorremos na compilação dos seus artigos em abordagem ao racismo existente no Brasil e pelo mundo, sofreu um ataque racista repugnante na sua página online – um exemplo é a imagem que aqui publicamos e que será mais legível se clicar sobre ela. Os racistas e neonazis viraram do avesso a publicação. É intolerável o crescendo do racismo e da xenofobia que grassa no Brasil. Hediondo. Só assim  podemos considerar o que aconteceu ao Afropress e à pessoa do seu diretor, Dojival Vieira, e dos que ali trabalham. A Justiça brasileira não tem por que ficar inativa ou ser perdulária perante tal crime à humanidade sem que com isso comprove a sua conivência com o racismo e o neonazismo, algo em que não queremos acreditar", afirmou Mota.

No Brasil

No Brasil, os jornalistas Marcos Romão, Rosiane Rodrigues e a doutora em Comunicação pela Unisinos, Leslie Chaves, cuja tese de doutorado é sobre a Afropress – a primeira Agência online no Brasil, com produção de conteúdo jornalístico – condenaram os ataques e manifestaram solidariedade: "Lamentável os ataques sofridos pela Afropress. Foram publicados absurdos no site que originalmente é utilizado para informar à população e dar visibilidade às questões que dizem respeito à maioria da população brasileira! Algo tem que ser feito urgentemente para punir os responsáveis por esta violência!”, escreveu Chaves.

A Ouvidoria Nacional da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), da Presidência da República, por meio do ouvidor Carlos Alberto Santos Jr., manifestou repulsa aos ataques e disse que pedirá a entrada da Polícia Federal no caso.

Também centenas de leitores, entre os quais Marcos Benedito, liderança da Central Única dos Trabalhadores, o fotógrafo Sandro Cajé, Maria Inês Villalva, Fátima do Carmo, Júlio Tavares, Ilzver Mattos, Márcio Tadeu, Spírito Santo, Gabriel Silveira, de Barcelona, e Natália de Santana, Revi, de Londres, manifestaram a repulsa aos ataques.

 


Artigos Relacionados
Cemitério dos Aflitos, em S. Paulo, será considerado de utilidade pública
Prefeito de São Carlos "premia" acusada de racismo com cargo em Fundação
Como na escravidão, jovem negro é torturado com chibatadas em SP
Ativista negra se declara presa política e acusa justiça seletiva
Twitter
Facebook
Todos os Direitos Reservados