
Em entrevista ao jornal angolano O País, o sociólogo angolano aponta o racismo com um tema tabu que precisa ser desmistificado, desconstruído e esclarecido na sociedade daquele país africano. Diz que o mesmo manifesta-se de diversas formas mas longe de atos que envolvam violência massiva e normalmente é confundido com discriminações de outro âmbito, particularmente no acesso ao mercado de trabalho onde tais discriminações não são punidas como deviam.
Nesse sentido, o acadêmico aponta a legislação angolana como sendo praticamente omissa na matéria e urge para uma rápida mudança no quadro. ''É matéria que considero fundamental para a estabilidade e a harmonia social. Atrevo-me até a dizer que, hoje, fala-se demasiado em racismo, sobretudo devido a essa lacuna na legislação laboral'', alertou.
Reconhecendo todavia a existência da discriminação racial em Angola, Carvalho defende no entanto que ''não era de esperar outra coisa, pois saímos de um longo período colonial há muito pouco tempo, para se ultrapassarem as sequelas daí resultantes – incluindo as que têm a ver com aquilo que se designa habitualmente por “raça”. Mas se a pergunta é se existe racismo institucionalizado em Angola, a resposta só pode ser negativa.''
Por não ser institucionalizado, o sociólogo rejeita a ideia da tez da pele como passaporte para o sucesso em Angola. ''Se for no Brasil, muito provavelmente sim. Se for nalguns estados norte-americanos, certamente que sim. Eu já estive em universidades brasileiras, às quais a maioria (“negros” e índios) quase não tem acesso. Não é isso que se passa em Angola. Estamos até muito longe disso'', declarou.

A uma pergunta sobre adoção de cotas para a minoria branca em alguns setores onde ela esteja menos representada a exemplo do que acontece com negros no Brasil, Carvalho contesta afirmando que as mesmas não fariam qualquer sentido em Angola. ''No Brasil sim, faz todo o sentido, porque existe clara discriminação de “negros” no acesso à instrução. Em Angola, os “brancos” não têm qualquer dificuldade de acesso ao que quer que seja, por serem “brancos”'', esclareceu.
Sobre o lusotropicalismo, Paulo de Carvalho diz que o considera não uma teoria mas sim uma ideologia votada ao fracasso logo à partida. ''A ideia de que os portugueses eram o máximo e a colonização portuguesa serviu para “aproximar” os “negros” dos “brancos” é coisa que não colhe. Até porque uma das muitas coisas esquecidas pelos adeptos do luso-tropicalismo é que a colonização (qualquer que ela seja) nunca é benéfica, pois traz consigo imposições várias'', sublinhou.
O sociólogo angolano aponta no entanto a mestiçagem como futuro da Humanidade. ''Sociologicamente falando, o que eu penso é que devemos deixar de olhar para o mestiço como “acidente de percurso”, para olharmos para a mestiçagem como o futuro da Humanidade. Vistas as coisas em termos raciais, o que posso dizer é que, nas cidades angolanas, a maioria somos mesmo mestiços, podemos crer. Não é uma questão de cor de pele, é preciso olharmos para as características somáticas como um todo e para as árvores genealógicas de cada um, e aí vamos verificar que tenho razão'', defendeu.
Confira a entrevista na íntegra:
http://opais.co.ao/o-racismo-em-angola-precisa-de-ser-desmistificado-desconstruido-e-esclarecido/