Cubatão/SP – “Ser negro no mundo é uma posição política”, com esta frase do poema “Ser negro”, de sua autoria, o jornalista Dojival Vieira, editor de Afropress, conduziu exposição sobre a história da presença negra no Brasil nos quase 4 séculos de escravidão até hoje, na sessão solene para celebrar o Dia Nacional da Consciência Negra, promovida pela Câmara Municipal de Cubatão, na noite desta sexta-feira (28/11).
Orador oficial convidado pelo Legislativo, o jornalista falou sobre a trajetória dos negros brasileiros, lembrou que o Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão e de que de “cada dez dias da história do país, sete foram vividos sob o escravismo”. “A República que temos foi construída sob os escombros do escravismo e o Estado brasileiro jamais concluiu a Lei da Abolição, que permanece inconclusa e incompleta porque não garantiu o direito de acesso da população negra aos direitos básicos da cidadania. O dia 14 (o dia após a Abolição), continua sendo o mais longo da história do Brasil porque se projeta até os nossos dias”, afirmou.
Destacou ainda que o Dia Nacional da Consciência Negra é o momento propício para que negros e não negros se unam para erradicar o que chamou de patologia - o racismo - "um dos elementos estruturantes da desigualdade, que faz com que o Brasil - apesar de ser a 7ª economia do mundo, um dos países mais ricos do planeta - continue ocupando a vergonhosa posição de ser também um dos socialmente mais desiguais".

Presença negra
A sessão presidida pelo vereador Fábio Moura, presidente da Comissão da Comissão de Direitos Humanos e Igualdade Racial da Câmara, teve a presença de oito vereadores, entre os quais, o presidente Wagner Moura, da presidente do Conselho da Igualdade Racial, Sueli Machado Gomes, do delegado de Polícia da cidade, Manoel Messias de Oliveira, do coordenador do Departamento de Igualdade Racial e Étnica, Júlio Tumbi Are, de vários secretários municipais, e da prefeita Márcia Rosa.
Cubatão é a cidade com maior presença negra da Baixada Santista – 56,6%, de acordo com a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) do Governo do Estado.
Ao final da sessão solene, o editor de Afropress foi homenageado com uma placa comemorativa. Também foram feitas homenagens a personalidades locais, que tem se destacado na luta antirracista em defesa da igualdade, entre os quais o advogado Gilberto Freitas da Silva, as líderes comunitárias Vicencia Paula dos Santos e Maria Alice da Cruz, ao líder comunitário e produtor de cultura Fábio Patrocínio Rosa, ao pastor evangélico João Sabino de Paiva, e ao engenheiro Nízio José Cabral, que que se tornou o primeiro negro a presidir o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de S. Paulo (CREA) – o maior Conselho de Fiscalização de exercício profissional da América Latina, em 80 anos de história da entidade.
Cultura
Na apresentação cultural, o Grupo Zabelê, da Vila dos Pescadores, fez apresentação de jongo e de maracatu, e o poeta popular, Alfredo Vieira, o Agulhão do Mar, de 82 anos, pai do jornalista, recitou uma poesia em homenagem a Zumbi dos Palmares.

Ao encerrar a sessão a prefeita Márcia Rosa (PT), fez um resgate do papel do jornalista na luta popular desde o período da ditadura, passando pela fundação do Partido dos Trabalhadores (do qual foi um dos fundadores no final da década de 70), a luta pela autonomia e a redemocratização.
Confira, na íntegra, o poema lido pelo editor de Afropress.
Ser negro
Ser negro no mundo é uma posição política.
Meus irmãos da Jamaica sabem disso
No Caribe, na Martinica
Em Nova Orleans também sabem
No Haiti fizeram revolução
E pagam por isso.
Não por outra razão
A África sangra.
Ser negro neste mundo é uma posição política.
Meus irmãos em Havana sabem
Também em Trinidad Tobago
Na Etiópia
Na Bahia
No Sudão
No Senegal
Na porta de Gorée quem ainda não sabia
Soube disso.
Ser negro no mundo é uma posição política.
No Brasil, desde sempre sabemos disso
Todos sabemos
Mesmo os que não tem posição política
Os que batem no peito cheios de orgulho
O Atlântico é um oceano de túmulos de negros
Por sua posição política.
Tanto que, quando o velho assassino de índios e negros
O luso Domingos Jorge empreendeu a grande caçada
Zumbi não se rendeu.
Todos os meus irmãos na Diáspora
Nos canaviais
Quando arrancavam ouro e diamantes com as unhas
Quando olhavam os algozes no Pelourinho
Até mesmo o Pai João manso e pacífico sabe
Ser negro no mundo é uma posição política.
Mandela sabia
Malcoln, Martin, Solano, Samora, Senghor sabiam disso.
O venerável Abdias também sabia.
Todos sabemos.
Desde a maldição de Cam
Ser negro neste mundo é uma posição política.
27/Fevereiro de 2.007.