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Manifestações em todo o país pelo Dia da Consciência Negra
01/01/2015
A política de branqueamento e o ministério Dilma 2
Editorial

Brasília – As cerca de 70 delegações estrangeiras presentes às cerimônias de posse da Presidente Dilma Rousseff para o segundo mandato, certamente tiveram a impresão de não estarem na América do Sul e, muito menos, no Brasil, país que, de acordo com o mais recente Censo do IBGE, tem 50,7% constituída por negros. Provavelmente imaginaram ter desembarcado em algum país nórdico, Noruega, Suécia, Dinamarca, quem sabe.

A julgar pelo ministério escolhido pela Presidente, não há negros no Brasil. Ao menos não os há em condições de assumir qualquer ministério ou outro cargo público de relevância: entre os 39 ministros que se tornarão a partir de hoje, 1º de janeiro de 2015, os novos inquilinos da Esplanada, não há um negro sequer, homem ou mulher. Nenhum, o que mesmo se comparado aos padrões do primeiro Governo Lula – em que haviam quatro negros ocupando ministérios importantes – trata-se de um retrocesso monumental, "nunca antes visto na história deste país".

O pior é que o padrão-branco de gestão se repete há séculos também nos Governos estaduais, e na postura dos titulares que tomaram posse. Esperava-se, contudo, que, quem foi eleita pelo voto majoritário dos negros, tivesse outra atitude, simbólica que fôsse. Por exemplo: por que não entregar o Ministério da Justiça a um jurista e intelectual do quilate de um Hédio Silva, ativista negro dos mais preparados? Por que não entregar a Educação a uma intelectual e educadora como a professora Petronilha da Silva, a primeira negra a ocupar o Conselho Nacional da Educação?

Não bastasse um ministério com nomes escolhidos a partir de um verdadeiro leilão e da barganha partidária, de perfil conservador e comprometido até a medula dos ossos com os interesses do mercado; não bastasse o estelionato eleitoral explícito em que a Presidente, fechadas as urnas, passou a fazer exatamente o que dizia seria obra do seu adversário - o senador tucano Aécio Neves.

Arrocho

Para economizar R$ 18 bilhões por ano, a partir deste, Dilma, por intermédio de Medida Provisória, mudou as regras do abono salarial, do seguro-desemprego, do seguro dos pescadores artesanais, da pensão por morte e do auxílio-doença. Apenas um aperitivo do arrocho que vem por aí.

Mais uma vez, e como sempre, serão os assalariados a pagar a conta dos desmandos e da corrupção de um sistema político-eleitoral e partidário, que se esgotou e nada tem mais a oferecer senão a receita de sempre: arrocho.

Paralelo a isso, o Dilma 2 decidiu branquear a Esplanada. A única negra presente na foto da posse é a professora Nilma Lino Gomes, escolhida para ocupar a SEPPIR – uma Secretaria ligada a Presidência com status de ministério, mas, sem recursos e com o problema crônico da baixa execução orçamentária. Baixa execução orçamentária é a tradução para a inapetência e incompetência gerencial, como até os queros-queros da Esplanada estão cansados de saber, o que expõe a falência completa do modelo adotado e das escolhas determinadas por critérios outros que não os da eficiência e compromisso com a coisa pública.

Só para se ter uma ideia, em 2011, apesar de ter sido o ano com maior valor de recursos, a SEPPIR pagou efetivamente um quarto da previsão, incluindo os restos a pagar; dos R$ 95,6 milhões previstos no orçamento, apenas 25% foram gastos pela SEPPIR, ou seja, cerca de R$ 23,5 milhões.

A situação chegou ao nível de a gestão Bairros comemorar, em 2013, ter atingido 89,8% do orçamento autorizado pelo Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, como se não fosse obrigação do gestor gastar o que dispõe para atender as demandas que não são poucas, e pior, crescentes.

Adesismo e bajulação

De quatro para nenhum ministro, esse é o resultado da postura bajulatória e adesista assumida reiteradamente pelo movimento negro partidário, que se especializou no puxa-saquismo sem princípio nem norte, no beija-mão mais despudorado, como se viu na mais recente campanha eleitoral, em que o apoio a Dilma foi oferecido sem nenhuma contrapartida, na expectativa dos mesmos de sempre, de algum carguinho, de alguma emendinha, de algum projetinho patrocinado por algum parlamentar da base aliada.

O interessante é que o pretexto para o adesismo foi de que estavam em jogo nas eleições, "distintos projetos" e que a Pátria estaria em perigo caso não vencesse a candidata oficial. Agora se sabe quais eram os riscos: dos adesistas perderem os restos da mesa da cozinha da Casa Grande, em que foi transformado, em pleno século XXI, o próprio Palácio do Planalto.


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