9 de Outubro de 2019 |
Última atualização 0:0
Comentamos
Ativista negra se declara inocente e acusa justiça seletiva
16/06/2015
A cor da Justiça
Maurício Pestana

É Secretário-Adjunto da SMPIR da Prefeitura de S. Paulo

Na última terça-feira, dia 9/06, uma notícia mexeu com o meio jurídico. Foi aprovado pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça) a cota de 20% para negros nos concursos públicos, para juízes e servidores públicos do judiciário. A medida é um importante passo para uma maior imparcialidade racial no delicado sistema de decisões judiciais, no qual há indícios de desequilíbrio entre negros e brancos, onde o primeiro tem mais chance de ser condenado, como relata Sergio Adorno em pesquisa na década de 1990.

Embora não existam dados precisos sobre a imparcialidade racial da justiça, é perceptivo que nosso drama tem similaridades na atualidade, como nos Estados Unidos. Lá, por exemplo, em 16 estados quase todos localizados no Sul, estão concentrados a maior população negra encarcerada do país. O Alabama, por exemplo, onde negros se constituem 27% da população, eles são 63% dos encarcerados. Juízes no Alabama são eleitos e podem substituir veredictos do júri até em casos de pena de morte. Naquele estado não existe um só juiz de apelação negro e apenas um dos procuradores eleito é negro.

No mapa do encarceramento brasileiro, a pesquisadora Jacqueline Sinhoretto analisou dados do Ministério da Justiça em sentenças judiciais no país inteiro e concluiu que o encarceramento de negros entre 2007 a 2012 foi de 32%, contra 26% dos brancos. O Acre foi o estado que apresentou maior aumento de presidiários negros, 175%. Os estados que lideraram o encarceramento de negros em 2012, último ano da pesquisa, foram São Paulo, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina, todos com baixa população negra.

No momento em que redução da maioridade penal ganha força, em que o risco de nos tornarmos um país muito parecido com o Sul dos Estados Unidos onde o investimento em prisões nas últimas décadas tem sido maior do que em universidades. A medida tomada pelo CNJ aparece como um oásis num deserto de dúvidas sobre injustiças raciais em nossos tribunais.

 


"Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Afropress não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo."
Artigos Relacionados
As balas endereçadas da Polícia carioca
Terra Brasilis: um caldeirão multicultural
Os mandantes
Ainda há tempo para livrar o Brasil da ameaça do fascismo
Twitter
Facebook
Todos os Direitos Reservados