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30/06/2015
O lado B do Hip Hop tem nome: chama-se Zion
Da Redação: Mariana Lacava

Barretos/SP – Nascido em Diadema, no ABC paulista, e a três anos morando em Barretos, o produtor cultural Marcelo Leandro Zion, vem despontando com uma das maiores promessas da arte do graffiti. Zion é responsável pelas atividades da Casa do Hip Hop da cidade de 118 mil habitantes, a 421 Km de S. Paulo e é conhecida nacionalmente pela Festa do Peão.

Uma das características que chama a atenção para o grafiteiro Zion, é a marca nos seus traços de forte influência africana e a intensidade das cores usadas sempre com a mensagem de resistência e luta que vem sendo levada nas áreas de periferias de cidades do interior paulista. Aos 40 anos, Zion constata: "Eu sou um moleque preto que não virou estatística".

Mariana Lacava entrevistou Zion para a Afropress. Confira o que faz e o que pensa uma das mais genuínas e autênticas expressões do graffiti da nova geração.

Afropress - Quando foi que o desenho entrou na sua vida?

Marcelo Leandro Zion - Ah, foi desde de moleque, na real. Quando eu era criança meu pai me trazia vários almanaques da disney e eu ficava "brincando" de copiar os personagens. Meu pai desenha muito bem e ele foi criado por um tio dele que era artista plástico. Então eu sempre tive uns materiais bem maneiros pra desenhar em casa. Meu irmão, inclusive, desenha também, mas faz isso muito melhor que eu.

Afropress - Então com sua família sempre envolvida em artes visuais ou plásticas, a tendência não podia ser outra? Quando foi que o elemento graffiti tomou a forma dos desenhos de criança?

Zion - Eu sempre estive nesse meio, meu pai era artista plástico e meu tio Bboy (tive uma história na dança) então o Hip Hop meio que foi parte da minha criação de casa. Então eu via as revistas que meu tio trazia sobre dança de rua e via os graffitis nas paredes que os Bboys dançavam na frente, comecei a copiar aquilo e aí fui criando meu próprio estilo e meus letreiros, meus bombs e desenhos.

Afropress - E qual foi sua história na dança... Você foi Bboy?

Zion - Então, quando moleque meu tio dançava break e nessa época eu tinha uns 10 anos. Ficava na bota dele sempre. Então o que chegou até mim antes de mais nada foi o elemento Bboy. Nós gostávamos de dançar, eu dancei por um tempo, isso em meados de 1985 (risos). O break foi o primeiro elemento do Hip Hop que eu me interessei (mesmo que por influência) e que trabalhei em cima. Dancei até meus 30 anos, a até onde eu aguentei (risos). Mas quando isso começou eu era criança. Fiz e ainda faço parte de um das crews mais respeitadas do País, Detroit Break Crew, isso da dança em 1995.

Afropress - Mas e os seus desenhos e graffites, seu trabalho com arte ficou parado esse tempo em que você trabalhava com o elemento Bboy?

Zion - Não, minha arte sempre esteve intercalando entre a dança e as demais atividades que eu também fazia. Ando de skate e bmx desde que comecei na dança e no graffiti. Mas é que eu nunca fui muito dedicado com os esportes (risos).

Afropress - E como você lidava com os dois elementos? Era difícil conciliar?

Zion - Na verdade não, eu trabalho os 4 elementos do Hip Hop, mas o graffiti é que eu escolhi como carreira central. Já tive grupos de Rap com alguns irmãos de Diadema, já fui Dj em alguns ensaios, já dancei... Fora o graffiti e os trabalhos sociais com a cultura Hip Hop.

Afropress - Você também é coordenador da atividades da Casa do Hip Hop Barretos?

Zion - Sim, eu sou juntamente com outros irmãos que nos ajudam na articulação e execução das atividades. Somos um, unidos. Pra lidar com isso mantemos essa forma de trabalhar ética e respeito entre nossos ideais e posicionamentos. É essa a base de formato pra lidar com as questões da própria Rede das Casas.

Afropress - E com quais outros projetos você esta envolvido Zion?

Zion - Fora a casa do Hip Hop de Barretos e a rede das casas, tenho trabalhos com a Casa de Araçatuba e penso em me envolver mais ativamente com um projeto que conheci na cidade que se chama Basquete Clube Araçatuba. E também tem o Parkur Araçatuba que tive o prazer de pintar um letreiro na praça que eles treinam. Tenho também uma recente, mas muito importante e sólida parceria com o Ecal em Guaíra. Tenho também projetos com o Festival Diálogos Afrurbanos (de 3 a 5 de julho, em Guarulhos/SP ).

Tenho também o MUAB que é a Mostra de Arte Urbana de Barretos. Tivemos a segunda Mostra esse ano com vários artistas locais e pretendo continuar com ela pra circular a arte urbana em Barretos. Tenho minhas oficinas de graffiti, algumas em Barretos mesmo pela casa do Hip Hop e outras pelos CRAS. Gosto muito de trabalhar graffiti com as crianças. Mas estou com um projeto para realizar algumas em Araçatuba e também fazer um percurso por cidades do interior paulista levando Graffiti pras quebradas das cidades.

Tenho muitas metas e projetos, alguns ainda em processos de criação e repensação, sabe? Mas esses são os que estão mais ativos em termos de processo de criação e execução atuantes nesse período de 2014 pra 2015.

Afropress - Muito interessante seu projeto de oficinas e seu gosto particular em trabalhar arte com as crianças, ainda mais com a questão de atingir as quebradas dessas cidades por onde você vai trabalhar. Isso te faz se preocupar com questões como redução da maioridade penal, imagino?

Zion - Com certeza, mesmo porque toda a questão da maioridade penal é discutida há muito tempo, e não dessa forma como esta sendo apresentado pela mídia que faz uso sensacionalista de seu poder de informar.

A mídia é totalmente comprada e manipulada, por isso a maioridade penal é vista como uma solução pra reduzir a violência, mas na verdade é uma atitude desesperada e mal pensada, com forte influência de interesses políticos e cultura de racismo por trás dessas justificativas sem nexo que os representantes dessa lei defendem.

É muito nítido que o jogo de interesses entre politica e policia é constante nessa tentativa de implantar a Lei da maioridade penal no nosso País. Sou completamente contra a redução da maioridade penal, não é a solução. Educação, arte, conhecimento, nenhum passo a menos.

Afropress - De fato, a redução da maioridade penal é realmente ligada a questão do racismo e genocídio da população negra. Você procura trabalhar isso nas suas oficinas? Essa consciência através de suas obras, trabalhos?

Zion - Minha arte tem forte influência africana e de cultura de resistência. Procuro passar o máximo a respeito através dos meus quadros, das cores que uso, da expressão que dou para os personagens que crio. Nas oficinas, eu posso trabalhar mais o diálogo com as crianças, essa interação é importante, eu falo pra elas sobre suas raízes, seus ancestrais e as lutas que eles travaram e venceram.

É importante trabalhar a aceitação deles com a real identidade negra e sua cultura, que é motivo de orgulho. Sua cor, seus ensinamentos e elementos da cultura.

Afropress - A maioridade penal para casos de homicídio foi aprovada em Congresso, como você reagiu a tal notícia?

Zion - (Risos) Rir pra não chorar, ja diria Cartola... Olha, sobre a maioridade penal... Eu tenho 40 anos e não me vejo capaz de decidir se um menino que só viveu 18 tem discernimento para se responsabilizar pelas ações que toma, em situações que lhes são postas sem direito a escolha, algo simples como isso, escolher. Escolher um caminho, uma profissão, um legado. O jovem negro, pobre e periférico é tratado com desdém pelo estado sim, e não adianta nosso Governo vir com discursos de ódio e de racismo mascarado querendo fazer com que eu me convença que "Brasil, um país de todos" é real.

Sabe, é escolher o seu próprio destino. Eu sou um "moleque" preto que não virou estatística. É isso que eu quero oferecer para as pessoas através da minha arte e dos projetos que tenho em formação e atividade. É muito difícil escolher pelo certo, pelo esforço e recompensa justa por tal trabalho, quando somos coagidos, negados, descriminados só porque temos a pele negra. Só porque somos de cultura diferente, descendência africana, escrava.

Quando não se tem nenhum outro caminho a trilhar é difícil fazer uma boa escolha a longo prazo.  Todas as alternativas que são justas e honestas estão exclusivamente colocadas para a população branca e/ou burguesa. Mais uma vez a máquina entra em ação e fica mais fácil abater o "leão" jovem e inexperiente.  O sistema é como um bando de hienas que sorriem quando encontram um leão jovem em vulnerabilidade, quase morrendo, e ai utiliza de golpes baixos até matá-lo, e então sorri enquanto come a carcaça podre do leão. Mas isso não pode continuar assim, por isso insistimos na luta. Resistir é vencer.

Afropress - E como você acredita fazer com que sua arte consiga atingir essa e outras questões da população negra?

Zion - Bom, eu digo isso e pode parecer estranho, mas só agora eu entendo minha arte. Porque só agora sei o que quero com minha arte, até onde posso chegar com ela, só agora eu entendo a necessidade de fazer dela um meio de sustento para minha família. Mas é mais que isso, só agora eu entendo o que o graffiti pode fazer por mim e, o mais importante, pelos outros ao meu redor. Pelas crianças para quem eu vou dar oficinas, para as pessoas que me perguntam sobre minha arte, sobre o graffiti como elemento do Hip Hop. Só agora eu me sinto maduro o bastante pra entender essas coisas.

Afropress - O graffiti representa para você, então, todas essas coisas que disse ser presente tanto quanto o graffiti em sua vida. Como essas vivências influenciam na sua composição artística?

Zion - No meu trabalho, busco sempre passar através das cores e expressões dos meus personagens algo que desperte um pouco a consciência das pessoas que estão vendo aquele graffiti. Por isso eu digo que o graffiti foi como nascer de novo pra mim. Poder sair e pegar uma parede, expressar meus sentimentos sobre a vida numa parede que eu sei que vai servir de cenário para muitas outras vidas é como um dom mesmo. Representa mais que um estilo de desenho, é uma expressão além de artística, é a forma como eu grito pro mundo o desespero interno de ser como sou numa sociedade racista e preconceituosa como a nossa. Eu digo isso pra você, tudo pra quem é negro, é duplamente mais difícil. Significa pra mim aquilo que nem mesmo eu consigo entender.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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