20 de Outubro de 2020 |
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Ativista negra se declara inocente e acusa justiça seletiva
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02/08/2015
Impressões de NY: O problema
Edson Cadette

É correspondente de Afropress em Nova York

Manhattan, Nova York - "No Brasil já se viram filhos de métis (mestiços, pardos) apresentarem, na terceira geração, todos os caracteres físicos da raça branca[...]. Alguns retêm uns poucos traços da sua ascendência negra por influência do atavismo(…) mas a influência da seleção sexual (…) tende a neutralizar a do atavismo, e remover dos descendentes dos métis todos os traços da raça negra(…) Em virtude desse processo de redução étnica, é lógico esperar que no curso de mais um século os métis tenham desaparecido do Brasil. Isso coincidirá com a extinção paralela da raça negra em nosso meio". Joao Batista de Lacerda – l Congresso Internacional das Racas – Londres, 1911.

O problema certamente não é novo. Ele é parte importante (para muitos, a mais importante) da história do Brasil. Poderíamos afirmar, com certeza que, em nenhum momento ele sequer foi enfrentado com a seriedade e a  urgência de uma equipe médica tentando salvar um paciente na mesa de operação que acaba de sofrer um ataque cardíaco, ou com a paixão, violência e milhares de mortes, como fizeram os norte-americanos durante a guerra pela secessão e fim da escravidão.

O problema no Brasil ganhou forma e tamanho de uma maneira lenta mas constante. Começando com a chegada da primeira  caravela comandanda pelos portugueses abarrotada com negros acorrentados no seu porão fétido, juntamente com as famosas especiarias ancorando no cais da Bahia no meio do século XVI, depois de  uma travessia de 4 meses no oceano Atlântico.

Uma vez leiloados nos cais brasileiros estes homens, mulheres e crianças (leia-se mercadorias) eram espalhados pelo país para ajudar na formação do arcabouço brasileiro.

Quando o último tumbeiro português deixou sua carga humana no Brasil no meio do século XIX o problema havia se solidificado em terras brasilis com os mais de 4 milhões de africanos oriundos de várias regiões do continente africano. Eles  foram acambarcados como mercadorias nos mais de três séculos de vigência do tráfico negreiro.

Até a fase final de sua libertação física (não psicológica) em 1888, os africanos e boçais brasileiros construíram com o suor de seus corpos nus toda a infraestrutura da sociedade brasileira sem jamais  receberem créditos devidos.

Homens, mulheres e crianças, trabalharam nas plantações de cana de açúcar, de café, nas minas, nas Casas Grandes cozinhando e cuidando dos filhos dos senhores e de seus próprios,  e nas cidades que estavam se desenvolvendo.  Em outras palavras: esta população invisível construiu o que hoje chamamos de Brasil.

Não podemos esquecer tambem que  mulheres e jovens africanas serviam como iniciação sexual para seus senhores e tambem para seus filhos.  Destas relações não consensuais surgiu a população de mulatos no Brasil. Tudo isto acontecendo sob as bençãos da Igreja católica que tambem mantinha seus próprios escravos.

Os nativos locais tiveram suas almas (e corpos) protegidos para a salvação eterna com o amparo dos jesuítas. Os autóctones foram sendo dizimados com o tempo, por doenças das quais não possuíam imunidades. Os africanos eram “fortes”, diziam os portugueses, propícios para o trabalho braçal que os esperavam na terra de Vera Cruz.

Durante o longo período colonial brasileiro os  negros labutavam árduamente de sol a sol, não com seus donos aos seus lados enfrentando as dificuldades de dominar e transformar as terras criando comunidades, como faziam os protestantes da América do Norte, mas sós e invisíveis como meras mercadorias.

Para os portugueses católicos qualquer trabalho braçal e ou manual era degradante.

Os escravos africanos e os boçais locais foram testemunhas das tranformações que foram acontecendo durante os tempos dos cativeiros. Transformações estas que trouxeram a familia real e toda sua comitiva para o Brasil. A independência,  a abdicação de Dom Pedro I do trono e seu retorno a Portugal. Durante quase 100 anos eles tambem se refugiaram em vários quilombos, entre eles, o mais famoso quilombo dos Palmares.

Os africanos, que jamais aceitaram suas condições de mercadorias humanas, tentavam de todas as formas lutar contra a instituição escravocrata participando de revoltas e insurreições de norte a sul do Brasil. Estas manifestações contra a escravidão eram sinais claros de que a situação era insustentável.

Porém, em nenhum momento, houve um debate à nível nacional para por fim a esta instituição nefasta. Houve abolicionistas como Jose do Patrocínio, os irmãos Rebouças, Joaquim Nabuco, Castro Alves, Chiquinha Gonzaga, Luis Gama etc. Entretanto, no geral, estas vozes eram poucas e raras na luta contra a instituição da escravidão.

Eles testemunharam a Inconfidência Mineira, a invasão holandesa (onde lutaram bravamente), e tambem a guerra contra o Paraguai, onde foram mortos na esperança de receberem suas alforrias.

Presenciaram também a maioridade de Dom Pedro II e sua vigência no poder por mais de 50 anos. Lotaram o Rio de Janeiro para testemunharem o fim da escravidao com a assinatura da Lei Áurea com a esperança de serem inseridos dentro da sociedade livre em geral.

Entretanto, suas ações e lutas, ao longo da história do Brasil, foram colocadas sempre em segundo plano pelos historiadores brasileiros. Sabemos muito mais sobre a historia da Europa que nada tem a ver com o Brasil do que da história da África de onde tiramos  por quase 400 anos toda a nossa cultura.

Com o inicio da Revoluçao Industrial na Inglaterra no final do século XIX a mão de obra escrava começou a ser substituída gradativamente pelo imigrante branco europeu, diga-se de passage, subsidiado pelo Governo brasileiro. Entre o final do seculo XIX e início do século XX mais de 8 milhões de europeus brancos chegaram no Brasil.

O Brasil, que até praticamente o final do seculo XIX, era um país escravocata começou a “esconder” esta população liberta. A esperança na época (e até recentemente) era que com a miscigenação a população negra  recrudeceria e o país tornar-se ia um país, senão nórdico semelhante aos europeus ou aos norte- americanos, pelo menos não tão escuro.

Os descendentes de escravos na sua vasta maioria entraram no século XX praticamente pelados com as mãos no bolso. O Estado brasileiro jamais instituiu qualquer política pública para amenizar a transição de um regime de servitude para um de liberdade. Em outras palavras, a população de libertos teve que enfrentar esta situação sem qualquer auxílio governamental.

Para a sociedade, em geral, principalmente os descendentes dos europeus brancos, é mais facil culpar as dificuldades  enfrentados pela grande maioria de afrobrasileiros na falta de um esforço maior por parte desta comunidade, e não no legado da escravidão e no racismo que acompanha esta população ainda hoje em pleno século XXI.

Em outras palavras, para os donos do poder no Brasil e a classe média, os 350 anos escravidão brasileira não passa de uma pequena nódoa na história do Brasil, e não deveria ser usada como justificativa para obter certas políticas públicas.

O problema foi transplantado da África para o Brasil. Ele pode não estar confortavelmente instalado, mas com certeza, não desaparecerá do corpo brasileiro como desejava o médico João Batista de Lacerda. Ele chegou para ficar.

 


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