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Ativista negra se declara inocente e acusa justiça seletiva
19/08/2015
Pesquisadora lança livro sobre como neopentecostais tentam silenciar religiões afro
Da Redação

Rio – A jornalista e escritora Rosiane Rodrigues, doutoranda em Antropologia e Pesquisadora Associada do NUFEP, da Universidade Federal Fluminense, lança neste sábado (22/08), pela editora Autografia, o livro “Quem foi que falou em igualdade?”, que trata das estratégias dos neopentecostais para abafar as reivindicações de direitos dos adeptos do Candomblé e da Umbanda.

O livro é o resultado da pesquisa realizada pela jornalista no Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro da cidade do Rio de Janeira, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense e traz o mapeamento das estratégias utilizadas pelos neopentecostais (fundamentalistas cristãos) no Movimento Negro para sufocar as demandas e o reconhecimento de direitos dos religiosos do Candomblé e da Umbanda. Também mostra como os afro-religiosos vêm enfrentando esse desafio.

No total foram necessários 14 meses de trabalho de campo, para que a jornalista pudesse entender como se desenvolve a intrincada rede de negociações e relações entre pertencimento religioso, cor de pele e legitimidade entre os militantes deste movimento social.

O Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro (Comdedine-Rio) é um órgão fundado em 1988, não-paritário, atualmentevinculado à Secretaria de Governo da Prefeitura do Rio de Janeiro e, segundo a fala de seus membros, pioneiro no país na formulação e acompanhamento de políticas públicas de enfrentamento ao racismo.

A pesquisa partiu da percepção de que o enfrentamento ao racismo antinegro e o combate à intolerância religiosa contra a as religiões afro-brasileiras (Umbanda e Candomblé) são acessados nos discursos desta militância ora como forma distintiva, ora como correlatos e similares, apesar do significativo contingente de pretos e pardos em diversas outras religiões, mais especificamente nas igrejas neopentecostais – apontadas como as principais perseguidoras das práticas religiosas afro-brasileiras. A etnografia está inserida na linha de pesquisa Cultura Jurídica, Segurança Pública e Conflitos Sociais e traz uma discussão necessária aos ativistas do Movimento Negro.

“Quem foi que falou em igualdade?” é o primeiro livro da Coleção Primeiros Campos, cuja proposta é a de publicar as produções acadêmicas de pesquisadores em formação na área de Antropologia. 

A jornalista que é colaboradora de Afropress falou, em entrevista sobre o significado do trabalho. Confira.

 

Afropress: Você poderia explicar melhor como ocorre esse “abafamento” às demandas dos religiosos do candomblé e da umbanda dentro do Movimento Negro?

Rosiane Rodrigues: Primeiro é preciso entender em que conjuntura isso ocorre. Não é de hoje que as igrejas neopentecostais (que não tem nada a ver com as evangélicas, diga-se de passagem!) estão cooptando fiéis para ocupar cargos políticos, eletivos ou não. A pesquisadora Adriana Martins dos Santos (UFBA) vem acompanhando a movimentação dos políticos negros, eleitos pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), em Salvador, e de como eles se mobilizam para tentar conter a pauta de reivindicações políticas das vítimas de intolerância religiosa.

Esta movimentação de políticos negros iurdianos vem acontecendo desde que a IURD foi condenada judicialmente a indenizar a família de mãe Gilda d’Ogun, em 2007 – que é o caso de vitimização por intolerância religiosa mais emblemático do país. Foi aí que os neopentecostais perceberam que a judicialização desses casos, através da propositura de ações exigindo ressarcimento financeiro pelos danos sofridos, poderiam levar ao pagamento de uma série de indenizações milionárias.  O fato é que encontrei no Rio de Janeiro algo bastante parecido... Só que aqui as questões envolvendo cor da pele e pertencimento religioso ganham uma outra conjuntura.  

Afropress:  Como assim?

RR: No Rio de Janeiro, assim como em São Paulo, há uma quantidade significativa de mestiços e pessoas de pele clara nos candomblés. Este dado da cor da pele, que não considera a dimensão do pertencimento étnico e religioso, tem feito com que as igrejas neopentecostais acusem as religiões afro-brasileiras de estarem "embranquecendo".

Neste sentido, essas igrejas estão se reivindicando politicamente como as legítimas religiões dos negros, por terem, entre seus adeptos, um contigente de pretos e pardos. E é sobre este nó, esta controvérsia, que eu construí a minha pesquisa. O que faço no livro é evidenciar como se desenvolvem as estratégias utilizadas pelos neopentecostais para invizibilizar a intolerância religiosa contra os adeptos do Candomblé e da Umbanda. É o uso do enfrentamento ao racismo (de marca) para a manutenção da prática do racismo (de origem).

“Quem foi que falou em igualdade?” é o primeiro livro da Coleção Primeiros Campos, cuja proposta é a de publicar as produções acadêmicas de pesquisadores em formação na área de Antropologia. 

Serviço

Data: 22/08 (próximo sábado)

Hora: 14h

Local: Clube Renascença (Barão de São Francisco, 54 – Andaraí)


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