8 de Agosto de 2020 |
Última atualização :
Comentamos
Ativista negra se declara inocente e acusa justiça seletiva
07/09/2015
Cineclube Atlântico Negro - Um barco que leva história e cultura a qualquer porto
Sandra Martins é jornalista e integra a Cojira/Rio/SJPMRJ

Rio - O Cineclube Atlântico Negro (CAN) comemora sete anos de muita produção e reflexão no próximo dia 12 de setembro, às 18h, no Terreiro Contemporâneo, sede da Cia de Dança Rubens Barbot no Centro do Rio de Janeiro. De acordo com o criador, produtor e curador do CAN, Clementino Junior, os cinéfilos serão presenteados com a exibição de um documentário de sua direção Feli(Z)cidade e mais um longa surpresa, uma ficção de pouco mais de uma hora.

Também na ocasião, o público será brindado com a performance teatral de Rubens Barbot & Gatto Larsen - “Roteiro de Cinema”. A entrada é franca. O Terreiro Contemporâneo fica localizado na Rua Carlos de Carvalho, 53, Centro, Cruz Vermelha. Abaixo, o documentarista, que tem arte e cultura no DNA, fala sobre seu trabalho engajado na construção, difusão e reflexão sobre a filmografia da diáspora africana.

Afropress – Quem é Clementino Junior e sua ligação com o audiovisual?

Clementino Junior - Minha ligação com o audiovisual começou praticamente com a escrita... Fazia meus primeiros desenhos e depois minhas histórias em quadrinhos em versos dos roteiros de novelas e filmes onde meus pais, Clementino Kelé e Chica Xavier atuavam. É interessante lembrar que, três décadas depois quando dei minha primeira aula de roteiro, sem nunca ter feito um curso específico para tal, eu sabia exatamente explicar a função de cada item, e como se desenvolvia a fluidez da narrativa... Posso afirmar que aprendi a ler através dos roteiros das novelas. Apesar de já adulto e me formar programador visual na UFRJ, a vida me trouxe de volta para o meu desejo real do qual fugi por muito tempo: o Cinema.

Afropress - O que é o CAN? Com quem ele dialoga teoricamente – cinema, relações raciais, pensamento social brasileiro, educação?

CJ - O CAN é o Cineclube Atlântico Negro. A sigla aderiu ao nome a partir de uma sessão especial que fiz na época da campanha de reeleição do Obama, onde divulguei a sessão com "YES WE CAN" e fiz uma brincadeira com o público interessado em qual seria o filme surpresa naquela época. O CAN trata da filmografia da diáspora africana, ou na minha interpretação deste termo: filmes diversos centrados no personagem afrodescendente ou na cultura negra em qualquer parte do mundo.

Afropress Quando surge esta parceria entre sujeito e objeto?

CJ - O CAN foi criado quando lecionei em um curso de pós-graduação o uso do cinema em sala de aula com enfoque para a lei 10.639/03 no curso África Brasil, Laços e Diferenças, na Atlântica Educacional na Lapa. Já comandava o Cineclube da ABD-RJ (Associação Brasileira de Documentaristas e Curtametragistas - Seção Rio de Janeiro). Eu nutria o desejo de fazer um cineclube só com temática negra e também com foco educacional. Essa ideia surgiu desde que vi pela primeira vez em 1997, durante uma viagem a Washington DC, dois filmes de Ousmane Sembene em uma mostra de Cinema Africano em um dos Museus do Smithsonian's. Naquele momento eu já sentia a necessidade de compartilhar a descoberta de haver um cinema narrativo e criativo no continente africano que não chegava ao Brasil, e do qual só conseguia ver alguns raros em sessões escondidas no Festival Internacional de Cinema do Rio.

Afropress – Qual o debate subjacente que o CAN se propõe a trazer à tona?

CJ - Para além do entretenimento dentro de um recorte étnico e qualitativo, o CAN se propõe a trazer o debate e a reflexão sobre o papel do povo preto e mestiço no mundo contemporâneo e visibilizar quais aspectos de todo o processo colonial que transparece dentro de cada narrativa, independente da origem ou cor de seus autores, mas focado nas representações cinematográficas do povo preto em todos os gêneros, épocas e países. Nossas sessões na sede (atualmente no Terreiro Contemporâneo de Arte e Cultura, sede da Cia de Dança Rubens Barbot) são mensais, e, eventualmente, faço sessões esporádicas onde me convidam, ou palestras. Recentemente fiz sessões em parcerias com o Perto do Leão Etíope do Méier (evento semanal no Méier) e no Conexão das Artes, em Anchieta. Desde o início faço sessões itinerantes, e daí vem o apelido do CAN: O Navio Negreiro do Cinema. Um barco que leva história, cultura a qualquer porto.

Afropress – Como se deu a construção desse empreendimento com o universo afrobrasileiro num país que não prima pela promoção da igualdade sócio-econômico-racial?

CJ - O cineclubismo por si só é uma atividade de resistência cultural. Vivemos em um país onde os atores da educação, da cultura e das artes em geral atuam por vocação, com profissionalismo, mas estimulados pelo amor às suas atividades, com raros estímulos burocráticos do poder público em editais mal planejados e muitas vezes distantes das realidades regionais de um país plural. Raras vezes tive algum apoio financeiro para a manutenção da atividade e, ultimamente, prefiro as boas parcerias (e não têm sido poucas) para realizá-la e alimentar o desejo de sua continuidade. Ainda faço tudo sozinho no CAN, até por ser uma atividade sem recursos financeiros, iniciada e sonhada por mim, e que para ter um parceiro tem de haver um tempo para o amadurecimento da parceria para que meu desejo de ser um coletivo audiovisual se concretize.

Afropress – Quais as suas propostas, realizações, perspectivas?

CJ - No momento o CAN tem três eixos que surgiram naturalmente a partir de minhas atividades no audiovisual: a exibição cineclubista, a produção de filmes de temática negra ou de matriz religiosa africana, e palestras e cursos de memória local (Memória Portátil). O terceiro tem me levado a outros estados e a desenvolver uma nova linha de trabalho a partir de dispositivos portáteis como smartphone, que renderam duas das últimas produções de minha autoria, além de um produto de alunos, que já correu inúmeros festivais. A perspectiva é migrar para as novas mídias com esse olhar sobre o negro.

Afropress – Ou seja, ...

CJ - Como falei antes, o desejo é contribuir através do poder que o audiovisual tem em todas as suas mídias para trazer o negro diante das telas de uma forma cada vez mais natural, para além de modismos ou cotas, mas por termos uma tela brasileira representativa de sua real diversidade, e proporcionalidade. Enquanto o negro não estiver representado na dramaturgia e em seu papel histórico nas telas quantitativa e qualitativamente, o trabalho continua, senão comigo, com várias iniciativas bacanas que tem surgido. Entre elas, a do Cinegrada, um Cineclube, que também foca a produção feita por e com os pretos, e outros coletivos que produzem audiovisual com olhar protagonista de pretos e pretas. Sim nós podemos... e estamos fazendo o nosso papel.

 


Artigos Relacionados
"Correndo Atrás", de Jefferson De, é sucesso no Festival de Cinema do Rio
Mantiqueira discute literatura e racismo neste final de semana na FLIMA 2018
Fotógrafo Luiz Moreira faz sua primeira individual em São Paulo
Tia Má solta a língua em show em S. Paulo
Twitter
Facebook
Todos os Direitos Reservados