8 de Agosto de 2020 |
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23/10/2015
Nos muros, diálogos contemporâneos
Sandra Martins, Jornalista colaboradora voluntária de Afropress

Niterói/RJ - Ao passar em frente a muros com aspecto de abandono fico imaginando o quanto seria bom para aquele dado muro, para os passantes, e para a cidade, se ele fosse grafitado. No município de Niterói, a Lei do Grafite (PL nº 032/2013) permite que lugares afetados pelo tempo e degradados pela ação do homem podem ser usados como telas para os grafiteiros. Uma boa pedida para os inúmeros muros ociosos que existem pela cidade. Entretanto, a inexistência de fiscalização ou de diálogo entre os órgãos da gestão pública não impedem que os locais grafitados sejam danificados ou mesmo repintados.

Grafite ou pichação: qual a diferença? Um é acolhido e o outro não? As duas artes de contexto sociais similares, são uma forma de manifestação artística em espaços públicos para que a população reflita sobre o que está sendo representado ali. Se pichação ou grafite, sempre há uma mensagem sendo transmitida, quer seja entre eles ou para todos sem restrições.

A pichação continua sendo marginalizada, apesar de ter sido praticamente o primeiro momento do grafiteiro. A pichação é o ato de escrever ou rabiscar, por isso ser contestada e considerada vandalismo. O grafite é baseado em desenhos e letras e todos os elementos são pensados e elaborados para que representem aquilo que o artista quer mostrar.

A legislação veio numa boa hora, pois há quem insista na manutenção de controvérsias sobre manifestações artísticas públicas, mesmo no que tange a pintura. A legislação define que a prefeitura fará uma lista anual de áreas grafitáveis na cidade, como pilares dos viadutos, pontes, passarelas, pistas de skate, muros públicos.

Mas não há indicativos de apoios a este trabalho de embelezamento da cidade e menos ainda de manutenção das pinturas, cujo material é muito caro e de inteira responsabilidade dos artistas que não contam com patrocinadores. Quanto aos muros particulares, não se faz menção aos muros abandonados; neste caso, para evitar contratempos com a segurança pública que por ventura desconheça a lei, o grafiteiro deve portar um papel explicando a legislação, analisar se o muro apresenta sinais de abandono – degradação, corrente para fora, mato alto, propagandas coladas sobrepostas (lambe-lambe), somente o dono do imóvel/muro é que pode impedir o grafite, entretanto, é importante atentar para um dado, que se ele abandonou o imóvel, então o mesmo terá que ser responsabilizado por isso.

Esta é a preocupação de artistas como OGAI, VNC e DARK que se dedicavam a trabalhar numa grande tela a céu aberto: um muro na Rua Noronha Torrezão, no bairro do Cubango, em Niterói. Os dois primeiros integram o Raiz Graffiti Coletivo e convidaram o amigo para participar da ação de intervenção.

Durante dois dias, os rapazes organizaram as tarefas, separaram o material, delimitaram as áreas de trabalho e cada um definiu seus traçados para iniciar sua produção visual.

De acordo com OGAI (Ítalo), a pintura do grafite é tão misteriosa quanto qualquer outra obra de arte. A interpretação é individual, independente da mensagem que o autor queira passar. Nesta tela, cada um ficou numa ponta do muro, que apresentava sinais claros de abandono e degradação, como se tivesse sido bombardeado. Por sinal, este foi o cenário do tema do trabalho: a grave crise de refugiados e migrantes oriundos de conflitos armados e de perseguições existentes em vários países, principalmente, na Ásia e na África.

Enquanto pintavam, os grafiteiros falavam sobre os conceitos do universo destes artistas plásticos que fazem o público refletir através de sua arte. Cada um dos componentes do Raiz Graffiti Coletivo usará sua linguagem para abordar a migração forçada pelas guerras que ocorrem lá fora, mas também presentes no nosso cotidiano.

O grafite é muito mais do que a plasticidade, a estética, um mural bem pintado. Esta pode ser a primeira visão de quem passa e olha rapidamente para o mural. Entretanto, como diz VNC (Vinício), há uma intencionalidade por trás, uma mensagem em toda a trama.

O cenário ficou por conta de OGAI que aproveitou a degradação do muro, rachaduras, tijolos aparentes e quebrados. De fato, é um cenário de guerra, com os restos de papeis colados que mais parecem band-aid sobrepostos (os “lambe-lambe”), ou os buracos semelhantes às sequelas de projéteis.

Dolorosamente lindo: no “cenário”, arame farpado, bombas, destroços militares, de casas, quiçá humanos, assim como os destroços dos sentimentos nascidos de situações de risco constante.

Como o olhar, o grito, o suor escorrendo numa corrida pela vida. A expressão de terror com o grito preso na garganta, por vezes, único som capaz de ser emitido, foi a contribuição de DARK (Maurício), dono de um estilo que trabalha basicamente com personagens expressivos, cujo foco é a boca.

Seu personagem, uma pessoa negra com as mãos sobre o rosto, deixa à mostra um olhar apavorado, a boca aberta que parece ensaiar ou não um grito absurdamente alto e profundo. Este grito se torna real, dependendo de quem vê e sinta a pintura e, claro, entenda sua mensagem.

“O grafite na rua é uma espécie de protesto. Quando usamos um painel, este tema tem que ser impactante, porque muitas pessoas vão vê-lo. E uma sequencia de letras pode não ter o mesmo efeito atrativo que um painel temático”, colocou VNC (Vinício). As letras são a sua marca. A partir de um molde o grafiteiro vai desenvolvendo, ampliando o traço. O estilo é a textura, tinta chapada, recortada como se fosse cartum.

A intenção não é escrever uma frase impactante, mas sim deixar fluir os sentimentos na concepção da pintura. Para VNC, as letras num painel é uma coisa única, cuja interpretação será sempre individual.

“E, sabemos que há obras que frases são desnecessárias”, afirmou lembrando que tão forte quanto o conjunto de letras que pinta, é a subjetividade transmitida por outros elementos. Bom, na realidade, é esta a proposta. Induzir a mente a ir para além do que está escrito. O texto remete o sujeito a transpor seus próprios limites, se VNC grafita o que sente, quem vê sua mensagem, poderá trabalhar a sensibilidade a partir do estímulo visual e afetivo.

DARK coloca que o grafite tenta retomar o conceito original de ser uma forma de protesto. “Hoje é mais estético.” Talvez, comercial, porém, limitado. Mas como afirma este artista plástico, o grafite tem fundamento, tem um sentido, um conceito de fazer as pessoas refletirem sobre dado tema exposto pelo grupo.

E, cá entre nós, refletir sobre o que está no nosso entorno é o que falta no nosso cotidiano. A proposta colocada pelos grafiteiros não é impor um dado olhar sobre uma dada situação. Mas apresentar uma discussão, mostrar seu ponto de vista, abrir a mente das pessoas para que adiram ao diálogo. A metodologia criativa, valoriza o diálogo plural e amplo porque atinge desde a criança até os mais velhos, utiliza-se de um “simples” olhar de soslaio do receptor.

Sobre os artistas desta matéria um ponto em comum, a pichação. Ainda adolescentes participaram de grupos que cruzavam a noite para colocarem suas marcas em novos territórios, que poderiam ser em outros muros, prédio, bairros.

Alguns “sufocos” como uns tapas por pichar parede alheia, conhecimento de outras linguagens, outras culturas como o hip hop, o amadurecimento do jovem que entra para a vida adulta e tem de assumir compromissos relacionados com a própria sobrevivência. Ou seja, escolhas tiveram que ser feitas, novos caminhos trilhados, mas a base já estava pronta.

A paixão falou mais forte do que as dores dos afastamentos por conta também das dificuldades financeiras para dar conta do custeio desta arte em franca aceitação até porque ele viaja o mundo e os artistas atuam em muitos projetos sociais. Mas há muito que se caminhar para que haja um diálogo proativo entre esta arte urbana, educação, gestão pública, cidadania. Neste diálogo, todos, certamente, ganharão.

 


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