29 de Abril de 2017 |
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15/01/2016
O racialismo não é saída, é cilada
Editorial

O combate ao racismo é parte da luta do povo brasileiro por  transformações profundas nesta República, que se ergueu e se mantém sob os escombros de quase 400 anos de escravismo, e por democracia. A erradicação das práticas oriundas de uma ideologia – que contraria a constatação científica da inexistência de raças – é fundamental para a superação da desigualdade e a construção de uma sociedade baseada em outros valores, que não os da exploração do homem pelo homem.

No Brasil, contudo, tomou corpo e ganhou fama um certo tipo de ativismo antirracista que acaba por reforçar o sistema racista, ao tomar negros – a maioria da população – em símbolos, meras alegorias. É como se tivéssemos nos reduzido a um grupo étnico, uma minoria, uma comunidade, vítimas, pedintes da compreensão e da piedade públicas.

É comum o uso e o abuso – de modismos conhecidos. Mimetizando a cultura de negros norte-americanos, que autodeclaram afro-americanos, nós, os negros brasileiros, passamos a nos designar afro-brasileiros, afrodescendentes, abdicando da condição de brasileiros, em favor desse exotismo despropositado.

Ora, até as pedras sabem: da mesma forma como não existem raças – apenas uma, a humana – (há consenso entre os cientistas) todos os seres humanos são afrodescendentes. O homo sapiens nasceu  na  África, portanto, o termo só serve para uma coisa: folclorizar e confundir.

A origem desse tipo de ativismo sem noção chama-se racialismo. Conhece-se por racialismo a crença na existência de raças biológicas e de racismo as formas de racialismo que afirmam a superioridade de uma raça sobre outra e servem para justificar a dominação social.

Racismo e racialismo não são a mesma coisa, portanto. Mas, são irmãos siameses; guardam entre si relação estreita, quase umbilical. Enquanto um advoga a hierarquia, a superioridade; o segundo  defende que cada raça deve se manter no seu lugar (cada qual no seu quadrado), mas convivendo, se possível,  sem conflitos.

O racialismo, como se vê, flerta com o racismo. Tem em comum com este a mesma crença. Não combate verdadeiramente a mazela do racismo e seus efeitos perversos, o reforça. Ambos nascem do mesmo equívoco. É uma cilada, não uma saída.

No Brasil, desgraçadamente, o racialismo sustenta e mantém as ações e iniciativas dos setores majoritários disso que se apresenta e se conhece por movimento negro chapa branca. Subordinado aos partidos – que praticam e reproduzem o racismo institucional em todas as suas instâncias -,  o racialismo mantém e reforça a ideia dos negros como um grupo separado de uma sociedade cindida por contradições, a principal delas, a contradição de classe. Sua principal contribuição ao sistema racista é subordinar os negros – no caso brasileiro, a maioria da população – à condição de símbolos.

Destituídos de qualquer protagonismo, não tem agenda, não tem programa, não tem líderes confiáveis. São muito comuns e frequentes em reuniões e plenárias, afirmações do tipo “o movimento negro acha”, “o movimento negro decidiu”, “o movimento negro entende”. Tais expressões servem apenas para confundir desinformados ou incautos – bem intencionados ou não – além de uma injustiça histórica às populações indígenas, de quem herdamos parte da nossa herança genética, essas sim, vítimas e alvos de um genocídio que começou com a chegada de Cabral e persiste até hoje.

Tome-se, como exemplo, a atitude das principais entidades negras sobre  o momento político: não se ouviu uma única nota, um único protesto, uma única declaração, sobre o arrocho e a degradação da vida dos mais pobres – que são, por óbvio, negros.

Note-se o silêncio (que não é dos inocentes) das chamadas ONGs negras bancadas pela Fundação Ford. Quando tomam alguma iniciativa é para desembocar na carnavalização típica da ausência de propostas (negros fazendo exibições de capoeira, turbantes afros em profusão e as religiões de matriz africana e sua indumentária, sendo utilizadas de forma esperta e profana), como se viu na recente manifestação das mulheres negras em Brasília, que acabou em performances, beijos, abraços e selfies, com a principal responsável pelo arrocho: a presidente Dilma Rousseff.

E por que? A explicação é simples: subordinadas a agendas dos partidos da base do governo – PT e PC do B – tais iniciativas servem apenas para reforçar a presença negra na sociedade brasileira como simbólica. São os afro isso, afro aquilo;  é como se tivéssemos abdicado da condição de brasileiros submetidos às mais duras condições do capitalismo tupiniquim e ainda alvos da herança maldita da escravidão.

Regressivo e reacionário

Por trás desse “movimento negro” chapa branca, - que se expressa nos partidos em que negros são apenas personagens folclóricos – está a ideologia regressiva e reacionária do racialismo.

Copiado de manuais do movimento negro norte-americano, o Partido do racialismo no Brasil não tem registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas ocupa espaços nos governos, na Academia e garante os financiamentos de estatais e da Fundação Ford, a chamadas entidades e intelectuais, que se apresentam como porta-vozes das demandas seculares de milhões de pessoas, sem que jamais tenham tido procuração ou um único voto.

É regressivo e reacionário porque ignora a contradição fundamental na sociedade capitalista: a contradição de classe. Ao fazer regredir a contradição fundamental numa sociedade capitalista, à esfera biológica, transforma negros em vítimas e ou padrões de virtude; reserva a maioria da população o lugar de sempre: o de parcela subalterna, sub-cidadã.

É famosa a frase de uma famosa filósofa e feminista, doutora em Educação pela USP de que, "entre a direita e a esquerda, continuo preta”. (“Caros Amigos” n° 35, fevereiro de 2000). A frase, dita no contexto da campanha em que Celso Pitta, com apoio de Paulo Maluf se elegeu prefeito de S. Paulo, é repetida por jovens inflamados, inclusive, nas redes sociais. Ignorantes (um dos males desse tipo de visão é a despolitização dos mais jovens), prestam um serviço ao sistema de exploração capitalista que tem no racismo um dos seus elementos estruturantes.

O racialismo mimetiza práticas do movimento negro norte-americano, porém, negros americanos representam apenas 12% da população. Sim, nos EUA, os negros podem se auto-denominar uma comunidade – já foram ultrapassados em número, inclusive, pelos hispânicos. Mas, no Brasil, onde representamos 51,7% da população, segundo o Censo do IBGE 2010?!!!

Há algo muito errado quando em um país - que é o de maior população negra no mundo fora da África -, os próprios negros abdicam da condição de brasileiros para se dizerem afro qualquer coisa, se reduzem à condição de minoria, de uma comunidade, o que torna a sua presença apenas simbólica e folclorizada.

O racialismo nunca foi, não é, nem jamais será uma saída para o combate ao racismo. O Partido do racialismo é uma cilada, não uma saída.


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