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25/04/2016
Soul music perde Billy Paul. Conceição Lourenço fala do ídolo e amigo
Da Redação

Salvador/Bahia A morte do cantor Billy Paul, ícone e pioneiro da soul music neste domingo (24/04),  em Nova Jersey, chocou seus fãs em todo o mundo e teve enorme repercussão no Brasil, país em que o cantor esteve várias vezes. Paul, que morreu em sua casa no bairro de Blackwood, estava hospitalizado  no Hospital Temple University.

Nascido em 1 de dezembro de 1.934, na Filadélfia, Billy Paul começou sua carreira musical com 11 anos, quando se apresentou em uma rádio local. Ele também participou da escola de música West Philadelphia e da Escola Granoff, onde recebeu treinamento vocal. No início da carreira, se apresentou em clubes e universidades ao lado de várias lendas do jazz e da música sooul, incluindo Charlie “Bird” Parker, Nina Simone, Miles Davis e Roberta Flack. Seu maior sucesso foi o single “Me and Mrs. Jones”, em 1.972, que chegou ao topo na Billboard Hot 100 e R&B e recebeu o Grammy. A canção ganhou mais notoriedade quando o cantor Michael Buble lançou uma versão cover em 2007.

Ao todo, Paul lançou 15 álbuns (sem contar com uma reedição de "Feelin 'Good ao Cadillac Club") entre 1968 e 1988. Billy é reconhecido pelo mundo como um pioneiro e figura importante na soul music, conhecido por suas letras socialmente conscientes.

De Salvador na Bahia, onde se encontra, a jornalista e ex-editora da Revista Raça Brasil, Conceição Lourenço, se disse chocada com a morte de Paul, de quem era amiga e com quem trabalhou nas vezes em que o cantor esteve no Brasil.  Segundo Conceição, Billy Paul "causou uma revolução tão grande nos rapazes negros de S. Paulo quando surgiu nos anos 70, que todos queriam se parecer com ele". "Ainda hoje tenho 2 amigos com o apelido de Billy Paul", acrescentou.

Leia, na íntegra, a entrevista concedida por Conceição Lourenço à Afropress.

Afropress – A morte de Billy Paul marca o fim de uma era. Qual o papel que Paul teve no mundo da soul music?

Conceição Lourenço - Não vou dizer que ele era o o "rei" da Soul music, pois tem muita gente boa. Mas era o "rei" da Soul Music no Brasil. Causou uma revolução tão grande nos rapazes negros de São Paulo, quando surgiu nos anos 70, que todos queriam se parecer com ele. Eu disse isso a ele muitas vezes. Os óculos, casacos mais longos... Ainda hoje tenho 2 amigos com o apelido de Billy Paul.

Afropress – Você teve uma relação bem próxima a Billy Paul. Quando o conheceu e como era ele no dia a dia?

Conceição Lourenço - Bom, primeiro sempre fui uma grande fã etc. O conheci em maio de 2008, quando o empresário dele, meu amigo antigo, me propôs assesssoria. Relutei, até porque meu inglês não é bom, mas topei. Fui buscá-lo no aeroporto, sequer me olhou no rosto. O empresário colocava panos quentes, ele está com sono. Mas já no primeiro jantar aprendeu meu apelido, "Con", e adorava ficar repetindo, "Con", "Con...", e ria.

Dizia que gostava da minha gargalhada, era fácil rir com ele. Não tinha noção do tamanho da fama. Nesta mesma turnê, fomos ao Rio, pra fazer Canecão, e no meio da tarde saí do hotel pra fazer as unhas. A esposa dele foi ver o mar (Copacabana). Ele estava dormindo, era depois do almoço. Acordou assustado; não viu a mulher, não me achou, saiu prá rua. Caminhou pouco e me viu dentro do salão. Entrou gritando: "Con, where´s Blanche?" (esposa); ele falava alto. O salão estava cheio, havia chamadas de tv do show, todas o conheciam. Me perguntaram: é ele? Confirmei, foi uma festa, e ele adorava isso. Muito simples, descomplicado, humilde até.

Afropress - Qual foi o último contato que vocês tiveram no Brasil?

Conceição Lourenço - Parei de trabalhar com ele porque quis, tive um problema com o empresário. É um trabalho muito puxado, corre Brasil, corre mundo, dentro do avião, engordei 16 quilos em 2 anos. A última vez, dei uma carona Cumbica-Holambra. Não gostava de andar comigo de carro, dizia que eu corria muito. Entrava no meu carro e segurava com as 2 mãos no banco, todos riam.

Era muito brincalhão. Exemplo: andando de carro olhando as pessoas na rua tentando adivinhar como era a vida delas. Uma vez olhou uma moça negra no ponto do ônibus e jurou que ela estava traindo o marido, que ela estava assustada, meio que se escondendo. Era muito engraçado, mas sabia que tinha saúde frágil, e não ligava.

Afropress - Billy Paul deixa sucessores na soul music?

Conceição Lourenço - Ele gravou com Sandra de Sá, temos ainda Black Rio... mas sucessor não. Era muito bom. Não ensaiava. Acordava em cima da hora se vestia e subia no palco. Às vezes o empresário mandava uma das backs (que tem o mesmo timbre dele) testar o som. Tinha um talento natural, nasceu pra isso...E não perdeu as coisas de "negão", como essa coisa de fazer graça etc.

Afropress – Como estão as tratativas para que você escreva a biografia de Billy Paul?

Conceição Lourenço - Ele mesmo me elegeu, mas por razões diversas não vai rolar.

Afropress - Ele falava da questão racial no Brasil, tinha opinião sobre isso?

Conceição Lourenço - A preocupação dele era mais social, acho que a mãe foi serviçal. Muito preocupado com união da família. Por isso gostava de mim, gostava de mim com minhas irmãs. Ele perdeu um irmão gêmeo, coincidência com o Elvis. Gravou música de protesto, não só românticas. No camarim atendia todos à exaustão, mas dava preferência aos serviçais, depois aos pagantes.


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