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20/06/2016
Intelectuais Negras na UFRJ: escritas de si
Sandra Martins, é jornalista, integrante da COJIRA/RJ/SJPMRJ e mestranda do Programa de Pós-graduação de História Comparada da UFRJ

Rio - “Enquanto negros/as somos todos alvos”, afirma Lilian Barbosa, graduanda da Escola de Serviço Social/UFRJ. "É nossa realidade desde que o primeiro negro pisou nas areias desta antiga colônia. O que sempre fizemos, e, infelizmente, por vezes esquecemos, é de que “Muitas vezes o que tenta nos derrubar tem o poder de nos fazer avançar”, acrescenta Glauce Pimenta Rosa, cantora e multiartista negra.

Elas participaram do Seminário Intelectuais Negras: escritas de si, realizado nos dias 16 e 17 de junho, na UFRJ. Este evento é fruto de um trabalho coletivo que deu forma a uma iniciativa da doutora Giovana Xavier (foto abaixo no primeiro plano), professora adjunta de Prática de Ensino de História na Faculdade de Educação da UFRJ. O título do evento, por si só, sinaliza uma pauta abrangente, polêmica e dinâmica, inclusive, entre as mulheres negras.

Afropress - Autoria e reconhecimento compõem o universo do protagonismo, em especial no que tange a mulher negra. Sendo assim, poderia comentar sobre o processo de desenvolvimento desta iniciativa?

Giovana Xavier – A autoria do seminário foi minha, mas passou a ser “nossa” quando mais quatro mulheres negras apostaram na ideia: as graduandas em Serviço Social Aline Cunha e Lilian Barbosa, assim como a amiga e professora Janete dos Santos Ribeiro e a designer gráfica Maria Júlia Ferreira, que cuida da programação visual do seminário e do grupo Intelectuais Negras. Esse é um exemplo prático de que juntas somos mais fortes.

Afropress – É uma iniciativa de promoção do protagonismo da mulher negra, com a fala e ações da intelectual negra, mas também parece propor reflexões subjacentes, em especial na atual conjuntura política. Que pautas podem, em princípio, ser sinalizadas?

GX – A atual conjuntura é de grande mobilização para as populações negras, organizadas ou não em movimentos sociais. Vivemos um cenário de retrocessos dentro de um paísque, ainda hoje, alimenta a ficção da democracia racial e do encontro das três raças – via opinião pública de direita, telenovelas, acadêmicos brancos conservadores (anticotas!) etc. Nesse sentido, só mesmo afirmar mulheres negras como intelectuais já é por si só uma pauta. Uma pauta polêmica inclusive entre mulheres negras!

Afropress – É um universo bastante amplo e heterogêneo.

GX – Nossos jovens pretos são bons nisso e possuem vocabulário próprio e controverso: geração tombamento, afrontamento e outras expressões que, inclusive têm sido problematizadas por eles próprios. Eu adoro e sempre que posso me aproprio delas. De minha parte, compreendo que pautar a intelectualidade das mulheres negras é necessariamente refletir, escutar e construir possibilidades para o enfrentamento de todas estas questões.

Afropress – E, quais eixos norteiam o seminário?

GX – Dentro desta perspectiva, o seminário foi estruturado em três eixos: Intelectuais Negras e protagonismo acadêmico, Intelectuais Negras e racialização do cuidado, Intelectuais Negras e movimentos sociais. É interessante destacar que cada convidada é uma, com lugar de fala e trajetória específica. Ao mesmo tempo, considerando a condição compartilhada de ser mulher e negra (com identidades de gênero cis e trans, questão importantíssima de ser enfatizada), ela necessariamente nos confronta com todos estes temas abordados. Temas estes construídos no seminário em contraponto ao Brasil da “ordem e progresso” que a direita tem posto em prática.

Afropress – Numa perspectiva geral, a produção intelectual negra é esmaecida tanto na academia quanto para o público em geral, quiçá negligenciado pelas editoras que não investem neste segmento.

GX – E, neste caso, podemos considerar também como um nicho importante a produção de livros didáticos e paradidáticos amparados pela Lei 10.639/2003 atualizada pela 11.645/2008. Nas rodas de conversa já trabalharam esta abordagem, e em linhas gerais.

Afropress – E o que poderia pontuar?

GX – Sou professora de Didática e Prática de Ensino de História, reconhecida especialista em reeducação das relações étnico-raciais e especialista em história do pós-abolição nos EUA. Ressalto isso porque o aumento da visibilidade como intelectual negra pública por conta da própria disciplina, pelo grupo de pesquisa Intelectuais Negras e também pelo blog Preta Dotora na Primeira Pessoa, precisam ser pensados de forma articulada à minha agenda de pesquisa individual, como historiadora. A produção de materiais didáticos relacionados ao campo da reeducação (falar em temática é reduzir a complexidade de tal campo ou área) avançou bastante, justamente por conta de políticas públicas como as leis que você cita. Leis estas hoje francamente ameaçadas em nome de projetos altamente conservadores como o famigerado “Escola sem Partido”. Em linhas gerais, quando discuto material didático enfatizo que, para além dos livros, os saberes produzem-se em contextos de senso comum como propagandas de TV e outdoors e noutros que são da ordem das subjetividades e afetações. Por exemplo, na antiga escola de meu filho, um colégio classe alta na zona sul carioca e conhecido no “mercado do ensino”. Aspas para não naturalizarmos que mercado do ensino é derivado da sociedade capitalista que vivemos e que uma outra educação é sim possível, aos moldes do que experimentam um grupo de famílias no Coletivo Casa-Escola, coordenado pela intelectual negra Geisa Nascimento. Então, no colégio do Largo do Machado, os únicos trabalhadores negros eram os seguranças, as cozinheiras e as professoras auxiliares (nesse caso, chamadas pejorativamente de “cuidadoras”). Não adianta pensar o livro, a produção do material didático sem ler e problematizar o que a circulação deste tipo de referencial de que nós negros, especialmente mulheres negras, estamos no mundo para servir. Independente da classe que ocupamos, este é um estereótipo que nos acompanha e quando o recusamos somos mal-agradecidos. Como uma preta ingrata convicta acho as juventudes negras muito inspiradoras.

Afropress – As juventudes negras têm se rebelado contra tais fossilizações.

GX – Exato. Veja só, na UFRJ, acabaram de organizar o EECUN, o Encontro de Estudantes e Coletivos Universitários Negros. Pense em dois mil jovens acadêmicos pretos cotistas aquilombando-se por três dias e promovendo discussões sofisticadíssimas no mesmo prédio que abriga o curso de Medicina da UFRJ, reduto anticotas do Brasil. Pratiquemos a ingratidão.

Afropress – Em linhas gerais, que aspectos enfatizaria no seminário?

GX – Falamos de nós para nós mesmas sobre temas como protagonismo acadêmico, racialização do cuidado e movimentos sociais. São questões que nos forçam não apenas a discutir, mas a nos posicionarmos e fortalecermos caminhos coletivos frente à conjuntura de retrocessos. É importante registrar que dialogamos com representantes estudantis do Coletivo Negro Carolina Maria de Jesus, das trabalhadoras terceirizadas, categoria invisibilizada pelo racismo acadêmico e pelos gestores, associações e sindicatos da UFRJ. Na mesa Intelectuais Negras, “fragmentos de afetividade” e pesquisa ativista, na qual apresentei um histórico do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras, que com este seminário formula sua vinculação com a UFRJ. A expressão “fragmentos de afetividade” é de autoria da intelectual negra Azoilda Loretto da Trindade, que me ensinou muitas coisas, dentre elas que “a invisibilidade é a morte em vida”. E, portanto: Azoilda Presente!

 


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