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01/11/2016
Spírito Santo e o Musikfabrik - lamparinas no túnel
Sandra Martins é jornalista, integrante da COJIRA/RJ/SJPMRJ e mestranda do Programa de Pós-graduação de História Comparada da UFRJ

Rio - Músico, arte educador, ativista, intelectual, socialista, escritor, pensador, interno do SAM, filho de herói da 2ª Guerra Mundial, subversivo, pesquisador da cultura brasileira, pai, homem negro, enfim. Pois é - ele é ele: "o cara". 

Leia-se Spírito Santo, criador do Vissungo - o grupo musical -, do Musikfabrik - o projeto de instrumentos musicais -, autor do livro Do samba ao funk do Jorjão, entre zilhões de facetas. Mas, sem etiquetas, por favor. E é na gingada, é no compasso deste caminhar que Spírito Santo fala um pouco sobre Spírito Santo. Com licença, som na caixa...

Afropress – Antes de falarmos do criador do Musikfabrik, fale um pouco de sua trajetória do músico, educador, ativista, intelectual, pensador.

Spírito Santo – Eu sou, imagino, o puro reflexo da rica experiência de vida que tive a oportunidade de viver. Muitas chances para observar, gozar, sofrer e aprender. Meu pai foi herói da 2ª Guerra Mundial, José Cyrilo do Espírito Santo, retornou da Itália em 1944, e morreu em 1951. Já sem pai, aos 5 anos eu estava num colégio interno do SAM (uma espécie de FUNABEM da época, tipo um presídio mirim). Só saí daí aos 13, adolescente sem saber como me adaptar e me comportar no mundo exterior.  

Aos 21 fazia música, teatro e militava, clandestinamente, como subversivo. Lendo, vagamente, Marx e Lenin, entrei na luta armada, que começava em 1968. Mas logo fui capturado pela polícia política. Passei preso por um quartel do Exército, pela DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social) e até pelo presídio de segurança máxima da Ilha Grande, conhecido como Caldeirão do Inferno

Aprendi tudo que falo sobre esta parte criminosa da esquerda brasileira que nos governou até aqui, ali, nas prisões. Sabia que seriam capazes de fazer o que fizeram. Estava já no seu DNA ideológico que nada tinha de socialista. Eram na verdade - com raras exceções - brancos de classe média querendo criar um governo para si mesmos. De revolucionários mesmo, só tinham o texto e o jargão.

Afropress – Conhecer o “DNA ideológico nada socialista” dessa esquerda implica que dimensões do desencanto político? Envolve também as dimensões do debate político sobre as relações raciais? 

Spírito Santo - Virei artista profissional logo que saí da prisão, embora fosse mesmo, oficialmente, desenhista projetista de arquitetura, profissão técnica, formal, adquirida num curso do SENAI. Esta passou a ser a minha militância humanista, socialista

Importante frisar também que nesse período participei intensamente do movimento negro, mas jamais me conciliei completamente com as opções ideológicas iniciais de parte da liderança desse movimento nos anos 1970/80, para mim um tanto desarticulada, desligada dos movimentos de libertação da África, que ocorriam intensamente no período, ou mesmo escapista, diante da agudeza repressiva da ditadura, que sempre foi mais violenta junto  às comunidades negras em geral. 

Sempre me pareceu que parte dessa liderança política do Movimento Negro - como ainda hoje, de certo modo - apesar da retórica esquerdista, era gente interessada em criar uma classe média negra, uma casta, uma elite, sem alterar muito o sistema, sem se importar, francamente, com o bem estar da maioria dos negros do Brasil. Isto era inconcebível para aquela minha radical formação humanista, socialista,  lendo autores revolucionários africanos como Agostinho Neto, Amílcar Cabral, entre outros.  

Afropress  E Musikfabrik? Qual o seu conceito? Como surgiu a proposta e com quem contou para sua concretização e manutenção?

Spírito Santo - Viajei para a Áustria, em 1988 e, de novo, em 1989,  como uma espécie de asilado cultural no Governo Collor. Lá vivia como músico, e também exerci outras atividades, como ilustrador de revistas, e outras menos nobres. Comecei a lecionar música ali e a desenvolver técnicas de fabricação instrumentos musicais, atividade  que  iniciara  aqui, no Brasil

Em Viena comecei a fabricar peças para vender. Por uma vocação antiga, passei também a estudar e lecionar sobre instrumentos musicais de forma mais ampla. Divulgava meu curso com o nome Musifabrik, em alemão. Ao voltar ao Brasil, precisando de emprego, recebi um excelente convite para ingressar no Programa Cultural de Educação Pública do Darcy Ribeiro, os CIEPS.

Coordenava artistas e os treinava como arte-educadores. Virei um arte-educador experiente no processo, coordenando a cultura dos CIEPS do Vale do Paraíba do Sul, com sede em Vassouras, área cultural que, a partir daí, comecei a pesquisar intensamente.

Paralelamente ao trabalho no interior com os CIEPS, fui convidado pelo músico Caíque Botkay para integrar uma experiência artística inédita na UERJ chamada TUERJ (Teatro da UERJ). Entretanto, acabei lotado em outra área, a COART, das oficinas de arte, onde a diretora da época, chamada Maria Tornaghi, me sugeriu inventar um curso. Reinventei então o Musikfabrik austríaco, formatado desta vez para alunos, em geral universitários, criando uma metodologia e um programa que, logo depois fiquei sabendo que era pura etnomusicologia aplicada. 

Com o sucesso do curso acabei ganhando um atelier, apoio material e contratos como artista visitante da universidade, função que ocupei lá durante os últimos 20 anos. Importante frisar que esta estrutura, ligada diretamente às funções, na prática, claramente acadêmicas, me permitiram estudar muito o tema da etnomusicologia, sendo hoje um pesquisador independente respeitado nessa área, experiência da qual, junto com as pesquisas de campo anteriores, me capacitaram para escrever o livro Do Samba ao Funk do Jorjão, que estou relançando, aliás, agora mesmo,  em segunda edição.

Afropress - Por que o Musikfabrik nunca se interessou em  atuar, como era recorrente a projetos e ONGs semelhantes, nos tradicionais espaços dentro das comunidades de baixa renda? 

Spírito Santo – Para mim, baseado na experiência socialista da minha juventude, socialista suburbano, bem entendido, sempre foi óbvio que a sociedade brasileira se estruturava no princípio da Casa Grande & Senzala. Se formos pensar bem, este tipo de estratificação sócio geográfica, colonialista por excelência, do ponto de vista de quem controla o sistema, sempre funcionou no modo: eles  - os negros - lá, isolados em seus guetos-quartinhos, trabalhando para nós - os brancos - e Nós aqui, no comando.

Sem estender muito a conversa, percebi que todo programa sócio cultural de ONGs, em geral, desses que viraram moda a partir dos anos 1980/1990, visavam, antes de tudo, manter os pobres - os negros - em seu lugar. Eram, ao fim das contas, guetos,  programas  de exclusão e controle populacional.

Como um jovem retido no espaço exíguo do gueto iria ganhar visão do mundo, consciência social, senso de oportunidade, isolado, contido no mesmo buraco de sempre? Esses programas de ONGs acabavam sendo - e são - exatamente como cursos e atividades para internos presidiários, terapia ocupacional, ações de prevenção e contenção de explosões de rebeliões urbanas.

O que me ocorreu é que, se eu promovesse os cursos Musikfabrik nos espaços externos aos guetos, eu daria aos jovens a oportunidade de ganhar uma visão de todo o contexto social no qual estavam inseridos, inclusive aprendendo a reagir à rejeição do meio (no caso, um meio se sentindo invadido por eles), um choque de autoestima, acesso a muitas outras informações e dados, dependendo da qualidade das políticas e parcerias que o projeto pudesse promover, se aproveitando do complexo de culpa da instituição, no caso uma universidade.

Considerando-se que isto tudo ocorreu numa fase antes da implementação de cotas raciais na universidade, pensei em metodologias estratégicas que facilitassem a absorção desses jovens pelo ambiente, a eles francamente hostil. Entre estas estratégias,  as lições advindas do conflito direto - usado nesse caso como pedagogia - excelente fundamento da luta antirracista que funciona, pude constatar,  muito bem, inclusive no momento atual no qual um número razoável de jovens negros e negras, oriundos de guetos como os citados, ingressam no sistema universitário.

Afropress - A proposta envolvia o ensino da música e oficinas de montagem de instrumentos – além da criação de outros. Ou seja, as possibilidades dos alunos se multiplicavam em termos de mercado de trabalho. Tem uma estimativa da trajetória de seus alunos após tantos anos de ação?

Spírito Santo - A proposta pedagógica do Musikfabrik nunca priorizou conceitos recorrentes do tipo capacitação profissional, cooperativismo etc. Devo confessar que já admiti esta finalidade em editais, a maioria deles insiste sempre nessa linha, lógico, mas acabei concluindo que essas ações eram paliativas e só estimulavam a baixa escolarização e o subemprego para esses jovens. O fato é que sempre sabotei, solenemente, essas propostas levianas, na prática.

O programa e a pedagogia do Musikfabrik, na verdade, propõe a liberdade de escolha de cada um, repassando técnicas adequadas a cada interessado, junto com transmissão de aspectos ligados a uma visão de mundo mais aberta e questionadora, livre. Assim já estimulamos a formação de musicoterapeutas, arte-educadores, músicos e, artistas circenses e, até mesmo artesãos.

E outra: nunca separamos jovens de comunidade de outros jovens de quaisquer outras origens, escapando de um preceito caro à sociedades excludentes que é, como repeti à exaustão acima, a rígida separação física da população em grupos sócio raciais estanques.

Afropress – Como lidar com a eterna crise da cultura?

Spírito Santo - A crise da cultura brasileira não é recente. Estamos vivendo um problema cada vez mais agudo de uma sociedade imbecilizada pela falência moral quase absoluta, causa evidente de nosso equivocado sistema de educação. 

Estamos submetidos a uma classe senhorial, uma elite, uma aristocracia sem noção da realidade, totalmente idiotizada, incapaz de entender, por má formação educacional, moral, ética etc. o mundo em que vivemos. Estamos sujeitos ainda às idiossincrasias de uma sociedade muito semelhante àquela do último período colonial, imediatamente posterior à abolição da escravidão.

Nesse sentido, projetos inovadores como o nosso e vários outros que existem por aí sucumbem rapidamente por conta de seu isolamento, por força do corporativismo da classe artística, também pertencente a esta elite, e do rancor inexplicável que o sistema no Brasil tem pela modernidade em geral, pela mudança de paradigmas, enfim.

Afropress - Soubemos que o projeto Musikfabrik teve suas ações encerradas na UERJ. O que fazer com o acervo? O que fazer com as esperanças plantadas e regadas há tanto tempo? Que respostas garimpar para tratar do acervo geral do Musikfabrik constituído de instrumentos musicais convencionais ou inusitados, feitos por alunos? O que ocorrerá com esta experiência metodológica construída ao longo de 20 anos de trabalho, o que fazer, quais serão os próximos passos?

Spírito Santo - Tenho pouquíssimas esperanças sobre a guarda do acervo, já que no Brasil não se valoriza a guarda e a preservação de cultura material que não seja museológica e estrangeira, europeia, no espírito de colônia de uma metrópole e cultura superior que nos caracteriza. A história da preservação, guarda e manutenção de acervos populares, no Brasil é dramática, deprimente, constrangedora.

Quanto a metodologia e a história da experiência Musikfabrik, felizmente, tenho tudo pronto, inclusive, um meticuloso manual técnico de organologia e etnomusicologia que um dia poderá ser publicado ou disponibilizado por aí sem problemas.

Afropress - Neste país de fantasias, o ano de 2016 parece não existir ou o foi totalmente desconectado de si mesmo. As apostas estão sendo feitas para 2018. Hoje, desprezo, vácuo, silêncio, indiferença secular contínua. Como o educador politizado a frente de um empreendimento como o Musikfabrik reflete sobre este quadro? Que aspectos você percebe no fim do túnel.

Spírito Santo - Sou otimista com algumas experiências que nossa democracia está gerando no campo da jurisprudência, por exemplo, da criação de uma mentalidade que torna concreta uma relação direta entre Crime e Castigo, principalmente para corruptos poderosos, políticos em geral, algo que pode aliviar bastante o nosso maior problema que é a corrupção de Estado e a corrupção endêmica, praticada no varejo pela "elite".

Mas tenho alimentado muito pessimismo também com relação a sociedade brasileira, em geral, a incapacidade nossa de nos rebelarmos contra o que nos atravanca o caminho para o futuro e a modernidade, a nossa leniência com relação à exclusão social , por exemplo - o racismo como estratégia principal - tudo fruto de nossa total displicência para com a Educação no sentido expresso da palavra, o desprezo pela excelência no trato de nós mesmos e de nossa sociedade.

O túnel já vai parecendo cada vez mais longo para mim; mas com certeza vai dar em alguma luz no seu final. As lamparinas como o Musikfabrik estarão acesas pelo caminho; isto posso garantir. Indica, pelo menos, uma direção.

 


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