29 de Abril de 2017 |
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26/01/2017
Onde estão os jornalistas negros nos telejornais brasileiros?
Cíntia Albuquerque

É jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

Onde estão os jornalistas negros nos telejornais brasileiros?

Enquanto os brancos dominam as bancadas e as reportagens, os negros quase não são vistos como jornalistas na televisão brasileira. A falta de diversidade étnica no telejornalismo se revela como um impasse na construção de uma sociedade brasileira igualitária racialmente, já que os afrodescendentes não se veem nesse espaço, portanto não se sentem devidamente representados.

Em 2011, uma pesquisa feita por Claudia Acevedo e Luiz Trindade revelou que, entre 65 apresentadores de 27 canais abertos, apenas 6,15% dos profissionais eram negros. Os outros 93,85% eram brancos. O SBT possuía 20% dos jornalistas afrodescendentes como apresentadores, enquanto a Globo ficou com 6,9%. De 2011 para 2017, esse número certamente aumentou, mas não de modo significativo. Os espectadores continuam acostumados a ligar as suas TVs e ver jornalistas brancos repassando as notícias do dia.

Se mais da metade da população brasileira é negra, por que esse quadro ainda não mudou? Como se sabe, o padrão estético da televisão brasileira é discriminatório e europeizante. Não há espaço suficiente para a diferença – ainda que afrodescendentes sejam a maioria no país, eles ainda são considerados “os outros”. Isso não acontece somente no telejornalismo. Em novelas, por exemplo, o núcleo familiar geralmente é composto por pessoas brancas de classe média. Para os raros casos de representação de afrodescendentes, a preferência se dá por atores de pele mais claras, traços finos, ou seja, pessoas negras que se aproximam das características caucasianas.

Segundo o autor Muniz Sodré, quando um afro-brasileiro consegue um lugar na redação, geralmente a tarefa designada a ele é dita de “cozinha”, longe da visibilidade da população. A primeira repórter afro-brasileira que apareceu nas telas de TV foi a Glória Maria. Além disso, ela também foi a primeira mulher a cobrir uma guerra, que foi a Guerra das Malvinas, na televisão brasileira.

Na década de 70, quando o racismo ainda não era considerado um crime, Glória foi barrada pelo gerente em um hotel de luxo ao tentar entrar pela porta da frente e se tornou a primeira pessoa a utilizar a Lei Afonso Arinos, que foi criada para proibir a discriminação racial no país. Esse episódio racista representa a prática do Gesichtskontrole, palavra em alemão que significa “controle de rostos”, ou seja, a decisão de quem pode ou não entrar em determinados locais.

Quase 50 anos depois, a perseguição aos jornalistas negros continua. Em abril de 2015, o lugar de “garota do tempo” no Jornal Nacional passou a ser ocupado pela Maria Júlia Coutinho, mais conhecida como Maju, primeira jornalista negra encarregada de apresentar a previsão do tempo na emissora Rede Globo. Porém, no dia 2 de julho de 2015, diversos comentários racistas relacionados à Maju apareceram na página do Jornal Nacional no Facebook. Comentários como “Essa macaca é tão preta que roubou a minha TV”, “Não tenho TV colorida pra ficar olhando essa preta” e “Estou com catarata? Porque olhei pra foto e de repente tinha uma mancha preta” apareceram na postagem da rede social. Logo depois, a equipe do Jornal Nacional criou uma campanha intitulada “Somos todos Maju” como forma de apoio e a notícia foi posteriormente transmitida por William Bonner no JN.

É irônico que a bandeira “Somos todos Maju” tenha vindo de uma emissora cujo o diretor geral de jornalismo, Ali Kamel, escreveu um livro intitulado “Não somos racistas”. Negros continuam sendo invisibilizados e estereotipados na mídia: publicidade, jornalismo, novelas e séries comprovam isso. E as emissoras de televisão tentam esconder o racismo institucional.

É necessário analisar que os próprios canais podem estimular pensamentos preconceituosos nos espectadores. Afinal, se não vemos muitos jornalistas negros na TV, a culpa é de quem? Já que eles continuam se formando nas universidades, mas raramente possuem papel de destaque nos telejornais. Num país que insiste em perpetuar o mito da democracia racial, o reconhecimento da existência do racismo parece incomodar. Enquanto o protagonismo estiver quase sempre nas mãos de brancos, a exclusão de jornalistas negros continuará presente na mídia e não haverá uma mudança social profunda.

 


"Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Afropress não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo."
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