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22/03/2017
O "Massacre de Sharpeville": sobre lutas e lugares
Elenízia Bernardes

É roteirista, mitóloga e produtora cultural

Ontem, 21 de março, comemorou-se o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial. A data, instituída pela Organização das Nações Unidas, em 1966, rememora o “Massacre de Sharpeville”, ocorrido em Joanesburgo, África do Sul, apenas seis anos antes, quando cerca de 20 mil manifestantes negros protestavam contra a Lei do Passe.  

Instaurada pelo sistema colonial britânico, no século 19, a Lei do Passe impunha aos cidadãos sul-africanos, de origem não europeia, a obrigação de portar, indeclinavelmente, um documento identificativo carimbado, nos moldes dos atuais passaportes, com autorização oficial atualizada, especificando os locais de acesso permitidos ao indivíduo em todo o território nacional.  Não apenas o trânsito livre: a Lei do Passe vedava também ao negro sul-africano o direito de fixar residência em áreas urbanas, ainda que menos nobres.

Naquela segunda-feira, 21 de março de 1960, aproximadamente 5 mil manifestantes reuniam-se em Sharpeville para a marcha organizada pelo Congresso Pan-Africano. Malgrado o protesto transcorresse pacificamente, tropas do Exército avançaram sobre os ativistas, deixando o saldo de 69 mortos e 186 feridos. O episódio terrível despertou, pela primeira vez, a atenção do civilizado mundo para os horrores do Apartheid.

Muito embora afrodescendentes constituam a maioria – quase 55% – da população, no Brasil, o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, omitido pelos livros pedagógicos e solenemente ignorado pelas mídias mais expressivas, dista milênios-luz de sagrar-se como data oportuna à ampliação de fronteiras tão prementes quanto literais. As demarcações existem. Indesmentíveis. Por esses dias mesmo, eu conversava com uma amiga branca que se autodefine como a defensora aguerrida de todas as causas humanitárias imagináveis. Falava-lhe que determinada expressão – a que ela se refere sempre como racista – em nada me agride.

Respondeu-me candidamente a amiga:

" – Ah, não agride você que tem instrução e grana, mas coloque-se no lugar da minha babá..."

O preconceito racial no Brasil veste-se de sutilezas e andrajos. Tão andrajosos e sutis que, por vezes, rudemente se escancara. Aterrador e imobilizante, posto que não se trata daquela agressão que, face a face, explode em violências. Ou daquela outra que se refugia no distanciamento das redes sociais, para emergir em covardia anônima e, inobstante, não menos criminosa. Falo do racismo de pessoas amigas. Sinceramente bem-intencionadas.

Pois sim!  É preciso reconhecer: todo ser humano tem avessos desconfortáveis. Nunca equacionados. Feios, até. Entretecidos com as memórias de todas as facetas de escravidão que o homo sapiens, nesses quase 190 mil anos de marcha sobre a Terra, foi capaz de conceber. A miséria é a nossa ossatura. Urge admiti-la. Inglória e, ainda assim, humana. Desconcertantemente humana.

Nossa miséria idealiza lugares para homens e mulheres. Para negros e brancos. Ajeita vidas em prateleiras, para tornar mais simples o acesso. Por fim, pune os que contestaram a “ordem” e atreveram-se a sair do “seu” lugar. Ou apenas o questionaram.

“– Coloque-se no lugar da minha babá...”

Parece empático e, nada obstante, é apenas a tradução do desconforto perante os negros e negras que ousaram sair dos guetos, para conquistar outros lugares ao sol.

“– O que você faz aí? Coloque-se no lugar da minha babá...”

Os muito ingênuos certamente recorreriam ao argumento:

" – Que mal há? Babá é uma profissão digna como tantas outras..." Isso é meia-verdade. Um bom leitor da realidade não ignora que o Brasil é o país com maior número de funcionários domésticos do planeta. Esse não é um fenômeno trivial. É ainda o ranço da escravocracia, visto que fomos o último país independente do continente americano a abolir, ao menos oficialmente, a escravatura. Babás são a versão atualizada e remunerada das antigas mucamas. Patrões suavizam a constatação incômoda, salientando que são “praticamente da família”. É certo, porém, que não idealizam para os próprios filhos o lugar da babá que lhes cuida.     

Relembrar Sharpeville é isso: repensar lugares. O que se crê deles. De seus limites e larguezas. O lugar como insígnia. Ou pecha. Segregação.

Repensar lugares é ainda repensar direitos. Também avessos. Sobretudo os da alma. Almas pelo avesso podem, por perversidade ou, mais comumente, por inconsciência, acuar vidas em lugares estreitos. Disparar preconceitos à queima-roupa. Constranger. Matar.            

  

   


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