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27/03/2017
Entrevista/Lázaro Ramos: “Sou muito feliz na pele em que habito”, diz ator
Da Redação

S. Paulo – O ator, diretor, escritor e apresentador, Lázaro Ramos, estréia nesta segunda-feira (27/03), no Canal Brasil, do Grupo Globo, a 12ª temporada do Programa “Espelho”, criado e comandado por ele e que já é o programa em formato de entrevistas cara a cara, mais longevo da TV por assinatura no Brasil.

No lançamento da temporada deste ano, no dia 17 de março passado, na sede da Globosat, no bairro paulistano dos jardins, o ator conversou com o jornalista Dojival Vieira, editor de Afropress sobre o programa.

Bem humorado, falou de como se sente, se dizendo “muito feliz na pele em que habita” e refletiu sobre desafios e dilemas dos negros brasileiros. “Eu acho que, às vezes, a gente usa o termo “os negros” como se todos nós tivéssemos uma só identidade, como se todos nós tivessemos apenas uma questão, uma angústia, uma vivência, e, por isso, tivéssemos apenas um caminho para solucionarmos os nossos problemas. Acho que a gente tem de conseguir amadurecer para entender que, mesmo dentro da comunidade negra, existem diferenças, divergências e experiências que fazem com que cada indivíduo negro tenha um modo de vida e, por isso, um modo de solucionar os seus problemas. Não somos uma só pessoa. A gente tem dores que nos unem, a gente tem alegrias e comportamentos que nos unem, mas a gente tem de ter direito também a esta humanidade. É muito cruel quando você exige de uma pessoa que, às vezes, não tem nem a sua casa resolvida que ela já tenha uma resolução, uma solução para solucionar os problemas do mundo. É cruel”, afirmou.

Casado com a atriz Taís Araújo, também da Globo, pai de duas crianças, disse viver um momento feliz. “Hoje em dia eu sou muito feliz na pele em que eu habito em todos os sentidos que essa frase pode ter. Encontrei a minha voz, que é uma voz que se preocupa em falar das minhas questões. E quais são as minhas questões? Eu sou um homem negro, eu nordestino que mora no Rio de Janeiro, sou pai de duas crianças, sou um pessoa pública. Tudo isso faz parte dessa minha voz e eu ocupo ela com muita alegria. Eu sei que a luta é árdua, que a luta é grande, que tem várias pessoas que não tem oportunidade de estarem felizes na pele em que habitam. E eu sei que eu posso contribuir com todas as causas. Mas, faço isso sempre querendo trazer mais pessoas para o debate. Eu não quero falar somente com quem pensa como eu. Eu quero falar também com quem pensa como eu, mas eu quero criar esse debate, quero que outras pessoas pensem nas questões sociais, políticas e culturais do meu país. Porque eu tenho tido provas de que a luta fica mais forte. Por isso é muito importante eu estar aberto também ao diálogo”, acrescentou.

Confira, na íntegra, a entrevista

Afropress – Lázaro, o que você apresenta de novo nessa nova temporada do Espelho

Lázaro Ramos – Opa, pois é, primeira coisa - 12ª segunda temporada. O Espelho se torna com essa temporada o programa em exibição de entrevista assim no formato cara a cara mais longevo da história da tv por assinatura. Isso é muito importante. Isso traz uma alegria mas, ao ao mesmo tempo, traz uma responsabilidade, que é a gente rever que estória a gente tá contando. Então, além de, estéticamente, ter mudado bastante. A gente trocou a fotografia do programa, a gente mudou a abertura do programa, a gente tem dois quadros novos; um quadro, que é o que inicia sempre o programa, com anônimos, onde eu fui prá rua e através de uma foto que eu pedia que eles me mostrassem, a gente começava a conversar sobre vários assuntos. E, a partir daí, esse primeiro 1,5m do "Espelho" é sobre paternidade, sobre maternidade, sobre solidão, sobre preconceito, sobre identidade, sobre o futuro.  Esse primeiro quadro é prá isso.

Na volta do intervalo a gente tem um quadro de indicação de livros com a especialista em literatura africana e afro-brasileira, Fernanda Felisberto, onde ela indica livros. E as entrevistas todas a gente buscou fazer entrevistas onde a tônica de todas elas era entender que momento a gente está vivendo no nosso país e sendo pautado por tudo aquilo que está nos inquietando, e sempre tentando provocar  um diálogo.

Então, a gente fala sobre tudo. Desde falar sobre paternidade com Jesuita Barbosa, a gente fala também sobre femininismo com a Iza ou Leandra Leal. As pautas são muito variadas, mas sempre tentando conversar sobre tudo aquilo que nos inquieta hoje.

Afropress –  Qual o balanço, Lázaro, que você faz do programa nessa 12ª temporada. Parece que o programa veio prá ficar, realmente se consolidou como um espaço, uma alternativa para o debate de temas a partir do nosso olhar, mas ampliando esse olhar, isso é uma coisa interessante e inovadora.

LR – É uma grande alegria, porque quando a gente começou, falava-se muito pouco na TV; na TV fechada, na TV aberta, então, pouco se falava. Hoje em dia vejo que essa pauta está permeando vários programas, muito por uma voz que vem da Internet, inclusive, de várias pessoas que estão pautando também  a TV aberta, a TV fechada, dizendo, “ah eu quero falar sobre esse assunto”.  Existe uma questão de representatividade na voz de quem fala que é importante a gente dar espaço. E o "Espelho", sim, humildemente falando, acho que, ao longo desses 12 anos, conseguiu ser o registro de um pensamento em formação, inclusive, a maneira da gente conduzir as entrevistas e selecionar os entrevistados, é sempre no lugar de ouvinte tentando entender e dar voz ao outro, uma voz que não era escutada num dado momento e que a gente ofereceu o microfone  e dizia “deixa eu ver seu ponto de vista do mundo”. É muito importante isso, assim a gente se entende. E o "Espelho", graças a Deus, é um dos maiores orgulhos que eu tenho.

Afropress – Eu lembro de um programa que você fez com o Criolo, foi muito marcante, porque o Criolo é uma figura extraordinária, um poeta, eu lembro que você se emocionou, inclusive ao entrevistá-lo pelas colocações que ele fazia. E uma das coisas, Lázaro, que nos chama a atenção, é exatamente, você; você tem uma identidade definida, tem uma postura definida, na TV, na sociedade, no  movimento com um todo. Me parece que você tem sempre a preocupação de buscar ampliar esse debate. Mesmo a questão do racismo, nós negros, no Brasil, somos a maioria da população brasileira, então, ao invés de fazer um debate reducionista a preto x branco, como se a questão fosse essa, me parece que a tua preocupação é também ampliar esse debate e entender que, na verdade, nós somos o Brasil...

LR - Na verdade, a minha preocupação é entender a complexidade dessa questão e não me colocar nunca como dono da verdade. Primeiro, venho de um processo em que durante um tempo  a minha voz foi silenciada. Hoje em dia eu sou muito feliz na pele em que eu habito em todos os sentidos que essa frase pode ter,  e encontrei a minha voz, que é uma voz que se preocupa em falar das minhas questões. E quais são as minhas questões? Eu sou um homem negro, eu sou um nordestino que mora no Rio de Janeiro, sou pai de duas crianças, sou um pessoa pública. Tudo isso faz parte dessa minha voz e eu ocupo ela com muita alegria. Eu sei que a luta é árdua, que a luta é grande, que tem várias pessoas que não tem oportunidade de estarem felizes na pele em que habitam. E eu sei que eu posso contribuir com todas as causas. Mas, faço isso sempre querendo trazer mais pessoas para o debate. Eu não quero falar somente com quem pensa como eu. Eu quero falar também com quem pensa como eu, mas eu quero criar esse debate, quero que outras pessoas pensem nas questões sociais, políticas e culturais do meu país. Porque eu tenho tido provas de que a luta fica mais forte.

Se eu escutar mais as mulheres para falar só do feminismo e entender as angustias delas, do jeito que elas querem ser tratadas, o jeito que elas querem ter sua voz escutada, eu vou está contribuindo muito, sabe? Por isso é muito importante eu estar aberto também ao diálogo.

Afropress – Lázaro, nós vivemos hoje um momento muito difícil no Brasil, um momento de polarização política exacerbada, um momento em que mesmo a nossa questão, a questão da nossa identidade e dos espaços que nós nos últimos 14 anos...

LR –... inclusive, até incluindo brigas internas, disputas internas.

Afropress -  Sim, também isso. Mas, retomando, a afirmação da identidade hoje é uma questão fundamental para o Brasil, para o brasileiro. Então, eu queria que você falasse um pouco sobre como é que você vê esse momento que nós estamos vivendo do ponto de vista de homens e mulheres negros brasileiros, da maioria da população brasileira, que vive certos dilemas que não estão resolvidos e ninguém tem a resposta pronta. Eu queria que você falasse um pouco sobre isso porque a gente vê muito em você uma voz independente, uma voz autônoma, uma voz qualificada, e uma voz que rejeita a vitimização como bandeira. É uma questão que a gente se debate bastante  Nós, sim, somos vítimas do racismo, mas a nossa postura não pode ser a da vítima histórica, porque também o papel de vítima é muito cômodo, o papel de vítima é de vítima, nós somos vítimas de uma situação histórica. Mas, você não acha que é chegado o momento de o povo brasileiro se assumir na sua identidade negra que nós somos, e, portanto, pararmos de falar, aquele discurso da minoria, sabe?,da comunidade negra, nós não somos uma comunidade simplesmente, nós somos a maioria do povo brasileiro. Como é que você transita por esses temas?

LR – Eu vou te dizer uma coisa que talvez te contrarie um pouco. Eu acho que, às vezes, quando se está falando da questão negra e da militância, e acho, inclusive, que todo mundo se dá o direito de ditar alguma regra com relação a tudo aquilo que diz respeito à causa negra, todo mundo dá opinião, todo mundo tem um adjetivo para falar sobre, e eu vou fazer uma reflexão aqui junto com você.

Primeiro, eu acho que as vezes a gente usa o termo “os negros” como se todos nós tivéssemos uma só identidade, como se todos nós tivéssemos apenas uma questão, uma angústia, uma vivência, e, por isso, tivéssemos apenas um caminho para solucionarmos os nossos problemas. Acho que a gente tem de conseguir amadurecer para entender que, mesmo dentro da comunidade negra, existem diferenças, divergências e experiências que fazem com que cada indivíduo negro tenha um modo de vida e, por isso, um modo de solucionar os seus problemas. Isso é uma questão. Isso é uma coisa que me incomoda um pouco.

Portanto, o que estou querendo dizer é que, eu não sou contra nem um negro que tem o discurso como vítima, nem um negro que tem um discurso que está já no caminho de buscar uma ação mais prática para solucionar o seu problema. Porque, às vezes, o negro é vítima sim, e sua dor faz com que ele se sinta e só consiga falar deste lugar. A gente tem de respeitar isso também. A gente tem, inclusive, de respeitar aquele negro que não quer se colocar como vítima e dizer “eu sou um negro em movimento e eu vou lutar e eu quero ações práticas etc”. Isso é um ponto que a gente precisa debater, inclusive, dentro da comunidade negra. Não somos uma só pessoa. A gente tem dores que nos unem, a gente tem alegrias e comportamentos que nos unem, mas a gente tem de ter direito também a esta humanidade.  É muito cruel quando você exige de uma pessoa, uma pessoa que, às vezes, não tem nem a sua casa resolvida que ela já tenha uma resolução, uma solução para solucionar os problemas do mundo. É cruel.

Eu estou fazendo aqui uma reflexão que está sendo provocada, inclusive, pelo momento cultural. Quando você vai ver um filme como “Moon Light”, que é um filme que ganhou o Oscar, que fala de um homem negro que estava o tempo todo tendo que provar a sua masculinidade, provar que ele era possível, sem aceitar a sua condição gay, sem conseguir encontrar parceiros, pessoas para conversar com ele, para ter o toque, para ter o afeto, é um dado de que é importante a gente buscar essa humanidade também.

Assim, uma coisa que eu vejo e que, prá mim, um pouco é consenso, claro que não está solucionado. Claro que ainda as pessoas de tez escura são maioria nos presídios, nas favelas, nos manicômios, e essa uma situação que não pode ser naturalizada. Mas eu acho que a arma e o caminho não são um só.  Teorizei prá caramba, vai dar prá botar essa resposta toda? Impossível... (risos).

Afropress – Finalizando, Lázaro, aponte caminhos, alternativas...

LR – Caminhos e alternativas? Há uma frase que eu adoro dizer: Seu lugar é onde você sonhar estar. Acho que a gente precisa sonhar e ir atrás dos nossos sonhos.

Afropress – Obrigado, Lázaro. Um abraço prá você.

 

 

   

 


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