29 de Abril de 2017 |
Última atualização :
Comentamos
Benedita da Silva denuncia declarações racistas/nazistas de Jair Bolsonaro em clube judaico
04/04/2017
PT: de estrela radiante à luz de lamparina
Edson Cadette

É correspondente de Afropress em Nova York

Queens, Nova York – Quando o Partido dos trabalhadores (PT) surgiu no início dos anos 80 nos suspiros finais do militarismo brasileiro, o entao presidente Ernesto Geisel dava sinais claros de que o sistema de governo instaurado com o golpe de Estado de 1964 não tinha mais gás e tampouco força suficiente para continuar mantendo a mordaça das Forças Armadas na sociedade civil no maior país da América Latina.

O Brasil clamava por uma abertura politica, o que veio a acontecer em 1979 com a anistia. Apesar de que alguns menos avisados (a classe média branca) insistia que o governo militar não tinha sido assim tão nefasto como pregavam as famílias dos desaparecidos durante o regime. Esta mesma classe média pensa o mesmo sobre a escravidão no país. Afinal de contas, durante este período a economia crescia, em média, 7% ao ano, o que fez surgir o termo milagre econômico-brasileiro.

O PT surgiu de uma coligação entre os trabalhadores metalúrgicos do ABC, militantes contra o regime militar, intelectuais e artistas locais de esquerda;  juntamente com os que estavam regressando ao Brasil depois de anos no exilio, e tambem da igreja Catolica. Muitos destes repatriados sofreram torturas nas maos do regime militar, incluindo ai a ex “presidenta”, a senhora Dilma Rousseff.

À principio, a grande verdade é que os trabalhadores metalúrgicos queriam melhores condições de trabalho nas montadoras automobilísticas multinacionais. Eles estavam mais preocupados em manterem seus empregos e salários para lutarem contra a inflação galopante do que realmente a criação de um partido politico. Acreditar que esta massa de trabalhadores tinha alguma consciência política e o surgimento de um partido politico saindo de suas fileiras foi o desdobramento natural desta consciência é desconhecer a formação da história brasileira.

Os sindicatos, que até o golpe de 1964 não passavam de uma extensão do Estado, tendo seus diretores escolhidos a dedo pelo Ministro do Trabalho, foram dissolvidos pelo regime militar que depois do golpe práticamente aboliu qualquer assembleia sindical.

Com o ressurgimento do movimento sindical organizado em São Paulo, na segunda metade dos anos 70, mais precisamente nas cidades de Santo André, São Bernardo e São Caetano (ABC), sob o comando do astuto sindicalista Luis Ignácio Lula da Silva, o Lula, as greves orquestradas pelos sindicalistas entre os anos de 1978 e 1980 mostraram um movimento sindical novo, com um poderio de barganha até então sem precedentes no país. Não só o Brasil, mas o mundo  voltava seus olhos para as cidades do ABC de São Paulo onde se encontravam as grandes montadoras norte-americanas de automóveis.

A princípio, este novo movimento tinha a intenção única de tratar de politica à nível sindical. Porém, influenciados tanto pelo movimento sindical da esquerda quanto pelos comunistas, e tendo como referência o PCB, a sequencia “natural” para os sindicalistas foi a criação de um partido voltado para as classes trabalhadoras.

O PT surgiu rejeitando os líderes do sindicalismo oficial e com isto tentava criar uma nova forma de socialismo democrático não simpatizante com doutrinas mais conservadoras de países como a China, a União Soviética e tambem Cuba. Afinal de contas estávamos abaixo do Equador e certos traços culturais certamente mais “calientes” pediam uma doutrina socialista mais “light”.

Vale a pena recordar tambem que o PT nasceu, literalmente falando, não nas fábricas do ABC, mas sim dentro de uma das escolas católicas mais tradicionais de São Paulo, o Colégio Sion, que fica localizado no bairro de Higienópolis, região central de São Paulo. Em outras palavras, em  1982 quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) reconheceu o Partido do Trabalhadores como um partido político, os metalúrgicos estavam trabalhando em suas fábricas enquanto intelectuais como o crítico de arte Mário Pedrosa, o acadêmico Antonio Cândido, e o historiador Sergio Buarque de Hollanda, recebiam suas carteiras de primeiros membros do partido. Os metalúrgicos fizeram as greves, mas a concepção do partido foi feita por uma classe média alta burguesa e branca. Para não falar elitista. Mas o mito de um partido do povo estava criado.

Por mais de 25 anos, o PT não só abocanhou vitórias importantes na política em cidades como Sao Paulo, Fortaleza, Belo Horizonte e Goiânia, mas tambem em Estados como Rio Grande do Sul, Espirito Santo e tambem o Distrito Federal. Sua popularidade entre os mais jovens tambem foi crescendo a medida que o partido lutava batalhas sérias contra a corrupção, contra políticos conservadores e inescrupulosos, contra instituições financeiras como o Fundo Monetário Internacional (FMI), contra o imperialismo norte- americano, contra um inflação galopante que sacrificava milhões de brasileiros, e o mais importante, contra uma elite econômica, politica e intelectual altamente insensível com o que se passava nas camadas mais miseráveis da população brasileira.

Esta era a suposta bandeira que o PT defendia com todas suas forças até o momento em que seu representante maior, Luis Ignacio da Silva, depois de 4 disputas presidenciais, finalmente chegava a Presidência, e ao commando da maior economia da América Latina.

Depois de uma avassaladora vitória de norte a sul nas eleições de 2002, o PT tornava-se governo. Finalmente alguém do povo, alguém que representava os milhões de destituidos chegava ao poder. Para essa massa de adoradores, nao importava se o candidato eleito tinha as qualificações necessárias, ou as visões necessárias para capitanear o Brasil. O importante para milhões de pessoas era que alguem das camadas mais baixas da população tinha chegado lá. Lula, o salvador da pátria iria finalmente endireitar um país que, até então, era dirigido por uma elite insensivel, corrupta, desonesta e conservadora.

Com Lula o Brasil iria dar um salto qualitativo e passaria finalmente fazer parte do pequeno grupo de países de primeiro mundo e com isto elevando o padrão de vida desta massa até então esquecida. Um “pequeno” detalhe foi esquecido nesta esperança: Lula jamais tinha tido um cargo público ou tinha conhecimento de como a máquina pública funcionava, ou quais os tipos de barganhas teriam que ser feitas para uma agenda governamental ser implementada. Assim como Midas que tranformava tudo em ouro com suas mãos, Lula tranformaria o Brasil com seus berros, neologismos e chulismos infantis.

Uma pessoa com o ensino fundamental, e que não gosta de leitura, com pouco ou quase nenhum conhecimento histórico mundial, ou até mesmo do Brasil, com toda certeza não tem as qualificações necessárias para ser um grande estadista, ou pelo menos um bom presidente. Dirigir uma nação com as dimensões e diversidade brasileira é completamente diferente de ser um líder sindical. Por mais efetivo que ele possa ter sido como sindicalista. A massa de eleitores que depositara sua “fé” no presidente eleito certamente não estava preocupada com estes e outros detalhes.

Assim como esta massa também não estava preocupada com o legado histórico brasileiro, em outras palavras: a escravidao que, deixava sua marca na invisibilidade de mais da metade da população negra brasileira.                                                                                                                          

Durante os primeiros 4 anos do governo Lula, o lider petista fez alianças com o que  havia de mais retrógrado, atrasado e corrupto na máquina pública. Alianças com politicos que estavam mais preocupados em manterem o status quo do que realmente fazer uma mudança radical não preocupava o presidente empossado.

Neste mesmo período maracuataias aconteciam por trás dos bastidores. Com dois anos de governo, o PT enfrentava o escândalo da compra de votos que viria a ser conhecido como o mensalão. Mesmo com este escândalo o país crescia por causa da liquidez que havia no mercado internacional, e a alta valorização das “commodities”. A equipe econômica acenava sempre com medidas que certamente atraíram o capital estrangeiro e acalmaram o mercado financeiro internacional.

País afora ouvia-se que na política era assim mesmo. Não se pode fazer politica sem corrupção. Lula seguiu fazendo conchavos sem se preocupar em mudar o status quo. Seu esbravejamento durante as investigações do mensalão era só fachada. O presidente navegava na sua altíssima popularidade.  A estatal mais valiosa do Brasil, a Petrobrás, seguia com sua estrutura intacta distribuindo propinas das receitas para financiar campanhas políticas para o partido do governo, e tambem parcerias dúbias com empresas privadas.

Milhões eram gastos em propaganda ofical. O BNDES distribuia empréstimos subsidiados às empresas corruptas, mas que simbolizavam o crescimento econômico. O crédito fácil e a expansão desenfreada do consumo ajudaram a criar um bolha falsa de país de primeiro mundo.  A população mais pobre teve acesso a crédito fácil, os miseráveis começaram a receber o programa Bolsa Família aumentando ainda mais o consumo, milhões de estudantes, finalmente, tiveram acesso ao ensino superior por causa das ações afirmativas. Todos programas sociais altamente elogiáveis, mas de alto custo para o corrupto Estado brasileiro.

Durante oito anos a economia brasileira esteve aquecida. Entretanto, o arcabouço brasileiro era mantido. Em outras palavras: o jeitinho brasileiro de corrupção continuava intocável. Mudanças na constituição para frear o aparecimento de partidos jamais entrava na pauta governista. Mudança no ultrapassado Código Penal jamais era discutido sériamente. Desoneração fiscal nem pensar. Enxugar o funcionalismo público e torná-lo mais eficiente sequer era trazido a mesa do presidente. Neste último, pelo contrario, mais ministérios foram criados, como, por exemplo, a ineficiente Secretaria com o status de ministerio, SEPPIR.

O importante para o novo presidente era que o país crescesse para mostrar ao mundo, segundo suas palavras, que o Brasil a partir de agora deixaria de ser um país vira-lata. Até mesmo a eterna dívida externa junto ao FMI acabaria sendo paga para delírio do governo e dos petistas.

Lula foi reeleito com esta euforia em 2006. Parecia que o Brasil estava a caminho do “shangrilá” econômico. A quinta economia do planeta macroeconômicamente falando agora era respeitada. O Brasil torna-se tambem o líder dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China). A cereja deste bolo enfeitado com chantily foi a escolha do Brasil para sediar dois mega eventos esportivos: a Copa do Mundo(2014), e as Olimpíadas (2016).

Porém, nuvens cinzentas estavam se aproximando. Elas chegaram em 2008 com o tsunami financeiro que teve inicio nos EUA. A crise levou milhões desespero ao redor do mundo. Fortunas e popupanças foram perdidas. Enquanto isto no Brasil, o presidente Midas não deu bola. Não só ele não apertou o cinto econômico, como brincou com o que estava acontecendo dizendo que no Brasil chegaria somente uma marolinha. A reputação do presidente Lula na época era tão grande que, até mesmo o presidente norte-americano, Barack Obama o chamou de “O Cara”.

Ainda sob sua alta popularidade, principalmente entre as camadas mais populares (e certamente menos informadas politicamente falando), o ex-presidente Lula conseguiu eleger sua candidata a presidente Dilma Rousseff em 2010, mesmo sob suspeita dela ter sido bastante incompetente como ministra das Minas e Energia e tambem presidente de diretoria da maior estatal do país, a Petrobras.

Entre 2003 e 2010 quando esteve a frente da a estatal, a Petrobrás foi lesada em mais de US$ 2 bilhoes de dólares em negociatas feitas com pagamentos a firmas de engenharia, a empreiteiras, a executivos, a marqueteiros (Marcos Valério), e a partidos politicos incluindo o próprio PT. A compra de uma refinaria em Pasadena na California foi emblemática mostrando a ineficiência de Dilma Rousseff como gestora.

Com todos estes escândalos pairando sob sua cabeça Dilma Rousseff conseguiu reeleger-se. Estava claro que sua reeleição foi articulada por Lula com o dinheiro da Petrobrás. Ela jamais deixou de comer em suas mãos. Nunca teve erros e acertos próprios à frente do governo. Isto ficava evidenciado a cada crise enfrentada pelo seu governo quando telefona para Lula para conferir com o patrão. Sempre pairava no ar uma suposta volta de Lula ao comando do país. Algo negado veementemente pelo ex-presidente.

Depois de uma disputa com direito a segundo turno Dilma Rousseff foi reeleita em 2014. Entretanto, todas as maracutaias, maquiagens e mentiras que eram defendidas pela “presidenta” e o seu partido começaram a aflorar. O crescimento estupendo dos anos Lula tinha ficado para trás. Um ano depois de assumir o governo pela segunda vez Dilma Rousseff enfrentou um protesto de norte a sul do país. De lá pra cá foi uma ladeira abaixo. Recessão forte, inflação alta, corrupção e escândalos políticos seguiam torpedeando a presidente. Dilma Rousseff já não tinha mais como comandar o país. Em 2016 foi retirada da presidência com um “impeachment”.

O triste final de um partido que surgiu para mudar a política e questionar o “status quo” aconteceu com as investigações da "Operação Lava Jato" envolvendo crimes como: corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo o tesoureiro do PT, Joao Vaccari Neto, e sua cunhada. Nesta Opeação ainda estavam envolvidos Jose Genoíno, Jose Dirceu, Delcidio do Amaral que acabaram sendo presos.

Menos de 40 anos de sua formação, o PT vai afundando envolvido naquilo que foi a razão de seu aparecimento. Em outras palavras: lutar contra corrupcao, desonestidade, enrequecimento ilicito, e o uso da máquina pública para perpetuar politicos desonestos no poder a qualquer custo. O brilho da estrela se apagou.

 

 

 

 


"Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Afropress não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo."
Artigos Relacionados
O "Massacre de Sharpeville": sobre lutas e lugares
Barack Obama: sim, nós conseguimos!
Agonias em avalanche
Carnaval e neo qualquer coisa triste
Twitter
Facebook
Todos os Direitos Reservados