22 de Outubro de 2017 |
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16/05/2017
Entre mim e o mundo
Edson Cadette

É correspondente de Afropress em Nova York

Nova York/EUA - Ta-nehisi Coates, no seu brilhante e ao mesmo tempo pertubador livro “Entre mim e o mundo”, publicado em 2015 pela editora Spiegel & Grau, toca num assunto bastante polêmico. A formação dos Estados Unidos, seus mitos, e seu relacionamento com os cidadãos afro-americanos desde a chegada destes acorrentados nos tumbeiros que chegaram na cidade de Jamestown na Virgínia (sul) no começo do século XVII.

“Entre mim e o mundo” e o manifesto de um jovem, escrito para seu filho Samori, sobre a vida dos afroamericanos e suas constantes lutas em tentar manter suas mentes e, especialmente, seus corpos intactos num país que até hoje não reconhecece totalmente a humanidade dos negros.

Ta-nehisi Coates cresceu na cidade de Baltimore (Norte) durante as duas décadas da chamada “guerra” contra as drogas (anos 70 e anos 80). A primeira ”guerra” aconteceu nos anos 70 durante as presidências de Richard Nixon e Gerald Ford. A segunda, nos anos 80, durante a presidência de Ronald Reagan. As duas administrações almejavam especificamente os afroamericano e latinos e consequentemente suas comunidades. Entretanto, estas mesmas administrações foram bastante lenientes em relação aos brancos dos ricos subúrbios com o mesmos problema.

Os anos 70 e 80 viram um tremendo êxodo de cidadãos deixando os grandes centros urbanos em direção aos subúrbios (os subúrbios nos EUA são sinônimos de riqueza) levando com eles as receitas monetárias e deixando com isto  um enorme vácuo na vitalidade e vibração das cidades por todo país. O preço deste êxodo ainda hoje pode ser sentido nas áreas urbanas de cidades como Chicago, Ferguson, Los Angeles, Baltimore, Newark etc.

Quando criança ele testemunhou um dos seu amiguinhos mostrar um revólver. Ele viu tambem varios de seus amigos morrerem antes de tornarem 18 anos. Enquanto crianca, Ta-Nehisi sempre foi curioso, mas sentia que a escola nao encorajava esta caracteristica sua. Na sua opiniao, o papel da escola era tornar alunos subservientes ao poder do Estado. A escola segundo ele nunca explica o que acontece com os alunos que desitem do ensino medio. “Aproximadamente 60% de todos os jovens negros que desistem do ensino medio irao parar na cadeia. Isto deveria ser uma desgraca para o pais… as escolas nao revelam a verdade, elas as escondem”. Ele afirma.

Lendo “Entre mim e o mundo” e possível perceber grupos de familias negras “aprisionadas” em certas partes especificas das cidades tentando deseperadamente criar seus filhos no meio de todos os elementos do caos urbano. Das casas fechadas com tapumes, do desemprego, da violência doméstica, violencia policial, drogas, gravidez precoce; não falando dos olhares críticos dos suburbanos dentro de seus lares confortáveis.

Este meio ambiente certamente deu uma clara visão não somente sobre sua cidade, mas tambem sobre a América branca. Segundo ele sua comunidade, o “sonho” não era ter uma casa no subúrbio com a grama da entrada aparada, casinhas montadas nas árvores, piscinas ou férias na Europa. Para sua comunidade, o “sonho” era tentar manter o corpo negro intacto, em outras palavras, não ser morto por alguem dentro da comunidade, ou pela polícia.

Seu primeiro despertar sobre a importancia do seu corpo e a dor que o Estado poderia infligir nos corpos negros veio de uma surra de cinta dada por seu pai. De acordo com seu pai, a razão que ele estava usando o cinto era para mostrar seu verdadeiro amor. Porém, o mais importante era mostrar para seu filho que era melhor ser castigado em casa e estar vivo do que ser punido pela polícia e estar morto.

Ta-Nehisi tenta explicar a seu filho que as mortes de afroamericanos nas mãos da policia ou como no caso do jovem Trayvon Martin (assassinado por um vigilante dentro de uma comunidade na Flórida) não são acidentes. Suas explicações a respeito das mortes de Eric Garner e Michael Brown são bastante emotivas.

Ta-Nehisi Coates se formou pela Universidade Howard, conhecida por ser a meca por causa de seus ex- estudantes. Ele menciona alguns deles e a importância que tiveram dentro do país. Charles Drew, Amiri Baraka, Thurgood Marshall, Ossie Davis, David Dinkins, Toni Morrison e Kwame Ture. Ele nos diz como se sentiu em casa lendo todos os tipos de livros e como o ativista Malcolm X transformou sua visão sobre os EUA.

Entretanto, seu livro favorito na época era “A Destruição da Civilização Negra”  escrito por Chancelor Williams. O livro mostrou ao jovem Coates que a história não pertence somente ao mundo Ocidental branco. Numa passagem interessante do livro ele cita o escritor judeu Saul Bellow explicando como o escritor ajudou a perpetuar o mito que os negros não contribuiram em nada para a civilização.

Durante seu tempo na universidade visitou muitos lugares. Ele nos diz sobre algumas de suas namoradas. Quando deixou Howard ele ja era um escritor. Ta-Nehisi queria ser tão bom quanto aqueles “jazzman” que ele tanto escutava. Ele queria mostrar as pessoas que era capaz de escrever tão bem quanto aqueles escritores brancos norte-americanos. A meca foi uma grande educação. Ele estava pronto para o mundo.

Um dos argumentos mais persuasivos do livro é quando o autor fala com seu filho sobre seu país. Ele tenta mostrar ao seu filho que apesar de todas as dificuldades, os EUA ainda são um grande país. Ele quer que seu filho atinja o maior de seu potencial. Para o escritor somente nos EUA seu filho terá a capacidade de atingir seu sonho.

O interessante neste livro é o fato de que Ta-Nehisi Coates nunca disse a seu filho que os EUA era um país tão racista que como uma pessoa negra ele sempre estará na base da pirâmide social não importanto o quanto você lute para mudar sua situação. Pelo contrário, Ta-Nehisi Coates quer que seu filho aprenda sobre a história da America e use este conhecimento para atingir seus sonhos.

“Entre mim e o mundo” deveria ser lido por todos aqueles que pensam que a eleição de Barack Obama trouxe um fim a discussão sobre a disparidade racial nos EUA. Este livro deveria ser lido pela nova geração pega na falsa impressão que o país agora está vivendo numa sociedade pós-racial.


"Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Afropress não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo."
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