22 de Outubro de 2017 |
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IV Conferência Regional de Igualdade Racial da Região Metropolitana da Baixada Santista
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04/06/2017
Sujeitos da história ou peças de marketing?
Dojival Vieira

É Advogado, jornalista e editor responsável pela Afropress

A crise política e econômica, que se aprofundou com a delação dos "friboi brothers" (os donos da JBS) e ameaça desembocar na cassação da chapa Dilma/Temer (o julgamento está marcado para esta terça-feira, dia 06/junho), fez desaparecer, até mesmo das redes sociais onde eram bastante ativos, os representantes do movimento negro partidário.

Entidades como a CONEN (Coletivo Nacional de Entidades Negras), que reúne lideranças filiadas ou próximas ao PT, e a UNEGRO (União de Negros pela Igualdade), criada pelo PCdoB para reunir seus simpatizantes, engolidos pela crise, simplesmente desapareceram da cena politica. 

Transformados em símbolos de uma inclusão simbólica, frequentadores assíduos das cerimônias de beija-mão no Palácio do Planalto, tais entidades (ou organizações como alguns se autoproclamam) monopolizaram a Seppir e a Fundação Palmares durante os 13 anos de governos do lulopetismo. Pautados pelos partidos de quem sempre estiveram a serviço, não reagiram sequer a perda desses espaços, após o impeachment  de Dilma, a presidente que ajudaram a eleger.

Assistiram passivamente a derrocada da pasta reduzida a mera secretaria com recursos igualmente simbólicos no orçamento. Também silenciaram quando Temer designou a desembargadora baiana Luislinda Valois para o Ministério dos Direitos Humanos. 

Valois, filiada ao PSDB e candidata por esse partido na Câmara Federal, não disse a que veio, a não ser pela desastrada declaração em que nomeia Temer – o presidente tampão, as vésperas de deixar o Palácio (todos os sinais indicam que o único setor de quem tinha algum apoio, o mercado, discute abertamente sua substituição) – “padrinho das mulheres negras brasileiras”.

A declaração, de tão bizarra, foi recebida com ironia por alguns poucos, porém, a grande maioria preferiu o silêncio, seja por uma espécie de corporativismo de cor (sim, ainda há quem defenda que um negro não pode criticar outro publicamente sob o esdrúxulo argumento de que isso é "fazer o jogo dos brancos"); seja porque muitos ainda se lembram, constrangidos, das vexatórias cenas de beija-mão explícito, com que Dilma “coração valente” e seu antecessor eram brindados em palácio.

De tudo que se vê nesses dias de perplexidade e turbulência política, há conclusões inescapáveis para qualquer ativista com um mínimo de honestidade intelectual:

1) a política de igualdade racial adotada pelos governos do lulopetismo não passou de mais uma fraude para iludir incautos e a sua própria militância, acomodada convenientemente nos “puxadinhos do Estado a ela reservados. Tais políticas, que se mantém sob a direção da atual direção da Seppir, não tem qualquer eficácia para reduzir o abismo de desigualdade em que se encontra a maioria da população brasileira, que é preta e parda, vale dizer negra - 50,7%, segundo o Censo do IBGE 2010 e cerca de 53%, de acordo com a mais recente PNAD (Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio).  

São só "para inglês ver", como as politicas adotadas no final do século XIX que antecederam a Abolição para satisfazer as pressões da Coroa inglesa interessada em expandir o mercado do trabalho assalariado. 

2) não faz qualquer sentido adotá-las, sem que se supere essa patologia que é o racismo, elemento estruturante da desigualdade social brasileira, a não ser como álibi para obtenção de generosos financiamentos da Fundação Ford, para certos porta-vozes que costumam falar em nome de negros brasileiros em fóruns internacionais.

E as razões são fartas e variadas.

O que significa exatamente a defesa da igualdade racial? Aos negros brasileiros interessa esse tipo de igualdade, sem que se enfrente e se supere a chaga do racismo? Considerando que os não negros estão no topo da pirâmide, queremos a eles nos igualar?

Ou o que estamos dizendo é, precisamente, o contrário? Na verdade, o que queremos é o direito à diferença para que se possa avançar para a conquista da igualdade de oportunidades, a igualdade material, que hoje só existe no plano formal, na clássica fórmula de todos são iguais perante a lei, a vigente até mesmo nas constituições sob o escravismo, 1.824, por exemplo. 

Se é de equidade que falamos, então, que se descarte o mantra da igualdade racial, que além de equivocado, por pretender nominar coisa distinta, nada quer dizer: foi apenas biombo conceitual dos que, nos últimos governos, reduziram os negros a condição de peças para o marketing político.

Os defensores do mantra da igualdade racial, palavra de ordem dos governos do lulopetismo, mantida pela atual direção da Seppir sob Temer, é fonte de equívocos: a equidade que queremos – a igualdade de oportunidades, a igualdade no plano material e não apenas formal – passa pela redefinição do caráter e da natureza desta República que se ergueu e se mantém sob os escombros do escravismo.

O resto é marquetagem, que só serve para dar ares de solenidade a palavras vazias, frequentemente repetidas com pompa por uma militância despolitizada e sem censo crítico, ou por racialistas que tentam ignorar a contradição fundamental em qualquer sociedade capitalista, que opõe, de um lado, os donos do capital, e de outro, os que detém só sua força de trabalho, confundindo luta de classes em luta de negros x brancos.  

 


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