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22/06/2017
Surfando pela liberdade
Adrian Kojin

 

Adrian Kojin é jornalista especializado em surf e o artigo é a primeira colaboração sua para a Afropress

Você sabe quem foi o primeiro surfista negro da história? E que devido a cor da sua pele Nick Gabaldon tinha que remar 20 km, ida e volta, para poder surfar em Malibu na virada dos anos 50?

Em junho de 2013, para conferir a chegada de uma grande ondulação massiva se aproximando do quadrante sul, me desloquei de Santa Monica até Malibu percorrendo, entre os dois legendários piers do litoral californiano, 11,7 milhas ao longo da Pacific Coast Highway. 

Como era final de tarde, antes de sair de casa na Euclid Street, a poucos quarteirões da Santa Monica High School, onde meu filho estudava, fui conferir o tempo estimado para chegar a Malibu, pois queria ter certeza que ainda haveria luz suficiente, e fiquei sabendo também a distância exata.

No sentido norte, servindo como rota de escape da área metropolitana de Los Angeles, a PCH costuma ficar bem congestionada no horário do “rush” vespertino. Mesmo assim, resolvi enfrentar o trânsito carregado. Minha intenção não era nem a de surfar, já que o swell estava previsto para entrar com força total durante a madrugada, quando eu pretendia estar me deslocando para Trestles, como o intento de ver o amanhecer de dentro d’água. Se desse tempo para curtir um pôr do sol bonito em Malibu, checando as primeiras linhas no horizonte, já ficaria satisfeito.

Mas não demorou muito para que, chegando em Malibu, eu me arrependesse de não ter trazido a prancha e a roupa de borracha. Mesmo sabendo que restava pouco menos de meia hora antes de escurecer, bastou ver uma série despontando no outside para dar vontade de estar remando em direção a ela, virar embaixo do pico, entrar na onda e deslizar rumo à praia numa daquelas longas direitas.

O problema iria ser conseguir pegar uma no meio daquele crowd assustador, não só pelo excesso de pessoas na água, mas mais ainda pelo comportamento caótico do que aparentava ser um aglomerado de surfistas sem nenhuma noção do que estavam fazendo, visto o número de pranchas quicando e se embolando na espuma a cada tentativa de três, quatro ou até cinco deles droparem a mesma onda juntos.

Superado o impulso inicial, tranquilizado com as possibilidades do dia seguinte, fiquei ali na beira observando enquanto o sol desaparecia no mar. Máquina fotográfica em punho, fui registrando uma ou outra cena, sem que nada realmente me chamasse a atenção. Até avistar um surfista negro saindo da água.

Mais do que acostumado a ver surfistas negros, mulatos e de todas a matizes de cor que a pele do ser humano pode ter, no Brasil e viajando ao redor do mundo, ali, naquele momento, aquela cena me causou certa estranheza, como se estivesse presenciando algo fora do comum, excepcional mesmo.

Foi ai que me toquei que eu nunca tinha me deparado com um surfista negro na Califórnia. E isso levando em conta que, somando meu tempo vivendo ou visitando, eram mais de cinco anos frequentando as praias do chamado Golden State.

Com a foto do surfista negro anônimo guardada no memory card, retornei para casa intrigado com o assunto. Justamente naqueles dias eu havia recebido o convite para escrever uma matéria para a edição de aniversário da FLUIR de 30 anos, e como decidira que o tema seria o estilo de vida dos surfistas da Califórnia, anotei o ocorrido como algo a ser mencionado no texto. Acabou que, no corte final, não entrou, mas saiu a foto com a legenda “raridade, um surfista negro, em Malibu”.

O episódio ficou esquecido e não me lembrei mais dele até tomar conhecimento da surpreendente trajetória de Nick Gabaldon. Para a estreia desta coluna, publiquei um texto intitulado “Quem é o segundo surfista mais influente da história?” Os leitores mais atentos irão lembrar que reproduzo duas listas encontradas na internet, uma do site especializado em esportes de ação Mpora e outra do site Inertia, em que Gabaldon aparece como um dos surfistas mais influentes da história, respectivamente na 20ª e 6ª posições. Como assim? Por mais absurdas e discutíveis que possam ser essas duas listas, eu teria que ao menos já ter ouvido falar deste surfista.

Novamente surfando nas ondas da internet, descubro que Nick Gabaldon entrou para a história do esporte como o primeiro surfista negro de que se tem registro. E que para poder surfar em Malibu na virada dos anos 40 para os 50, ele remava 12 milhas, ou 20 quilômetros, desde a única praia da época onde era permitida a presença de negros, a “Ink Well Beach”, também conhecida como “Negro Beach”, em Santa Monica. E voltava, também remando. Exatamente o mesmo trajeto que eu fizera, no conforto do meu carro, em 2013, e que me conduzira a observar pela primeira vez um surfista negro em praias californianas.

Como não poderia deixar de ser, o interesse pelo assunto, casualmente despertado naquele final de tarde e depois esquecido, voltou com força total. Quem sabe poderia render até uma boa coluna.

E de fato, a curta – ele morreu aos 24 anos de idade, ao se chocar contra as pilastras do píer de Malibu surfando um swell de 8 pés - mas marcante vida de Gabaldon, é assunto para muito mais que uma coluna, tendo servido de inspiração para várias matérias, artigos e dois documentários que merecem ser assistidos, “White Wash”, do diretor Ted Woods, de 2011, e “12 Miles North: The Nick Gabaldon Story”, do diretor Richard Yelland, de 2012, produzido com patrocínio da Nike. “White Wash”, narrado por Ben Harper e com depoimentos de famosos surfistas brancos como Kelly Slater e Rob Machado, é mais abrangente e discute a fundo as razões que fazem com que sejam tão poucos os negros surfando nos Estados Unidos.

Imagens revoltantes mostram brancos expulsando negros das praias na porrada, com o apoio da polícia brandindo cassetetes contra eles. O filme muito propriamente lembra que apesar do estereotipo do surfista branco, de cabelos loiros e olhos azuis, difundido mundo afora, os havaianos inventores do surf tinham a pele escura.

Já “12 Miles North: The Nick Gabaldon Story”, que pode ser assistido no link (https://www.youtube.com/watch?v=4p4a69jGifw), como o próprio título indica, se concentra na saga do nativo de Los Angeles, nascido em 1927, meio negro, meio latino.

Graduado pela Santa Monica High School, ele se iniciou no surf pegando onda de peito e depois utilizando pranchas emprestadas por salva vidas, entre eles o lendários surfistas Pete Peterson e Buzzy Trent. Com depoimentos de outros grandes nomes do esporte frequentadores de Malibu, o epicentro do surf na Califórnia à época, como Mickey Muñoz e Ricky Grig, fica claro que entre os surfistas Gabaldon era admirado e estimado por suas habilidades sobre uma prancha e personalidade cativante.

Segundo vários dos testemunhos, Nick era um excelente surfista que lembrava muito, no porte, postura e cor da pele, o havaiano considerado o pai do surf moderno Duke Kahanamoku. Muitos frequentadores da praia o tomavam por havaiano também.

E se inicialmente ele remava quase que diariamente as doze milhas entre Santa Monica e Malibu, impressionando a todos com suas estamina e disposição, com o tempo os surfistas brancos que frequentavam a praia passaram a lhe dar carona. O que confirmava sua aceitação no grupo, que ao contrário do que acontecia em outras praias do país naqueles tempos, em nenhum momento se opôs à presença de um negro em território considerado restrito a brancos.

Em julho de 1964, o presidente Lyndon B. Johnson assinou o Civil Rights Act, lei que definitivamente condenava qualquer tipo de discriminação a negros nos Estados Unidos. Mas os estrago já tinha sido feito, e o mito de que negros não surfavam – explicito na frase comumente proferida “blacks don’t surf”, tanto por brancos quanto pelos próprios negros - estava profundamente enraizado na cultura esportiva e comportamental do país.

Assim como a noção infundada de que negros também não saberiam nadar, originada do mesmo momento histórico em que eles foram banidos das praias, piscinas e tudo que fosse relacionado ao meio ambiente aquático no país.

O tamanho desta lacuna pode ser dimensionado no episódio relatado pelo fundador da Black Surfing Association, Tony Corley, que no início dos anos 70, tendo conhecido apenas dois outros surfistas negros até aquele momento, precisou escrever uma carta para a revista Surfer solicitando que outros surfistas negros entrassem em contato.

A carta, publicada em 1974, teve sua primeira resposta algumas semanas após sua veiculação, com um “brother” dando a ele a alegria de não estar sozinho na sua missão. Mas a segunda resposta foi uma carta de ódio racista, repleta de ameaças. Eventualmente outras cartas de surfistas negros foram chegando à sua caixa postal, o que deu origem a associação que ele ainda continua liderando.

No surf, a pratica nefasta do localismo, onde alguém é discriminado por sua origem territorial e não pela cor da sua pele, é bem mais comum que o racismo, ainda que às vezes localismo e racismo se sobreponham. Os incidentes racistas mais famosos envolvendo surfistas nem se deram na praia ou no mar, e foram perpetrados contra surfistas e não por surfistas.

Duke Kahanamoku teve serviços recusados em hotéis e restaurantes americanos quando se encontrava a caminho da Olimpíadas de 1912, na Suécia, onde conquistaria a medalha de ouro nos 100 metros nado livre e a de prata no revezamento de 200 metros nado livre. E Eddie Aikau foi proibido de se hospedar no Malibu Hotel em Durban, na África do Sul, quando foi ao país, ainda vivendo sob o regime do “apartheid” para competir no Gunston 500 de 1972. Na ocasião, o pai do então futuro campeão mundial Shaun Tomson, o convidou para que se hospedasse em sua casa.

O que se percebe é que o racismo que afastou os negros do surf não veio dos surfistas brancos em si, mas de uma situação estrutural da sociedade americana que impediu a presença de negros nas praias. Inicialmente através de leis segregacionistas e mais recentemente como consequência de políticas governamentais que impedem populações de menor poder aquisitivo de viverem em proximidade da praia, afastando-as do litoral “branco” pelos altos custos das propriedades, impostos e serviços.

Tanto assim que, em 1998, como ele mesmo conta, o apresentador de tv americano negro Sal Masekela, conhecido por suas coberturas de eventos de surf e residente em San Diego, foi parado, ao sair do mar, por uma família de turistas que pediram que ele posasse para uma foto. Quando Masekela perguntou a razão, o pai explicou, “nós só queremos mostrar ao pessoal da nossa cidade que negros também surfam”.

Provavelmente o surfista negro com mais visibilidade na atualidade, Masekela é um dos mais eloquentes entrevistados do filme White Wash, e em uma de suas participações explicita que seu grande sonho é deixar de ser um surfista negro, e passar a ser apenas um surfista. Em outra entrevista, esta para o site Inertia, sobre racismo no surf, Masekela discursa de forma contundente contra os preconceitos que ainda bloqueiam o caminho das ondas para os negros americanos. E revela outro de seus sonhos, o de ver um surfista negro campeão mundial de surf.

Que negros surfam, e os mais talentosos entre eles excepcionalmente bem, é algo indiscutível. O que dizer de Buttons Kaluhiokalani, um dos surfistas mais criativos e espontâneos de todos os tempos, meio negro, meio havaiano? Ou de Tinguinha Lima e Jojó de Olivença, para citar somente dois fora de série brasileiros, e de Gilbert Brown, o “rasta surfer” inúmeras vezes campeão nacional na Costa Rica, e também dos amigos de Kelly Slater que dividem com ele os tubos de Soup Bowls em Barbados?

O que eu diria é que muitos surfistas brancos perderiam seus postos no Tour Mundial e seus patrocínios se houvessem mais surfistas negros nos Estados Unidos em particular e no mundo de maneira geral. Basta ver o que acontece em outros esportes, até mesmo naqueles considerados “esportes de branco”, como o golfe, com Tiger Woods, o tênis, com Serena Williams, a Fórmula 1, com Lewis Hamilton. #vaiwiggolly.

Voltando a Nick Gabaldon, que desde 2013 tem seu dia, 1º de junho, no calendário de homenagens da cidade de Santa Monica e vem sendo cada vez mais descoberto e reverenciado, mesmo assim acredito que tenha sido prematura a escolha dele para figurar nas listas mencionadas de surfistas mais influentes da história. Basta comprovar o ainda pequeno número de surfistas negros, e o desconhecimento do legado de Gabaldon entre a vasta maioria dos brancos, para se chegar a esta conclusão.

Mas quem sabe num dia não muito distante, talvez quando tenhamos o primeiro campeão mundial negro sonhado por Masekela, Nick Gabaldon alcance a notoriedade que merece, para que sua mensagem de liberdade seja propagada com ainda mais força, efeito e amplitude.

P.S.1 Enquanto eu trabalhava neste texto, um homem branco de 21 anos de idade assassinou nove negros num igreja metodista em Charleston, na Carolina do Sul, nos Estados Unidos.

P.S. 2 O ponto final nesse texto foi colocado ao som do álbum “A Love Supreme”, de John Coltrane, músico negro que influenciou toda uma geração de surfistas de Malibu nos anos 50/60.


 


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