26 de Julho de 2017 |
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16/07/2017
1ª Feira Criativa do Jongo de Pinheiral: Resistência é tudo!
Sandra Martins é jornalista, integrante da Cojira/Rio/SJMPRJ e mestranda no PPGHC/UFRJ

Rio - Tem coisa mais gostosa do que curtir um friozinho com amigos numa roda de jongo em uma cidade do Sul Fluminense? De fato não. Pois é... O convite partiu de um amigo tornado sobrinho, que nos deu este presente: a 1ª Feira Criativa do Jongo de Pinheiral no dia 9 de julho de 2017. Expectativas mil. O passeio começou cedinho. O ônibus para Volta Redonda partindo às 6h de Niterói. Três horas depois, outro para Pinheiral. Difícil é lutar contra o sono para não perder a vista do caminho lindo.

Nosso Rio de Janeiro é muito bonito. E, fiquei pensando no evento que iríamos participar (eu e meu companheiro) e lembrei-me de dois dados que merecem destaque. A meu ver, em certa medida se relacionam com a 1ª Feira Criativa do Jongo de Pinheiral.

O primeiro destaque é a Década Internacional dos Afrodescendentes, criada pela Assembleia Geral da ONU – Afrodescendentes: reconhecimento, justiça e desenvolvimento de 1º de janeiro de 2015 a 31 de dezembro de 2024. E, no domingo, a UNESCO declarou o Cais do Valongo como Patrimônio da Humanidade. Olha que barato, as comunidades perceberam a importância destes elos negros!!! Ou seja, são elos transcendentais.

Estes elos são ancestrais que estão em todos os lados para frente, para trás, para cima e para baixo, circulando. Nós Negras e Negros, Indígenas e Não Brancos fazemos este país ser o que é e o que deveria ser. Esta bagunça que está aí é o que Eles fazem.

Mas... voltemos ao Evento - muito bonito, envolvente e energético, que tendo os merecidos e direitos reconhecidos –, poderá trazer muitos contributos para o município. Sua história de lutas vem de longe, parcerias também, assim como as dimensões de possibilidades.

Maria de Fátima da Silveira, Fatinha do Jongo, líder do grupo Jongo do Pinheiral, nos contou que lutam com dificuldades para a regularização do Quilombo Urbano conforme os trâmites da Fundação Cultural Palmares. Constituíram uma Organização Não Governamental devidamente registrada e mantém uma sede onde desenvolvem atividades culturais, formação, capacitação e etc., ainda um espaço alugado, enquanto buscam recuperar o seu próprio.  O caminho é longo, mas estão na lida e na luta. E, o bacana é que não estão sozinhos. A academia está com estas famílias que se orgulham de sua história.

Segundo Fatinha, a fazenda São José dos Pinheiros onde os Breves (1851) moravam deu origem a cidade de Pinheiral, hoje em ruínas (Parque das Ruínas). Lá se encontra o Memorial Passados Presentes trabalho fruto da parceria do grupo de Jongo de Pinheiral, Pontão de Cultura do Jongo/Caxambu, Labhoi (Laboratório de História Oral da UFF) e Petrobrás. Quem quiser mais informações pesquise o site.  O Comendador Breves era um dos maiores traficantes de escravizados africanos.

A pesquisadora Daniela Paiva Yabeta de Moraes em sua tese de doutorado História, memória e direito na luta pela titulação de um território quilombola no Rio de Janeiro traz o relato dos quilombolas da Ilha de Marambaia, também de posse do poderoso senhor, rico e influente empresário. Mais informações no site <http://www.historia.uff.br/stricto/td/1604.pdf>

Há muito tempo, em 2008, um dileto amigo, João Malerba, me convidou para fazer um dueto num artigo sobre como a imprensa cobria a pendenga entre os quilombolas de Marambaia e a Marinha. Aprendi muito sobre os discursos midiáticos não muito diferentes entre os séculos 19 e 20. E da dureza da luta pelo reconhecimento da existência humana do negro. E olha que o tema é arquiantigo para no tocante aos embates sobre o negro no Brasil. O título da revista dos quilombolas de Marambaia diz tudo: “Existimos!”. Mais informações no site < http://www.intercom.org.br/papers/regionais/sudeste2009/resumos/R14-0776-1.html>

E, lembro-me das histórias do Comendador Breves. De arrepiar cabelos de careca. Ele era aquela figura deletéria que usava a Ilha de Marambaia como ponto de recepção de escravizados africanos, antes e depois da proibição do tráfico. Os ingleses ficavam vigiando os meninos levados, que ao serem pegos na peraltice, jogavam a carga ao mar... É povo... jogavam negros e negras, africanos e africanas que foram sequestrados de suas aldeias para os tubarões comerem, para que gente como Comendador Breves não fosse parar nos tribunais. Lembra alguma coisa como o que ocorre agora de tubarões de colarinho branco jogando os pretos pobres servidores eleitores no lixo enquanto alguns dos de sempre se safam?... Pois é...

Enfim, Marambaia recebia africanos escravizados e que os distribuía para as fazendas do Comendador Breves. E uma delas era a de São José dos Pinheiros.

O pessoal da universidade – da qual tive o prazer de conhecer a professora Mônica Sacramento, pesquisadora do Programa de Educação sobre o Negro na Sociedade Brasileira pela ONG Angola, e meu lindinho João Alípio Cunha, mestrando em Antropologia Social pelo Museu Nacional/UFRJ, Assessor Comunitário pelo Pontão de Cultura do Jongo/Caxambu – que muito tem ajudado neste trabalho de sistematização de informações. E, isto ajudou na construção de outras possibilidades, como ocorreu com a construção da própria Feira Afro.

 

Conforme João Alípio, ela é fruto de dois seminários de turismo comunitário feitos em parceria pelo Pontão de Cultura do Jongo/Caxambu coordenado pela professora Elaine Monteiro, que ele assessorou junto com a bolsista de produção cultural Rosa Caytania e o grupo de Jongo de Pinheiral. E, gente, vamos combinar, uma mão sozinha pode até lavar o rosto, mas duas mãos juntas lavam o corpo e, várias mãos unidas movem montanhas!!!

 

Mas, também na construção de outras possibilidades, como a da própria Feira Afro. Conforme João Alípio ela é uma das atividades fruto de dois seminários de turismo comunitário feitos em parceria pelo Pontão de Cultura do Jongo/Caxambu coordenado pela professora Elaine Monteiro, que ele assessorou junto com a bolsista de produção cultural Rosa Caytania e o grupo de Jongo de Pinheiral. E, gente, vamos combinar, uma mão sozinha pode até lavar o rosto, mas duas mãos juntas lavam o corpo e, várias mãos unidas movem montanhas!!!

Foi justamente isso que Fátima do Jongo disse que buscaram fazer: unir a galera, unir irmãos e irmãs. Na empreitada de trazer visibilidade e recursos para este evento, convidando os/as empreendedores. Uma grande sacada!!! É por aí. Pois a união faz a força e possibilita que negros e negras construam e fortifiquem suas redes de sustentabilidade de forma profissionalizada. Havia profissionais com experiência de gestão de redes sociais, como outros que ainda tinham uma relação mais convencional. As gerações se intercambiavam no espaço da exposição e gastronomia. Isso é muito interessante e rico.

Esta primeira iniciativa foi muito bacana e, certamente, virão outras. Valeu a pena acordar cedo. Um detalhe que marca um ponto positivo para a Prefeitura, foi o toldo, enorme e muito legal. E, o pessoal, super criativo, colocou um “chão acarpetado”... Isso, luzes na passarela... Arrasou! Pessoal, parabéns. Tenho certeza que a Prefeitura vai ampliar a ação com vocês vendo para além do hoje. Atentando para novas possibilidades de turismo cultural para esta cidade, colocando-a no mapa de novas perspectivas acadêmicas diaspóricas nacionais e internacionais!!!

 


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