12 de Dezembro de 2017 |
Última atualização :
Comentamos
Racismo: causas e consequências - palestra na Câmara Municipal de Botucatu - S. Paulo
19/08/2017
Na boca do lobo
Mario Dd Santos

É jornalista nascido em Angola e radicado no Brasil

Em Angola, aproxima-se o momento, em que a ansiedade dos seus cidadãos se eleva. Dia 23 de Agosto haverá eleições. Misturam-se os ceticismos das funestas continuidades, com  a esperança tracejante no fim  da governança do MPLA - o  mais poderoso partido.  

Os desabafos e as queixas, cada vez mais fortes, que saem da boca do povo (principalmente) em Luanda, a capital, definem bem o  descontentamento e destapam uma  impaciência, que a direção de mais de quatro décadas do MPLA e de cerca de 36 anos dirigida por José Eduardo dos Santos, conseguiram criar. 

Desta vez, formalizada pelo partido, este presidente, que fora o mais jovem de todos quando começou,  terá a substituição de João Lourenço, um expoente da entourage - não dos maiores – já que os indiscutíveis delfins são Kopelipa e Manuel Vicente, este último que viu reduzida a expressão política alcançada com a designação de vice-presidente, depois  do conhecimento público de buracos financeiros descobertos nas contas da Sonangol - a petrolífera de Angola.

Entretanto, se realísticamente, Vicente não  tem mais o poder político de antes, é no entanto, (segundo a revista Forbes) mais  rico que José Eduardo dos Santos. Nas listas de milhões e centenas de milhões, que são as expressões numéricas que mais se mencionam em Angola, ele está sempre entre os primeiros. Curiosamente, estas expressões são também como os símbolos da causa e efeito, do marasmo em que vive Angola. São as exorbitâncias constantes que desfilam dos balanços e das prestações de contas, para as colunas da imprensa e autos judiciais, dentro e fora do território.

João Lourenço é também um participante da lista dos milhões. O posto militar de general, permitiu, assim como  a  uma pleia vip do generalato de Angola, a generosa recompensa de exploração mineiras e de outras situações econômicas rentáveis. Mas é à sua postura de duro e severo político, que potencialmente se deve a indicação para a candidatura. Ocupa o cargo de Ministro da Defesa, curiosamente acumulado com a candidatura de  presidente.

De resto, a forte insaciabilidade de comando, que lhe caracteriza, tinha sido há mais de 10 anos atrás, através de pronunciamentos públicos, exteriorizada com tal vigor, que Eduardo dos Santos, a figura do  real comando, tomando como impertinência e como um ensaio de concorrência, retirou-lhe o protagonismo político de que dispunha até então. Diligentemente manteve uma obediência crítica e conseguiu sufocar as exuberâncias que lhe eram peculiares, deixando a óbvia imagem duma lealdade austera ao seu  partido. Talvez, não por mero acaso, essa cruzada de fiel monge, valeu-lhe esse prêmio.

O usufruto do prêmio se mostra, contudo, um pouco complexa. José Eduardo dos Santos, em função da cedência a João Lourenço, manterá a liderança do Partido, (como sempre fez) que, por sua vez, vai continuar a mandar no governo e no novo chefe que o guiar. O poder político, do futuro ex-presidente vai, deste modo, manter ainda a expressão forte.

A vassalagem ideológica estará formalmente imposta. A vaidade do antigo presidente não precisará de ser posto no baú das recordações, porque um especial estatuto recentemente criado para quem tiver sido Presidente da República em Angola, contém um generoso pacote de privilégios – residência oficial, escolta pessoal, viatura protocolar, pessoal de apoio administrativo, entre outros privilégios. Terá o título de Presidente Emérito, que para muitos ficou com um sentido algo pretencioso.

A cintura familiar multimilionária, constituído pelos filhos - donde se destaca a conhecida Isabel dos Santos - e parentes próximos, continuará como a garantia de um poder, inexistente apenas oficial e institucionalmente. Esta situação será como uma chave-mestre de intersecção na rota, que política e economicamente for  desenvolvida pelo substituto, João Lourenço. De resto estes aspectos configuram dúvidas, quanto a neutralidade da ação do futuro ex-presidente.

De outro lado, os adversários do MPLA e de José Eduardo dos Santos – a UNITA, o histórico movimento-partido rival, que já combateu em armas por mais de 20 anos, até a sua derrota,  a eliminação do seu líder, Jonas Malheiro Savimbi e a capitulação militar da organização. A CASA-CE, um partido criado há cerca de 3 anos, por Abel Chivukuvuku, antigo expoente da Unita e outros dissidentes do MPLA, que  tem alcançado uma apreciável simpatia popular.

Seguem outros partidos de expressão mais modesta, destacando-se uma força política denominada “Bloco Democrático”, que se aliou ao partido de Chivukuvuku, numa coligação para as eleições. Figuras singulares da sociedade civil, completam o quadro dos adversários do MPLA e Eduardo dos Santos, e se enaltecem sobretudo com Rafael Marques, o jornalista-ativista, cuja voz e ação, tem sido permanentemente orientada para denúncia das perversidades da condução de  Eduardo dos Santos, como o maestro da orquestra governativa de Angola e de todos os apêndices – sejam políticos, militares, civis, familiares ou econômico-financeiros.

William Tonet, antigo jornalista, o repórter que informara, a sangrenta batalha de 55 dias no Huambo, em 1992, entre as forças do MPLA e as forças da UNITA, é outra figura que não poupa esforços, através do seu jornal, “Folha 8”, para destapar os descaminhos do Governo e do Presidente.Luaty Beirão, filho da figura (já falecida) do MPLA, que criou a Fundação Eduardo dos Santos (FESA), o jovem que enquanto preso, fizera greve de fome, fazendo parte do famoso grupo dos 15, que no ano passado realizaram manifestações de protesto contra o governo.

Este prossegue, na cruzada de denúncias do regime, até em campanhas realizadas no estrangeiro; outras figuras de destaque na sociedade civil, como:  Justino Pinto de Andrade  (dirigente do Bloco Democrático), Marcolino Moco (ex-primeiro ministro), David Mendes (advogado dos jovens presos, como subversivos) e muitas outras figuras cuja ações vivas ou silenciosas, completam a força da ala da mudança que se anseia e que objetivamente Angola necessita.

O país do petróleo e de diamantes, costa marítima extensa, rios caudalosos, terras férteis e riquezas agrícolas; o país de uma extensão territorial de cerca de 1,246,700 km2 e de uma população oficialmente avaliada em cerca de 26 milhões de habitantes que, no entanto, se revira desesperadamente para uma satisfação, inicialmente impedida pela dominação colonial seguida depois duma guerra civil e atrapalhada ainda, 17 anos após a guerra, por uma condução ambígua e  subvertida  sobretudo nos aspectos sócio-econômicos.

A elite constituída pelos dirigentes do partido e do governo dominante, circundado por familiares, amigos, servidores vassalos e oportunistas que pende duma vasta casta civil e militar, vive faustosamente, desfrutando riquezas obtidas através de subterrâneos e evidentes desvios da Rés-pública, contrasta abusiva e injustamente com os permanentes quadros de precariedade que esboça a miséria da população geral.

Esta continua a reclamar por água corrente, eletricidade, pois que o fornecimento é incipiente – amostra desta situação vem da capital, donde não sai água na maioria das torneiras ou que apenas corre durante algumas horas do dia e a eletricidade se suspende quase regularmente durante vários dias por semana; a saúde é permanentemente seguida presença do paludismo e de surtos de malária. Nos hospitais, as condições básicas são via de regra, bastante limitadas. A falta de seringas e de camas, por exemplo, que forçam pacientes a serem colocados no chão, é um indicador duma saúde deplorável. As pessoas vivem deste modo, potencialmente com o receio recorrente, de que se possa morrer, por causa de uma doença  imprevista.

No ensino, a situação as dificuldades e problemas são inúmeros – vão da falta de professores, a falta de carteiras. Nas escolas das zonas  camponesas, estas vivem num estado lastimoso, chegando mesmo a extremos de ver-se crianças com cadernos no colo, sentadas em paus improvisados como assentos. As crianças têm que fazer longas caminhadas à pé para aceder tais escolas. Os salários dos professores são tão baixos, que muitas vezes estes tentam compensar apelando ajuda dos pais dos alunos. Esta situação de dificuldades se endereça somente para a maioria desprovida de condições, pois que a classe privilegiada, recorre às escolas privadas e enviando, sobretudo para a formação superior, para Europa, EUA e África do Sul.

Com os salários baixos, o custo de vida tornado alto, pela especulação impulsionada por uma cultura social de  ganância, de lucro fácil e pela corrupção exacerbada que domina todo o país, os empregos são difíceis, (já que os fáceis, significam salários irrisórios). A maioria das famílias pobres têm grandes dificuldades por vezes, até mesmo para manterem uma refeição diária. Existem casos alarmantes de desnutrição nas áreas do interior e fora das grandes cidades.  

A habitação em Angola está como uma via, onde se transitam duas situações opostas – a riqueza e a miséria. A alegada construção de casas comunitárias, conhecidas como “centralidades”, que seria para albergar milhares de famílias, acabam sendo pertença velada de figuras ligadas ao poder ou ficando com quem já possui. Apesar das rede de estradas, que foram realizadas ligando as cidades principais, os transportes públicos não respondem às necessidades das populações carentes.  

Os desabafos e queixumes em Angola chegaram a tal ponto, que perfuram e rompem o tecido de contenção imposto pelo sistema, para limitar a liberdade da expressão. As redes sociais têm sido um veículo principal para a exteriorização do descontentamento.

Do resultado dessas eleições sairá as premissas do futuro de Angola e do seu povo: a continuidade com o MPLA e o legado de José Eduardo dos Santos, ou uma experiência nova de governar esse país, através da UNITA,  a principal força política, ou a CASA-CE, o partido emergente.   

As incógnitas são muitas e a situação desse povo configura metaforicamente - como canta Paulo Flores, um cantor angolano - o quadro dos coitados que vivem na *Boca do Lobo, num arrepiante banquete de bichos, assistido inerte e pasmo por filhos deserdados, emigrados e desgraçados.

PS - Veja o vídeo da canção que dá o título ao texto, de Paulo Flores - https://www.youtube.com/watch?v=gvQHweIq4w4


"Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Afropress não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo."
Artigos Relacionados
Como encontrei a minha identidade
William Waack é nosso doloroso espelho branco!
Clã da Negritude!
Vergonha na cara
Twitter
Facebook
Todos os Direitos Reservados