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02/11/2017
Para ministra negra de Temer, receber só R$ 33 mil equivale a trabalho escravo
Da Redação, com informações do correspondente Edson Cadette e dos jornais Estadão e Globo

Brasília – Depois de causar vergonha e espanto,atribuindo a Michel Temer – o presidente mais impopular da história da República - o papel de “padrinho” das mulheres negras brasileiras, a ministra dos Direitos Humanos, desembargadora Luislinda Valois, voltou a causar constrangimentos ao pedir para acumular salário de ministra com aposentadoria de desembargadora, o que elevaria os seus vencimentos de R$ 33,7 - o teto na administração pública federal - para R$ 61,4 mil.

A ministra ainda afirmou que o fato de não receber acima do teto “a situação se assemelha ao trabalho escravo, sem sombra de dúvidas”. Disse mais: “Eu, como desembargadora aposentada, posso botar um chinelinho simples e ir a qualquer lugar. Mas como ministra de Estado, não posso fazer isso. Eu tenho uma representatividade. Não de luxo, mas de pelo menos me apresentar trajada dignamente. É cabelo, é maquiagem, é perfume, é roupa, é sapato, é alimentação. Porque, se eu não me alimentar, eu vou adoecer e, aí, vou dar trabalho para o Estado. É tudo isso que tem que ter. Então, eu pedi, formulei o pedido, como qualquer pessoa que se achar no direito pode requerer”, disse Valois que, como ministra, tem direito a carro com motorista, jatinho da FAB, cartão corporativo e imóvel funcional.

Luislinda é filiada ao PSDB da Bahia e foi candidata a deputada federal pela legenda nas eleições passadas, obtendo 9.557 votos. A honraria atribuida a Temer como "padrinho" das mulheres negras aconteceu em abril em solenidade no Palácio do Planalto.

A declaração foi repudiada pelas entidades e organizações de mulheres negras de todo o país.

Omissão e silêncio

Em setembro passado, a ministra, convidada especial da Prefeitura de Newark, New Jersey, nos EUA, para as festividades do Dia da Independência do Brasil, recusou-se a responder a uma pergunta do correspondente de Afropress, em Nova York, Edson Cadette, sobre a matança de jovens negros nas periferias brasileiras.

“Esta pergunta eu não vou lhe responder poque ela tem uma tendência governamental e eu prefiro não responder. Eu não tenho dados aqui palpáveis e aí fica difícil prá mim para responder esta pergunta. Em outra oportunidade eu lhe respondo quanto tiver os meios, dados concretos nas mãos eu lhe respondo”, esquivou-se.

Além de omissa, a ministra revelou-se desinformada. Os dados são públicos. O Mapa da Violência de 2016, produzido pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), revela que vem aumentando a violência contra a população negra no país. A taxa de homicídios de negros aumentou 9,9% entre 2003 e 2014,, passando de 24,9% para 27,4%. De acordo com a pesquisa morrem 2,6 vezes mais negros que brancos vitimados por armas de fogo no Brasil. O curioso é que as informações estão no site da própria Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), vinculada ao ministério dirigido por Valois.

Intolerância religiosa

Na entrevista ao correspondente Edson Cadette a ministra, que se diz praticante do candomblé, minimizou o surto de intolerância contra as religiões de matriz africana no país. “A intolerância, ela existe também no mundo inteiro. As pessoas nao aceitam nossas religiões de matriz Africana em todos lugares. De maneira nenhuma. Onde existe  gente, todos os problemas sao iguais. Não é privilégio deste ou daquele país. Agora nós temos que melhorar  exatamente a qualidade de vida do nosso povo. É o que nós estamos fazendo, saindo pelo mundo, principalmente, para pedir a paz. Porque onde se tem a paz se tem o sossego e se tem o sucesso”, afirmou.

No vexame em que pediu o aumento do seu próprio salário comparando a sua situação ao trabalho escravo, a ministra ainda tentou justificar o desatino: "Eu fiz uma alusão, uma simbologia (ao trabalho escravo), porque todo trabalho que se executa e que não tem as respectiva remuneração, ele não é correto, ele não é um trabalho legal", disse.

 


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