20 de Novembro de 2017 |
Última atualização 0:0
Comentamos
Nós somos a cara do Brasil
03/11/2017
Metrô/Rio e Dove:racismo, branquidade, branquitude e negritude, categorias em disputa
Marcelino Conti

É antropólogo. Mestre em Antopologia e doutor em Ciências Jurídicas e sociais pela UFF
O que liga  as campanhas publicitárias do MetrôRio no Brasil e a campanha da Dove nos Estados Unidos?.
 
A propaganda do MetrôRio sobre a Linha 4, que liga a Zona Norte à Barra da Tijuca, colocada na estação Antero de Quental, no Leblon, a peça um (banner ) mostra dois casais, um branco e outro negro, cada um em uma ponta da placa. Entre eles, a frase: "Linha 4 – conectando o Rio de ponta a ponta", numa leitura  critica, o casal negro representa os moradores da Zona Norte, enquanto o branco simboliza os da Zona Sul, sugerindo as  dicotomias preto pobre periférico versus branco rico e zona nobre.
 
A propaganda Dove um anúncio de três segundos para um sabão líquido, uma mulher negra que, supostamente, usou o sabonete, tira uma camiseta da cor de sua pele para revelar-se uma mulher branca, o antes e o depois, remete a  imagem da pessoa negra como suja, e que, ao tornar-se  branca, está limpa.
 
Ambas as empresas imediatamente retiraram as peças do ar apresentando uma protocolar nota para o público onde lamentavam e pediam desculpas pela propaganda considerada racista, e se calam, repetem a estratégia do silenciamento do branco diante da historia de “desumanificação” do negro.
 
Essas não são as únicas ( e não serão as últimas) propagandas que revelam o racismo antinegro, várias outras marcas já cometeram os mesmos erros, mas por que então os publicitários continuam a  repetí-los?
 
A reação dos internautas denunciando como racista, irresponsável, insensível, desconectada, desagradável, entre outros termos, as peças publicitárias, levanta a questão do papel do branco nas relações raciais do mundo e, em particular, do Brasil, emergindo uma disputa entre as categorias Branquitude, Branquidade e Negritude, palavras carregadas de sentido ideológico.
 
A primeira definida como um estágio em que o individuo branco alcança a conscientização e negação do privilégio que detêm, abdicando do direito dado pela vantagem estrutural em relação aos negros, diferenciando da Branquidade praticada por indivíduos brancos que avocam pra si a condição ideal e única de ser humano, portanto, o direito pela manutenção do privilégio perpetuado socialmente, em contraponto está a Negritude que são práticas do individuo não branco em busca de uma construção de uma identidade negra positiva, um sentimento de orgulho racial, de valorização da riqueza cultural dos negros, buscando reencontrar a sua subjetividade negra em resposta a sua conscientização da opressão da opressão colonialista.
 
As peças publicitárias criadas por uma equipe de profissionais de raras competências, porém, incapazes  de detectar antes de torná-las públicas o seu teor racista, isso se explicaria por que a Branquidade se esconde atrás de uma característica de normatividade.
 
Estudando o conceito de Branquidadeproposto por Ruth Frankenberg (2004) aprendemos que é uma categoria socialmente construída sendo um resultado da história e, portanto, uma categoria relacional; que é um lugar de vantagem estrutural na sociedades estruturadas na dominação racial; é comumente redenominada ou deslocada dentro das denominações étnicas ou de classe; como lugar de privilégio, a Branquidade não é absoluta, mas atravessada por uma gama de outros eixos de privilégio e subordinação relativos; que dinamizam o privilégio racial, e  por fim é um ‘ponto de vista’, um lugar a partir da qual nos vemos e vemos os outros e as ordens nacionais e globais
 
Dentro de sua  Branquidade as equipes das agências de propagandas, tanto americana como a brasileira, não perceberam o erro (antes) e não admitiram que tenha cometido um erro (depois), somos  nós que  em nossas ações de branquitude  e de negritude nos sentimos incomodados.
 
Mas precisamos fazer mais.
 
A publicidade, a mídia, são mensagens que tem o objetivos de falar com a  maioria, as minorias não são os alvos de grandes campanhas, o baixo poder aquisitivo ou o menor  número de  pessoas não despertam interesse do mercado, e  se eles precisam criar a empatia com a maioria, basta ignorar a  diversidade e a pluralidade.
 
Temos  uma  mídia que reproduz o sistema, fazendo com que ele se perpetue, pois suas mensagens não produzem impactos na sociedade. O racismo é um tema que precisa ser discutido em todos os lugares. O racismo é um problema de todos e não só do negro.
 
Precisamos ampliar a representatividade dos negros na sociedade e na mídia como um todo, não só na publicidade. Como as agências querem atingir ao publico negro? Como criar campanhas que falem com negros sem ter negros na  equipe de planejamento, de criação e produção as campanhas?
 
Não duvido que agora estejam com um sentimento de frustração enorme por ter recusado em seus quadros candidatos negros qualificados, motivados pela branquidade.
 
Vale lembrar que racismo mata, as campanhas publicitarias aqui citadas causaram dores e  matam, pois reforçam a  segregação, a inferioridade. As desculpas protocolares de nada valem, a retirada da campanha depois do estrago que causou nada vale, necessário se faz ações reparadoras aos valores culturais e individuais do negro.

"Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Afropress não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo."
Artigos Relacionados
William Waack é nosso doloroso espelho branco!
Clã da Negritude!
Vergonha na cara
Precisa-se de alguém para defender essa ministra. Dela própria.
Twitter
Facebook
Todos os Direitos Reservados