20 de Novembro de 2017 |
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Nós somos a cara do Brasil
10/11/2017
Em viagem a Nova York Douglas Belchior fala em levante negro
Edson Cadette é correspondente de Afropress em Nova York

Nova York/EUA - Fazendo uso de metáforas como as duas bombas atômicas lançadas no Japão pelos Estados Unidos durante a II Grande Guerra Mundial, para se referir a situação da população negra no Brasil, e em tom apocalíptico em que chega a anunciar "um levante negro no Brasil", o líder fundador da ONG Uneafro Brasil - uma dissidência da Educafro do frei católico franciscano, David Raimundo dos Santos -, Douglas Belchior, está nos EUA.

Em Nova York ele denunciou a violência que mata mais de 60 mil pessoas no Brasil por ano atingindo desproporcionalmente os jovens negros na faixa etária entre 15 e 29 anos, em um debate patrocinado pelo Centro de Graduação das Faculdades de Nova York (CUNY). O debate tratou de temas tão díspares, quanto estranhos aos temas da pauta política no Brasil hoje: “Democracia Funcionando?” – Nacionalismo Branco, Violência Racial e de Gênero no Brasil, Golpe de Estado, e o Acordo Depois da Paz na Colômbia”.

No final do debate, Belchior que, no Brasil não fala para a Afropress (algumas vezes, chegou mesmo a recusar-se a conceder entrevistas ao veículo por rejeitar sua linha editorial) aceitou conversar com o nosso correspondente Edson Cadette. Falou de genocídio da população negra - palavra de ordem que enfatiza a propaganda do assassinato pela Polícia de que são vítimas majoritáriamente jovens negros; falou (mal, claro) da grande mídia, mesmo sendo blogueiro da Revista Carta Capital, e no tom messiânico com que, normalmente dirige as plenárias da sua entidade, se disse construtor da unidade e porta-voz de uma grande aliança da luta negra nas Américas. "Nossas viagens aos EUA e a outros países da América Latina tem sido para construir esta unidade. O povo negro no mundo espera do povo negro brasileiro esta iniciativa, e nós vamos tomá-la", disse.

Apocalítico, chegou a anunciar: "Nó vivemos um levante negro no Brasil, de radicalização da organização política", pregou.

Veja esta e outras afirmações da viagem de Belchior, lendo a sua entrevista ao correspondente de Afropress, Edson Cadette.

Afropress: O que o trouxe aos EUA?
 

Douglas Belchior: Nós, da Uneafro Brasil, ajudamos a construir dois seminários para discutir Educação popular e experiência da resistência ao genocídio nas Américas ao lado da Iniciataiva Brasil, uma organização  que reúne brasilianistas com sede na Universidade de Brown no estado de Rodhe Island (leste) com a equipe de James Green e Ramon Stern. Então, foram 2 dias de muito debate, muita reflexão com estudantes da Universidade, ativistas, e também pesquisadores.

Afropress: Qual a importância de levar o tema do genocídio dos jovens negros no Brasil para fóruns internacionais?

DB: Lamentávelmente, o racismo é algo sistemáticamente negado no Brasil enquanto principal estruturador da desigualdade e da violência. A população negra no Brasil é vitima da ação violenta do Estado. O Brasil é o país com a maior população negra fora da África; é o país que mais mata negros no mundo; que tem a polícia mais violenta contra negros no mundo; que tem um governo golpista que insiste em desmontar direitos sociais que já são tão poucos, e que tampouco atende a população negra.

Portanto, a situação da população negra no Brasil é escandalosa. Nós somos vítimas de um genocídio objetivo fruto de um país que vem de uma história de 400 anos de escravidão, e que se reorganizou pós- abolição para manter as elites, para manter o status quo, para manter a supremacia branca como aquela que representa e pratica a direção do Estado. Então, denunciar o genocídio é uma tarefa histórica que o movimento negro vem fazendo desde sempre, e que nós aqui só assumimos o bastão na nossa geração e continuamos a fazer isso. Resistindo e lutando. Estudando e lutando.

Afropress: Com isso você acredita que ajudará desmistificar a ideia errônea propagada pelo governo brasileiro que o Brasil é uma Democracia Racial?

 

DB: O Brasil nunca foi sequer uma Democracia. Muito menos uma Democracia Racial. Esta tese já é contestada há décadas. Embora ela se estabeleça como uma prática cotidiana ainda na educação brasileira, fomentado por instituições e pela própria grande mídia. Mas, nós vivemos um momento de levante negro no Brasil. De radicalização da organização política negra. Exigência de participação nos espaços de construção política, e também da ocupação dos espaços da direção política nos processos. A população negra hoje não aceita mais ser representada por quem não seja de sua comunidade. Este sentimento tem crescido. E o que tem de mais radical acontecendo no Brasil hoje é a organização negra nas diversas esferas. Nós somos a principal base social dos maiores movimentos. E a gente tem formulado a partir daí e reinvidicação lugar de liderança a  partir daí.

Afropress: Na sua opinião por que as pessoas brancas no Brasil acreditam que o racismo é algo interpessoal, ao invés de acreditarem que as instituições são racistas e perpetuam a disparidade racial brasileira?

DB: Há uma construção permanente que alimenta esta forma de ler o mundo no Brasil. Todos nós somos alvos de uma disputa permanente ideológica. De uma grande imprensa que educa a população a partir de seus valores. De uma produção cultural. De uma produção do entretenimento que é profundamente  desgastante e negadora da nossa existência enquanto negro. Negadora da nossa humanidade. Desvalorizando a nossa vida. Desvalorizando o que nos temos de melhor em nós. A nossa ancestralidade, a nossa  cultura. Então, imagine você que foram 400 anos de escravidão, e outros agora quase 130 anos de permanente prática de negação da nossa cidadania e negação da nossa identidade. Diante disso a nossa resistência é enorme. Não acho que nós estamos derrotados, pelo contrário. Embora vivamos um momento muito difícil no Brasil, acredito que é deste lugar do sofrimento e da resistência negra que irá surgir algo novo, algo radical que poderá mudar o Brasil de verdade.

Afropress: Faça as considerações que julgar necessárias.

DB: Quero aqui dizer que nós estamos construindo algo que é históricamente necessário. Uma grande aliança da luta negra nas Américas. Agente percebe diversos coletivos construindo neste sentido. Nossas viagens aos EUA e a outros países da América Latina tem sido para construir esta unidade. O povo negro no mundo espera do povo negro brasileiro esta iniciativa, e nós vamos tomá-la.

 


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