20 de Novembro de 2017 |
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Nós somos a cara do Brasil
11/11/2017
Cuidado para não saciar sua sede de sangue elegendo, por descuido, o alvo errado
Editorial

O jornalista William Waack, âncora do Jornal da Globo e do Painel, programa de debates da Globo News – o canal para assinantes da emissora – está no centro de um furacão, com a carreira ameaçada, acusado de racismo por ter sido flagrado fazendo um comentário em referência a alguém que passava buzinando enquanto se preparava para entrar no ar - “É coisa de preto...”.

O jornalista disse não se lembrar do comentário, que ocorreu na cobertura das eleições americanas no ano passado, porém, antecipou-se no pedido de "sinceras desculpas àqueles que se sentiram ultrajados". O pedido não evitou sua punição pela emissora, com a suspensão sumária dos programas que ancorava.

O comentário de Waack, que vazou nas redes sociais, revela e expõe a subjetividade de boa parte da população brasileira, formada sob a cultura de um país que não ajustou contas com os quase 400 anos de escravidão.

Em nosso país, negros – além de ocupar a base da pirâmide social (somos os mais pobres, dentre os mais pobres) – também somos invisíveis nos espaços de poder; no imaginário e no senso comum racistas somos vistos como, naturalmente, inferiores.

Daí que a expressão “é coisa de preto” com que Waack se referiu a quem passou por ele buzinando, enquanto se preparava para entrar no ar, é equivalente ao famoso ditado conhecido de todos nós de que “negro quando não c... na entrada c... na saída”.

Toda a subjetividade brasileira está fortemente marcada por essa visão e, claro, que essa percepção permeia grupos e classes sociais. A República por aqui se construiu sob os escombros do escravismo. Os donos da Casa Grande, jamais fizeram qualquer esforço para que o Estado adotasse políticas verdadeiramente inclusivas da maioria da população.

Não é segredo também, que por força da submissão ideológica, negros – embora constituam a maioria da população – acabam por reproduzir essa percepção no seu dia a dia.

Só demagogos ou os (as) intelectualmente desonestos (as) - e a desonestidade intelectual é a mãe de todas as demais formas de desonestidade - não reconhece isso. Waack, portanto, não está só.

A reprodução de estereótipos que associam negros à inferioridade e à ações negativas, bem como ao feio, ao sujo, o suspeito-padrão de qualquer crime e em qualquer circunstância, é diária, diria mesmo, cotidiana.

O que fazer?

Assumir a condição de juízes e instituir tribunais de julgamento nas redes sociais para uma espécie de linchamento pessoal e profissional, do acusado? Ou cobrar da Globo, que insira na sua linha editorial a defesa de um programa de reeducação antirracista, a começar dos seus profissionais, para que entendam a diversidade brasileira e passem a identificar o racismo como elemento estruturante da desigualdade social, que faz do nosso país um dos mais desiguais do mundo?

Não gostamos desse clima de tribunal, de caça às bruxas; de negros x brancos. Nós, negros, quase e históricamente sempre fomos vítimas da intolerância desse clima de "torcida organizada", e quase sempre a histeria leva a mais histeria e intolerância.

Por outro lado, o vazamento, um ano após o ocorrido, ao invés de esclarecer, confunde. Conhecemos, por experiência própria, esse tipo de indignação seletiva.

Nós, desta Afropress, estamos neste exato momento sofrendo processos que tem como único propósito o cerceamento da nossa liberdade de expressão e de opinião como veículo, direitos assegurados pela Constituição brasileira.

No primeiro caso, um cidadão carioca acionou a Justiça pelo fato de termos noticiado uma iniciativa sua em que pedia, em 2010, a Comissão de Legislação Participativa da Câmara Federal, a revogação da Lei Áurea para garantir o direito dos descendentes de proprietários de escravos. Detalhe: o juízo de primeiro grau, da Comarca de Itaperuna, divisa do Rio com o Espírito Santo (pasmem!) já nos condenou ao pagamento de R$ 5 mil de indenização.

Estamos na fase de recursos e o doutor Hédio Silva Júnior, ex-secretário de Justiça de Paulo, e sua equipe, incluindo a doutora Sandra Machado, do Rio, recorreu ao Tribunal de Justiça do Rio, da absurda e surreal decisão. Embora atue sem a cobrança de honorários, as custas processuais representam um peso e um ônus difícil de suportar para quem mantém, há quase 13 anos, este veículo com trabalho voluntário do editor e de um grupo de colaboradores.

No outro, um delegado de polícia de Vitória nos processa pedindo indenização de R$ 100 mil apenas por termos, em editorial, afirmado que, ao determinar a prisão de uma doméstica negra envolvida em discussão banal com o motorista do ônibus em que viajava, também negro, ofendendo-o racialmente, buscava notoriedade.

Neste caso, em que somos defendidos pelo advogado André Luiz Moreira, também solidáriamente, só com passagens de avião de S. Paulo a Vitória para audiências, e custos com deslocamentos e estadia, representaram peso além da nossa capacidade de suportar.

São, objetivamente, tentativas de cercear, senão impedir, o exercício do nosso direito a liberdade de expressão e opinião, que esperamos sejam repelidas pela Justiça.

Indignação seletiva

E por último, o caso do vigilante da USP, Januário Alves de Santana, tomado, por ser negro, por suspeito do roubo do próprio carro, um EcoSport, em agosto de 2009, numa loja do hipermercado Carrefour, da Avenida dos Autonomistas em Osasco.

O episódio teve repercussão nacional e internacional, e o Carrefour indenizou satisfatóriamente o vigilante, por meio de acordo extrajudicial.

O Estado brasileiro, porém, depois da 2ª Vara Criminal de Osasco absolver os algozes de Santana, ignorando todas as provas dos autos, mantém o processo sem julgamento no Tribunal de Justiça de S. Paulo.

Os recursos do Ministério Público e do advogado assistente da acusação para reverter a decisão de primeira instância, aguardam, há anos, julgamento.

Não se viu em nenhum destas situações, nem ação, nem reação – por mínima que fosse - desse ativismo ávido por holofotes e likes nas redes sociais. Silêncio completo absoluto que, neste caso, é mais que silêncio: é cumplicidade com os algozes e com todos os que há 13 anos tentam silenciar a Afropress como veículo, seja via ameaças inclusive à integridade física dos jornalistas, seja utilizando-se do Judiciário como instrumento de intimidação.

Portanto, nossa posição jamais poderia ser de silêncio diante do caso William Waack. Já foi punido com suspensão e tem a carreira ameaçada.

Agora é hora de cobrar da Rede Globo que dê consequência ao afirmado na nota de que a emissora é "visceralmente contra o racismo em todas as suas formas e manifestações". Faça como o Carrefour que, não apenas indenizou a vítima Januário Alves de Santana, mas adotou um programa de treinamento dos seus funcionários, o que permitiu a empresa ter hoje uma política de valorização da diversidade considerada modelo pelos especialistas.

Porém, não! – mil vezes não! - a histeria inconsequente! Não aos tribunais de inquisição das esquinas, apressados no julgar e condenar sem direito de defesa aos acusados! Não a demagogia oportunista e conveniente desse ativismo apressado e seletivo, que tenta saciar a sede de sangue, elegendo, por descuido, quase sempre, o alvo errado.

 


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